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Maximiliano Galvão foi demitido da Ericsson após denunciar homofobia

Flávio Pereira/ Meon

Depois de vencer o processo judicial movido contra a Ericsson de São José dos Campos por homofobia e assédio moral no ambiente de trabalho, o ex-metalúrgico Maximiliano Neves Galvão quer se tornar um exemplo para todos trabalhadores que sofrem preconceito por causa da orientação sexual.

Mesmo reticente quando o assunto é levantar bandeiras pela causa, neste caso, Galvão não teme a exposição de sua imagem. Contrariando seu comportamento reservado no dia-a-dia, o ex-funcionário pretende “fazer barulho” para alertar as empresas sobre a gravidade do assunto.

“Não se trata de uma campanha. A questão é dar uma esperança para aqueles que estejam sofrendo com assédio moral por causa de sua orientação sexual. Acredito que nada justifique esse comportamento, até porque gay trabalha, paga impostos e ganha sua vida dignamente. Não dá para admitir que as empresas fechem os olhos para este tipo de prática dentro de seus portões”, afirma.

O ex-metalúrgico foi demitido no final de 2013, depois de denunciar ao departamento de Recursos Humanos da empresa os atos de homofobia por parte da gerência e colegas de trabalho. À época, a justificativa dada pela Ericsson foi de que Galvão estava causando tumulto no grupo.

A vitória do processo judicial, em primeira instância, na 5ª Vara do Trabalho rendeu a Galvão uma indenização de R$ 90 mil, que deve ser paga imediatamente pela empresa caso não haja recurso. Entretanto, os quatro anos que conviveu com as brincadeiras consideradas humilhantes podem cobrar um preço ainda mais alto.

“Além de ainda estar desempregado, sobrou também o trauma. É uma questão de auto-estima, só quem sente sabe como é. Depois de me esforçar muito para conseguir esse trabalho (na Ericsson), não consigo nem mais pensar nele. E, quando penso, já me vem logo à mente os episódios de humilhação e insultos. Hoje, nem que me oferecessem o dobro do salário eu aceitaria voltar a uma linha de produção”, desabafa.

Recomeço
Morador de Quiririm, distrito de Taubaté, Galvão cursa o segundo semestre de Biomedicina na Unip (Universidade Paulista) de São José dos Campos. O objetivo é mudar de ares na carreira, deixando de vez essa experiência para trás.

O ex-metalúrgico é casado no civil há dois anos com o farmacêutico Augusto Galvão. A relação vem o ajudando a enfrentar os traumas e rumar para uma nova carreira. 

“Nessas horas é importante ter alguém que goste de você te aconselhando porque, quando passamos por isso sozinho, a tendência é de nos diminuirmos e, aos poucos, nos convencermos que somos tudo aquilo que as pessoas que nos ofendem falam”, diz.

A família é outro alicerce para que o ex-funcionário dê a volta por cima no âmbito profissional. "Eles me apoiaram sempre. Tenho inclusive um irmão gêmeo, já casado e com filhos. Nunca sofri na minha casa o que sofri neste trabalho".

Mesmo não participando de movimentos gays, Galvão reconhece que esses eventos são fundamentais para o reconhecimento dos homossexuais perante a sociedade. Ele aprova eventos como a Parada Gay de Taubaté, marcada para acontecer no dia 17 de maio.

“São nesses eventos que o segmento mostra força e consegue maior representatividade junto a políticos e pessoas influentes. É assim que leis importantes acabam sendo aprovadas. Apesar de não participar, acho fundamental que esses eventos cresçam em número de participantes”, diz.

Outro lado
A Ericsson afirmou, por meio de nota à imprensa, que não comenta casos jurídicos ainda em andamento. A nota informa que o código de ética da empresa defende o respeito entre os empregados independente de religião e orientação sexual.