Estamos conectados na internet e redes sociais, a trabalho ou lazer, grande parte do nosso tempo. As 24 horas do dia têm sido insuficientes para dar conta de tantas informações, mensagens e discussões nas redes. É a era da velocidade trazida pela revolução digital. E com ela surgem alguns dilemas e perigos. 

A rapidez e a amplitude da revolução digital permitiram benefícios jamais imaginados pela humanidade, com os relacionamentos em rede, a simplificação da vida através dos softwares e o acesso ilimitado à informação e ao conhecimento.

Apesar desses múltiplos benefícios, cada vez mais nos tornamos escravos da hiperconexão. O trabalho continua depois do expediente e se mistura com o lazer. Os dias nem terminam, nem começam e lá estão as pendências digitais. Os meses e anos passam mais rápidos e o tempo flui ligeiro.

Desta forma, seguimos cansados pelo excesso de informações e multitarefas do mundo digital, que surgem simultaneamente, de todos os lados. A nossa mente não acompanha e nem processa tantos dados na velocidade das máquinas.

Com mais tarefas e menos tempo, desejosos em acompanhar tudo, alguns ficam irritados, ansiosos, sem foco, impacientes e depressivos; outros não dormem bem, pois não param de pensar. É o adoecimento psíquico da sociedade digital.

A sobrecarga da vida digital também leva à desconexão com o mundo real. Muitos se desconectam física e sentimentalmente das pessoas, formando um universo de seres humanos quase sem alma.

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Com tantas informações e multitarefas, vivemos em uma corrida que parece não ter fim

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O filósofo Byung-Chul Han, no livro "Sociedade do cansaço" (Ed. Vozes), observa que vivemos a era das doenças neuronais, com os transtornos de atenção, as crises de ansiedade e depressões. Ele lembra as advertências de Nietzsche: "por falta de repouso, nossa civilização caminha para uma nova barbárie. Em nenhuma outra época os ativos, isto é, os inquietos, valeram tanto..." e conclui que a nossa sociedade precisa fortalecer mais a contemplação.

A filosofia tradicional nos leva a refletir sobre duas formas de vida: a ativa, que consiste em atuar, mover-se e fazer as coisas; a contemplativa que nos motiva a contemplar a realidade e a vida, a relacionar-se, a entregar-se e admirar as coisas do mundo. É preciso equilibrar mais essas formas de vida; no caso, dosar melhor o mundo real e o virtual, o uso e o abuso.

Na era da hiperatenção, com o desaparecimento do descanso, estamos sentindo a falta da contemplação, de mais convívio off-line, da calmaria, do olho no olho e até do silêncio.

Para a boa saúde física e mental, necessitamos deletar o excesso digital e ter uma vida mais contemplativa, pois, como diria Fernando Pessoa, "a vida é breve e a alma é vasta".