Um coelho incandescente se instalou sem licença numa casinha de esquina do meu coração. Foi numa noite estranha de setembro, bar já fechando, quando ele decidiu que ali queria fazer morada.

Sua presença pacífica ganhou, em tarde insuportavelmente quente de dezembro, contornos muito mais agitados do que de costume. O bichano deu de se rebelar logo após um apático “se cuida, tá?” finalizar mais de uma hora de conversa ao telefone.

Como terra que cai da pá do coveiro, a sentença consternada encerrou um diálogo de silêncios. Silêncios fatiados pelo metal de pensamentos sonsos. Decretou-se um hiato de tempo, então. E a dona do bichinho, a dona de fato, se foi.

Foi acuado então que o coelhinho se inflamou em chama acesa a me lembrar, em altíssimo coelhês, que uma realidade de sonhos, tesouros e andorinhas prateadas como o luar não se enterra desse jeito — e nem de forma alguma.

Saltou , dourado, de dentro do meu peito. Chegando apressado à estante de livros. Suas patinhas faiscantes folheavam um livro colorido até se reterem numa frase. Os olhos me atravessavam em brasa. “É preciso se aninhar na liberdade para ganhar coragem e voar”, sentenciava um tal Bartolomeu Campos de Queirós.

coelho

'Recolhi com cuidado as orelhinhas no recôndito ambiente onde o engavetei'

Divulgação

Mal terminei a leitura, o bichinho mágico, como uma frenética bolinha de pelos, passou a saltar e se debater no teto, paredes e piso de madeira. À medida que seu esforço aumentava, resplandecia, reluzente, pelo quarto. Limpava o limo incrustado de rancores que se acumulavam nas paredes e debaixo da cama.

Rastros de pó dourado flutuavam por todo o cômodo. O calor de seu corpo, zunindo irrefreável à velocidade do sonho, distraiu-me enquanto, sem perceber, meus pés, pontas dos dedos suspensas no ar, deixavam o chão em flutuante passo de dança.

Então, em derradeira estocada, o coelhinho irrompeu de volta para onde veio. Maior, ainda mais brilhante e caloroso, embalava em dourado tudo o que pulsava ali.

Renovado de confiança, disquei de volta. Uma história fantástica na lábia. Um dentucinho orelhudo a me sacudir o peito, empurrando-o em esperança para a reconciliação amorosa.

Do outro lado da linha, calor de praia distante, a moça devolveu, em dois bicos, coelho e eu para o asfalto do desgosto. De mim, já não queria saber nem o nome. Ao bichinho, nenhuma misericórdia pela cúmplice traição.

Guardei-o, encolhido e cinzento, na caixa de fósforos que usei para acender o cigarro. Recolhi com cuidado as orelhinhas no recôndito ambiente onde o engavetei; o coelhinho já dormindo. Ardeu demais, pobrezinho, pensei enquanto caminhava pela rua de saída do coração dela.