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Construção tombada em 2007 é utilizada para festas particulares

Divulgação/Archdaily

Por quantias que vão até R$ 20 mil, pode-se dar uma festa num dos maiores ícones arquitetônicos de São Paulo, a famosa Casa de Vidro da arquiteta Lina Bo Bardi, no Morumbi, cercada por um bosque de mata virgem de 7 mil m². A construção foi projetada em 1950 e é um marco da arquitetura brasileira, comparada à famosa Casa da Cascata de Frank Lloyd Wright (erguida na Pensilvânia em 1935). Foi tombada pelo Condephaat em 1986, por unanimidade, e, em 2007, teve sua proposta de tombamento aprovada pelo Iphan.

A casa tem abrigado diversos convescotes. A Dior fez uma festa lá em abril, com velas nas escadarias, pratos criados por Thierry Marx, show ao vivo da cantora Cris Oak e tudo regado a champanhes Veuve Clicquot, segundo reportagem no portal Terra. O estilista Pedro Lourenço foi outro que a alugou recentemente para a locação de um desfile.

A roda viva tem gerado apreensão de especialistas em patrimônio arquitetônico. Há objeções quanto a esse tipo de utilização - não atenderia aos princípios da fundação do Instituto Lina Bo e P.M. Bardi, que tem sua sede na residência. Há cerca de 7,5 mil desenhos originais de Lina Bo Bardi no edifício, além de fotografias e um terço das obras de arte legadas pelo casal que ali viveu (o restante foi levado pelos herdeiros de Bardi).

O estatuto do Instituto Lina Bo diz o seguinte: "Os objetivos do instituto são exclusivamente culturais e artísticos (...) O patrimônio do instituto, em nenhuma hipótese, poderá ter aplicação diversa da estabelecida neste estatuto".

Em carta de 29 de outubro de 1985, dirigindo-se ao Condephaat, Pietro Maria Bardi afirmava: "Permita-me completar a ideia de minha esposa, Lina, relativa à possibilidade de destinar nossa casa e objetos de arte a uma fundação que possa transformá-la num curioso exemplo de moradia de emigrados, os quais contribuíram para a divulgação das artes no Brasil, tanto no setor da arquitetura, como no setor museográfico, como jornalístico e editorial. Penso que a Casa do Morumbi, uma vez restaurada, às nossas custas, com seu jardim florestal, poderia ser ambientada com uma série de obras de arte de um certo valor, para um dia ser visitada por um público interessado em conhecer um trecho da história da renovação da museografia nacional."

A atual direção do Instituto Lina Bo e P.M. Bardi informou que, como não são cobradas entradas dos visitantes na Casa de Vidro (a maioria de estrangeiros), a instituição tem dificuldades financeiras que precisa sanar com outras iniciativas. O aluguel para festas é uma das saídas encontradas. "Fizemos isso por dinheiro. Procuramos escolher cuidadosamente. A casa não se presta a casamentos, por exemplo, e o número de pessoas é controlado", afirmou uma porta-voz da diretoria, que pediu para não ser identificada.

Um jantar de convidados sentados, por exemplo, pode comportar até 70 pessoas. "Em pé, pode ser um pouco mais", afirma a diretora. Segundo o instituto, todos os eventos com convidados externos são acompanhados por um funcionário, e todo o acervo é fechado e as outras alas da casa interditadas ao público.

O Instituto Lina Bo e P.M. Bardi mantinha uma febril atividade editorial e teórica até os anos 1990. Depois, sua atividade minguou. A última publicação foi Lina por Escrito, livro lançado pela Cosac Naify em 2009. Não tem, por exemplo, nada definido até agora para ser publicado neste ano - em dezembro, completam-se 100 anos do nascimento da arquiteta Lina Bo Bardi.

A Casa de Vidro é, na prática, o motivo da existência do Instituto Lina Bo e P.M. Bardi. Objeto de peregrinação de importantes revistas especializadas em arquitetura, nacionais e internacionais, é uma pequena ousadia artística da arquiteta, cujo enclave na natureza é exemplar.

Mas a manutenção do instituto tem sido um problema para seus gestores recentes.

Sua primeira provisão de recursos foi dada pelo próprio Pietro Maria Bardi, que vendeu um quadro de Goya por US$ 3 milhões, na época, e deixou tudo para que o instituto pudesse levar adiante suas atividades. "Deixo tudo que lucrei aqui, como antiquário, inclusive minha residência, para finalidades culturais", escreveu Bardi em 1992.

"Na época, esse dinheiro rendia muito. Porém, o valor do dinheiro mudou devido aos vários planos econômicos e, quando entrei, já era pouco. E usamos muito dele para arrumar a casa, que estava em mau estado", afirmou uma diretora.

As diferentes formas de levantar recursos têm sido criticadas por observadores. Um ex-presidente do instituto chamou de "miséria moral" o que está acontecendo com a casa. "Outro dia teve um debate lá em que colocaram uma caixinha de acrílico com um furo de cofre para coletar moedas e cédulas de dinheirinho para o instituto", lamentou.

A administração do instituto informou que teve aprovada proposta de patrocínio na Petrobrás e que isso pode ajudar na gestão da Casa de Vidro durante os próximos 12 meses.

O Condephaat informou que não pode fazer restrições quanto ao afluxo de pessoas nem à natureza dos eventos realizados no imóvel. "O Condephaat só pode opinar quando há intervenções físicas na fachada", informou a Assessoria de Imprensa.

O arquiteto Marcos Carrilho, do Iphan, publicou estudo em que analisava a gênese da Casa de Vidro e sua diferença em relação ao modelo de Mies Van der Rohe. Salientou também a importância dos objetos do mobiliário, "uma vasta e extravagante população de objetos, que insistem em ocupar todos os ambientes", anotou.

"De um lado, abriga os produtos da técnica moderna, sejam os artefatos integrados às soluções construtivas, sejam os produtos da indústria moderna e, de outro, uma expressiva coleção de testemunhos da cultura material, obras de arte, objetos de artesanato e mobiliário, de variada procedência, alguns produzidos especialmente para a casa, outros como verdadeira coleção de objetos raros, vestígios de culturas pregressas."