azymuth_e_chico_oliveira

Da esquerda para a direita: Alex Malheiros, Fernando Moraes, Mamão e Chico Oliveira

Azymuth

O grupo carioca Azymuth tem uma carreira perfilada de superlativos. Além da longevidade na produção de discos (são 42, em 45 anos), a maior das façanhas do trio de música instrumental reside no fato de muito da música feita no Brasil nos anos 1970 e 1980 esbarrar no samba jazz grooveado de Ivan Conti "Mamão" (bateria), Alex Malheiros (baixo) e José Roberto Bertrami (teclados) -esse já falecido em 2012, substituído por Fernando Moraes.

O rol de participações da banda em discos de amigos é extensa e digna da frase: "Nós gravamos com todo mundo, cara", de Malheiros. Marcos Valle, Hyldon, Tim Maia, Wilson Simonal, Maria Bethânia, Clube da Esquina, Milton Nascimento, Raul Seixas, Rita Lee, Chico Buarque e Erasmo Carlos são alguns dos artistas que chamaram a banda de apoio Azymuth.

Convidados pelo trompetista Chico Oliveira, o grupo se apresentou no Sesc São José dos Campos na última sexta-feira (5) para reinterpretar clássicos de novela ("Voo Sobre o Horizonte", da novela "Locomotivas"), do samba-jazz ("Partido Alto"), e de hits de fora do Brasil como "Linha do Horizonte" e "Jazz Carnival" -o trio lançou os seus últimos 37 álbuns em Estados Unidos e Europa e ficou um ano no topo das paradas britânicas, o que lhe rendeu um lugar no livro Guinness de recordes.

Antes do show, Chico, Mamão e Alex conversaram com o Meon sobre a "sorte" de fazer carreira fora do Brasil, a noite no Festival de Montreux, em 1977, como a primeira banda brasileira a se apresentar no evento, o apadrinhamento de Chico Oliveira e a sutileza de Azymuth.

Vocês gravaram muito mais discos nos Estados Unidos e Europa do que aqui. Por quê?
Ivan Conti: é verdade. Nós gravamos 37 discos lá e três aqui. Não sei, foi um golpe de sorte. Antes de 1977, nós fizemos "Linha do Horizonte" e outras músicas que foram para as novelas Pecado Capital e Locomotivas. Aí fomos convidados para nos apresentar no Festival de Montreux. Foi uma loucura total.

Como foi?
IC: tocamos depois do Mainard Ferguson [trompetista canadense], às 4 da manhã, foi uma loucura. Nós três e o Carlinhos da Mocidade tocando repique, branco que nem cera porque estava muito assustado. Tocamos "Partido Alto". É um som diferente, não tem nada demais, né, mas não tinha lá. Fomos convidados a ficar mais uma semana ali, foi um grande start. A partir dali gravamos mais de 10 discos com a Milestone [Records]. Bom, se fosse aqui seria espetacular também, mas aconteceu de ser lá.

Como vocês acham que contribuíram para levar a música brasileira para outros lugares?
IC: é gratificante demais. Tocamos com músicos e grandes artistas, foi muito legal.

Alex Malheiros: até hoje tocamos com uns músicos americanos e brasileiros daquela época.

Vocês tocaram com quase todo mundo, na verdade.
AM: pois é, a gente acompanhava tudo quanto é cantor que gravava disco novo. Isso na época em que as pessoas gravavam discos. [risos]

IC: e automaticamente a gente fez uma conexão com os DJs, muito pelo Bertrami, nosso primeiro tecladista, que agora está na orquestra celestial. Ele, com a criatividade dele... O [teclado eletrônico] Moog, era uma loucura que 'nego' dizia 'que som é esse aí?'.

AM: e a gente pesquisava junto com os caras lá fora. O rock progressivo, os instrumentos novos, os analógicos, eletrônicos. A gente contribuiu para fazer esse tipo de som eletro-acústico.

Chico Oliveira: mas quem deu esse pontapé inicial nessa onda do eletrônico aqui no Brasil foram vocês. 

IC: lembro que começou com a Flora [Purim] e o Airto [Moreira], viajando com eles de costa a costa nos Estados Unidos, mas acho que a gente já tinha feito antes. A grande realidade mesmo foi o convite do [músico] Ivon Cury. Ele tinha uma abertura com a Varig e a gente podia trazer muitos instrumentos novos, aqueles aparelhos que estavam acontecendo na época. Mini moog, baixo Clarinet, [piano elétrico] Fender Rhodes. O Bertrami era campeão com isso... As pessoas perguntavam, cadê aquele sonzinho da barata na gaveta que vocês fazem? A gente nem sabia como fazia [risos].

E vocês participaram de muitos discos, como do Marcos Valle, "Previsão do Tempo", e Hyldon, "Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda", muitos outros...
AM: até Chico Buarque gravou com a gente. Alguns dos sambistas da época, até o Candeia fez disco com a gente. Fizemos com todo mundo, desde Agepê a Chico Buarque, Milton Nascimento. Nós gravamos uma faixa maravilhosa no "Clube da Esquina 2", a "Reis e Rainhas do Maracatu". Olha, gravamos muita coisa. Tim Maia também...

A fama do Azymuth é de que é um grupo não apenas de músicos virtuosos, mas que tem uma unidade musical. É isso o que vocês buscam? 
AM: é um somatório, a gente aproveita muitas composições nossas. Existe um tipo de composição nossa que é diferente. 

IC: você vê o Chico Oliveira, entra com tudo no show, compõe também. É essa troca de onda, é isso que é a grande experiência da banda. 

CO: queria aproveitar o ensejo e registrar que a minha primeira parada no Rio de Janeiro foi com o Jotinha [Moraes, pianista, irmão de Fernando] na casa Jazz Mania e fui dar uma canja com o Azymuth. Tremia que nem vara verde. Tô tocando com os caras, Azymuth! Me receberam de tapete vermelho e toquei mal pra caramba. [risos]. E a minha carreira começou por aí, fui muito bem apadrinhado.

AL: Tocou mal nada. Mas essa coisa de minimalismo do Azymuth é de encaixar tudo mesmo. De não ter solista, todos solam. Tem uma atividade cooperativista de acrescentar um ensinamento novo, uma pandeirinho, uma jogada, um ensinamento novo. Como "Partido Alto", que lá fora é coisa de cadeira de faculdade, é gênero. E foi feita da maneira mais sutil. Azymuth é isso, é sutileza.