Por Máriston Rafael Alves Em Blog e Colunas Atualizada em 27 NOV 2020 - 12H51

Diego, el maestro

"Eu me sinto mais solitário do que Kung Fu" (Diego Armando Maradona)

Morreram bandoneons, aos milhares.

A tristeza sempre se sobressai. Insiste em estar.

A rigor, penso, Diego Maradona deveria estar en cementerio de la Recoleta, um panteão de quase todos os grandes mas o mundo não é meu e também penso que a Argentina tem uma tristeza e um tom trágico que Carlos Gardel tanto decifrou quanto conseguiu cantá-los; Don Diego Maradona os absorveu inteiros em si, destruindo-se em sua beleza de atleta encantador e amoroso, como de resto o são os alcoolistas e outros aditos a drogas.

A tristeza da Argentina assentou-se bem em Dieguito e em Gardel. 

Subimos Comodoro Rivadavia a pé - e quase todo o resto que eu queria mostrar a meu filho,

Da Recoleta a La Boca, passando por Abasto, as estátuas são inúmeras. Carlos Gardel nasceu e viveu sua vida pouca em Abasto, os portenhos sabem homenagear seus grandes mas há míseras estátuas de Gardel no trajeto que fizemos.

De Maradona, são inúmeras. 

Comprei duas camisas de futebol oficiais, Associación Futebolística Argentina, uma em azul marinho com um 10 de Carlitos Tevez nas costas; para meu filho que me exigiu.

Mas para minha surpresa:

- Compre uma pra você também, pai !

E a gente não se esquiva de filho, quanto mais pequeno.

Então me vi vestido em outra 10, de Diego Maradona, as listas azuis claras entremeadas de branco.

E foi tudo muito divertido, eu andando por Buenos Aires vestido em camisa de futebol, que nunca soube propriamente o que é nem tenho amor; até fui dono de bola. Mas tão ruim que só o gol me aceitava. Pegava, pelo menos. Não era frango.

Às tesouradas, inúmeras vezes minhas bolas (até uma couraça que meu pai insistiu em me dar mesmo vendo minha incompetência) voltavam quase sempre do quintal de Lourdes Azerêdo, prima carnal de minha mãe e mais ruim do que qualquer pessoa ruim que eu tenha conhecido, destruídas.

Era tudo no entorno do tamarindeiro de Dona Joaninha, que assistia a tudo e ainda nos chamava para água, vez por outra.

Penso que Maradona jogou assim, na infância, mas também penso que a bola o reconhecia fácil, diferentemente do que se dava comigo e se entregava fácil a seu pé, ao estilo mão e luva; era bonito de vir-se, eu o vi em vários jogos.

Na Calle Florida comprei discos de Libertad Lamarque para mim e a obra de Carlos Gardel para Joana Cumbe que me apresentou Gardel. 

Num correio de Puerto Madero, postagem para Itiúba (minha cidade natal), o funcionário simpático abriu trinta e dois dentes e dois braços:

- Maestro!

Achei que fosse com meu filho, que de hábito há essa intimidade futebolística com qualquer menino no Brasil ou na Argentina.

Não.

Era comigo.

Era com Maradona. 

Escrito por
Ton Colunista (Arquivo Pessoal)
Máriston Rafael Alves

Psiquiatra especializado em Esquizofrenias e Dependências de Substâncias Psicoativas, com 27 anos de experiência.

Escritor.

mariston.rafael@gmail.com

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