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Educação sexual e a natureza da pessoa com deficiência

Embora as relações tenham evoluído, muitas vezes a PCD ainda é vítima de repressões tuteladas ou desinformação sobre sexualidade e suas implicações na vida pessoal

Mateus Lima – Professor e pessoa com deficiência visual (Arquivo Pessoal)

Escrito por Mateus Paulo de Lima

24 SET 2021 - 08H41 (Atualizada em 24 SET 2021 - 09H49)

Arquivo Pessoal Mateus Lima – Professor e pessoa com deficiência visual (Arquivo Pessoal)

Oi gente. Igual ao mês de setembro, hoje o nosso tema está quente. Daria um livro. No entanto, direcionarei o resumo deste raciocínio para a igualdade das emoções. Sabemos que a sexualidade sempre esteve presente na história das relações humanas, hora como manifestação de liberdade, hora como elemento repressivo. Assim, em algum momento as opiniões se dividiram e, entre prazer instintivo e dogma reprodutivo, o sexo foi estigmatizado como algo sensível aos propósitos criacionistas em ascensão desde a idade média. Uma ruptura com a natureza do próprio ser. Então, visto que o texto é pedagógico, por favor, peço que experimente essa leitura despido de preconceitos.

Para uma sociedade imediatista e super conectada donde anualmente a indústria do sexo gera bilhões de dólares, crer que a Pessoa Com Deficiência – PCD, seja por qual motivo for, manter-se-á afastada desse universo é uma suposição relativamente ingênua. O corpo pode até apresentar limitações, mas se há libido, há demanda. Logo, nasce daí uma necessidade brutal de aprofundamento na educação/orientação sobre sexo.

Embora as relações tenham evoluído, muitas vezes a PCD ainda é vítima de repressões tuteladas ou desinformação sobre sexualidade e suas implicações na vida pessoal. Assim, mesmo hoje em dia, há quem acredita ser, esse, um assunto proibido para um grupo tão “vulnerável”. No entanto, um grupo que igualmente vive, crê, sente, consome, paga impostos e tem direito de sorver de igual privilégio sobre exercer sua vida sexual, livre e reprodutiva como deve ser.

Posto o problema, qual seria um caminho seguro para iniciar esse debate? Na maioria das situações o desarmamento ideológico e o diálogo franco já representam um primeiro e bom passo. Se a deficiência é intelectual ou cognitiva, conhecer o indivíduo e trabalhar autoaceitação também ajuda ambas as partes, responsável e PCD. É importante entender quais são e o que demandam as fases do desenvolvimento humano, afinal, infância, adolescência, maior idade e maturidade exigem diferentes níveis de linguagem e esclarecimentos. Sexo e sexualidade necessitam ser desmistificados, em especial para as já regradas condições sociais da pessoa com deficiência. É necessário não ser superficial, não fugir dos temas sensíveis sobre pornografia, masturbação, DSTs, gravidez precoce e natalidade. Nuances nem sempre pontuadas pelo manual da vida ou pelas pessoas que nos cercam, em especial no caso da PCD.

Em linhas gerais, sociedade família, não devem omitir ao deficiente o tema “sexo e prazer” apenas supondo que, devido a deficiência, trata-se de um assunto alheio ou obstante dos anseios naturais desses indivíduos. Referente a qualquer pessoa, com qualquer deficiência, a coibição ideológica e/ou dogmática de sua natureza sexual pode representar uma imposição nociva à saúde emocional de todos, incluindo a dos próprios cuidadores ou responsáveis. Ou seja, instinto reprimido é rebelião certa. Entendamos que a curiosidade e o interesse são naturais e legítimos para qualquer indivíduo, então é justo e necessário enfrentar os desafios de preparar também a PCD para viver sua sexualidade em segurança e plenitude.

Em suma, de maneira racionalizada, a PCD deve, sim, namorar, cumprir ritos, casar e constituir família, fazendo tudo “certinho” se desejado for. No entanto, também é justo que a PCD tenha igual direito de, por exemplo, frequentar motéis, estar no Tinder, consumir produtos eróticos, enfim, gozar autônoma e livremente de suas iniciativas sexuais sem ser escandalizado enquanto cidadão por essas situações já tão convencionadas aos demais. Se há quem defenda princípios ou valores sexuais por dotações de fé ou prudências morais, não é pedagógico usar de posição de superioridade para limitar o assunto e reprimir os desejos alheios, da PCD ou de qualquer pessoa.

É importante esclarecer que a ideia aqui não é propor apologia a libertinagem ou o descarte da moral, mas fazer entender que deficientes físicos também querem viver suas aventuras e experiências como qualquer pessoa. Achar que, por ser PCD, o indivíduo deve se comportar em postura mais ou menos acentuada do que os demais, significa atestar o preconceito com viés de ignorância. Além disso, temos também a superproteção que representa outro mal velado, um zelo de eficiência discutível, uma tratativa que afasta a PCD das experiências normais a idade e vulnerabiliza seu desenvolvimento. Logo, se não se ensina ou se esconde fatos sobre esse tema, será pior quando a PCD estiver desarmada de informação diante de uma situação sexualmente inédita e atrativa. Devemos acreditar que, cedo ou tarde, todos transam. Então, melhor que isso aconteça com consciência, conhecimento e proteção. Se por parte de pais, responsáveis e educadores, ainda encontramos inseguranças, não desconte esse receio com repressão. Eduque, converse, prepare. Existem caminhos que podem ser buscados para versar neste campo da natureza humana, tão comum entre todos nós.

Se você é responsável por uma pessoa com deficiência ou tem dificuldades em relação a orientá-la sobre sexualidade, mantenha a calma e busque ajuda. Ninguém precisará enfrentar isso sozinho. Estou certo de que um profissional da área da terapia, psicologia ou psiquiatria, saberá como ajudar.

O constrangimento sobre protagonizar um diálogo sexual saudável e construtivo será vencido quando o amor a liberdade humana for posto em evidência. Dúvidas, sugestões ou críticas, contate escrevereincluir@gmail.com, e vamos juntos construir um debate saudável e inclusivo.

Um abraço fraterno: Mateus Lima – Professor e pessoa com deficiência visual.

Escrito por
Mateus Lima – Professor e pessoa com deficiência visual (Arquivo Pessoal)
Mateus Paulo de Lima

Professor e pessoa com deficiência visual

Graduado em pedagogia. Pós graduado em: Ciências Sociais pela PUC Rio e Políticas Públicas pela PUC DF

Atuou 10 anos como professor da rede estadual do Estado de Rondônia nas disciplinas de Sociologia, Filosofia e Educação Especial

Atualmente trabalha com palestras motivacionais

escrevereincluir@gmail.com

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