Por Gilmar Torquato Em Opinião

Gravidez e álcool, uma combinação perigosa

gravida23sx_1

Qualquer quantidade de álcool ingerido na gravidez pode ser prejudicial ao bebe e também à mãe

Reprodução/Pílula

Tomar um chopinho durante a gravidez, gesto aparentemente inofensivo, pode gerar danos irreversíveis no bebê.

Doença causada pelo mau hábito materno, a Síndrome Alcoólica Fetal (SAF) afeta 30 mil crianças por ano no Brasil: três a cada hora.

Quando a futura mãe bebe, o álcool passa para a criança, pelo cordão umbilical. “O álcool é uma substância tóxica que impede o desenvolvimento das células, diminui o metabolismo e gera má formação nos órgãos”, explica José Mauro Braz, especialista em alcoologia, professor da UFRJ e diretor da clínica Evolução. Segundo ele, os principais sintomas são baixo peso e baixa estatura; má formação de crânio, coração e ossos; além de queixo, olhos e lábio superior menores.

O especialista alerta ainda que a síndrome leva a distúrbios de comportamento (déficit de atenção, teimosia e rebeldia), dificuldade de aprendizagem e expectativa de vida reduzida. “O diagnóstico é feito pela observação do médico e deve haver relato de consumo de álcool na gravidez”, disse, acrescentando que exames de imagem e raio-X podem auxiliar o médico. “A doença não tem cura e a parte da má formação é irreversível.

Apesar disso, os danos cerebrais podem ser amenizados, com estímulos à criança”. Sobre o limite de álcool tolerável na gestação, o médico é taxativo: zero. “A recomendação é não beber nada. Além disso, cerveja não é bebida fraca e é um erro achar isso”, alerta.

Dificuldade de aprender
Há cerca de 15 anos, Cíntia, 47, descobriu que a filha, então com 11 meses, sofria de SAF. A desconfiança surgiu no sexto mês de gestação, quando a mãe percebeu que o crescimento da primeira filha estava aquém do esperado. Dependente do álcool na época, Cíntia conta que bebia todos os dias. Ela conta que a filha não desenvolveu sequelas físicas, mas apresenta processo cognitivo abaixo da média. “Não consegui parar de beber durante a gravidez, porque tinha problemas com o álcool. Nunca tinha ouvido falar na síndrome”, disse, acrescentando que está em tratamento.

O álcool é uma substância com livre passagem pela placenta e, portanto, de livre passagem para o feto. O fígado do bebê que está em formação metaboliza o álcool duas vezes mais lentamente que o fígado da sua mãe, isto é, o álcool permanece por mais tempo no organismo do bebê do que da sua mamãe.

O aborto espontâneo e o trabalho de parto prematuro, assim como outras complicações da gravidez, também estão relacionados com o uso do álcool, mesmo em quantidades menores. O risco de aborto espontâneo quase dobra quando a gestante consome álcool. Os prejuízos causados no feto pelo álcool podem causar desde gestos desajeitados até problemas de comportamento, falta de crescimento, rosto desfigurado e retardo mental, dependendo da fase da gravidez e também da quantidade de álcool ingerido.

A síndrome alcoólica fetal é a consequência no feto do consumo de álcool durante a gravidez e é irreversível. Caracteriza-se por retardo no crescimento intra-uterino, retardo do desenvolvimento neuropsicomotor e intelectual, distúrbios do comportamento (irritabilidade e hiperatividade durante a infância), diminuição do tamanho do crânio (microcefalia), malformações da face como nariz curto, lábio superior fino e mandíbula pequena, pés tortos, malformações cardíacas, maior sensibilidade a infecções e maior taxa de mortalidade neonatal. Por vezes, o bebê ao nascer não apresenta algum defeito físico, mas alguns sintomas podem não serem óbvios até que o bebê complete entre 3 e 4 anos.

O peso de um bebê que foi exposto ao álcool é normalmente inferior ao dos bebês de mães que não beberam durante a gravidez. O peso ao nascimento de bebês afetados pelo álcool é de aproximadamente 2 quilos e dos bebês saudáveis é de 3,5 quilos. Conforme a criança cresce, outros prejuízos começam a aparecer, entre os quais a memória fraca, falta de concentração, raciocínio fraco e incapacidade de aprender com a experiência.

A exposição do feto, seja em que época da gravidez, ao álcool não tem como consequência necessariamente a SAF. Na maioria dos recém-nascidos prejudicados pela ação do álcool antes do nascimento não ocorre anomalias faciais e a deficiência do crescimento que identificam a SAF. Mesmo assim, todos os pequenos que são expostos ao uso de álcool portam danos cerebrais e outros comprometimentos tão significativos quanto os que ocorrem nos portadores da SAF. Nem todas as mães que bebem terão bebês com algumas sequelas.

Qualquer quantidade de álcool é um risco, principalmente durante os primeiros três meses.

Seja o primeiro a comentar

Os comentários e avaliações são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site.

0

Boleto

Reportar erro!

Comunique-nos sobre qualquer erro de digitação, língua portuguesa, ou de uma informação equivocada que você possa ter encontrado nesta página:

Por Gilmar Torquato, em Opinião

Obs.: Link e título da página são enviados automaticamente.