Por Máriston Rafael Alves Em Blog e Colunas

Os Amantes

Um ensaio literário

Conheceram-se num café em Bruges a caminho do aeroporto para Bruxelas, à tardinha.

Ela muito bonita e conservando um quê de adolescente linda que teria sido e outro tanto da menina mais linda ainda que se foi mudando e ninguém sabe na velhice qual rosto estampará. Que crianças lindas o mais das vezes veem a beleza que havia em si deteriorada e também quase sempre a amorosidade e alguma pureza que sempre lhes acompanhou - passados os anos.

As feias podem fazer viagem inversa e quase sempre é hábito mas era muito interessante vê-la em seus 25 anos, tanto que ele se encantou.

Estava grisalho, modo de dizer porque ficaria mais, logo, e com saudades do pretume anterior dos cabelos, 48 anos, sabia também francês, facilitando sua vida tanto em Bruges quanto em Bruxelas e sabia do gris de onde vem grisalho mas, ao saber que sabendo línguas sua juventude não lhe acenaria de volta e mesmo sabendo que há moças que se enamoram de homens sabidos, não quis arriscar - querendo muito.

Ela arriscou. A juventude é feliz em ter ímpetos.

- Posso sentar? Pago um café?

- Por favor! Quase desesperado. Mas era velho. Ninguém notou.

Tomaram o voo 747 para Nova Iorque, fizeram sexo em inglês e em um dialeto que agradava a ela e que ele ignorava, enquanto ele fazia o mesmo em francês, que gostava, e lá estava - a certa altura - querendo falar húngaro que soube que o Diabo, das línguas, só respeita esta (e ela também não saberia decifrar nada deles três, língua, diabo e amante).

Ela muito rica apesar das calças jeans US top e de um colar comprado sobre um pano estirado em Wall Street em viagem anterior, de pessoa que acreditava ser benéfico estar à margem, comprou passagens para o supersônico e o convidou.

Havia ele, o Concorde.

Embarcaram na triangular Nova Iorque-Paris-Nova Iorque, ele aceitara ainda que sabendo ser o desejo dela sexo com ele ali, a bordo mas não a qualquer momento nem à vista de alguém.

Era para quando houvesse a segunda decolagem. O avião fazia.

Uma, do solo nova-iorquino ou parisiense. Outra, do céu.

Aterrissaram, fizeram sexo e leram vagabundagens beatniks querendo ser literatura - no Central Park - um para o outro, caminharam a esmo, não visitaram nada do que a cidade lhes tinha a oferecer, tomaram o voo de volta a Paris dia seguinte, tornaram-se sérios, visitaram livrarias e os cafés, Montmartre, até o Louvre e Notre Dame e os barcos do Sena embora acreditassem pouco original e cafona, quase uma lua de mel para casais com desejo de cosmopolitismo.

Despediram-se com um beijo longo, chamando a atenção dos transeuntes em Champs-Élysées e foram fotografados por um desconhecido.

Ela casou-se com um escritor.

Ele não se casou. Por vezes deseja.

Amou outras ao longo da vida, sempre com desejo e lembranças toda uma vida dirigidos a ela.

O espectro de sua avó apareceu para insistir-lhe que está a caminho da felicidade.

E contou que ela reivindica solidão, embora não exija.

Escrito por
Ton Colunista (Arquivo Pessoal)
Máriston Rafael Alves

Psiquiatra especializado em Esquizofrenias e Dependências de Substâncias Psicoativas, com 27 anos de experiência.

Escritor.

mariston.rafael@gmail.com

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