Por João Júlio da Silva Em Blog e Colunas Atualizada em 08 MAR 2021 - 10H02

PAPOENTRELINHAS: Mulheres guerreiras contra misoginia e feminicídio em tempo de pandemia

"A luta em busca do respeito à dignidade pessoal, social e profissional da mulher deve ser travada dia após dia", ressalta colunista

A luta das mulheres é de guerreiras fortes e determinadas. O Dia Internacional da Mulher, em 8 de março, neste tempo de pandemia, é uma data mais para protestos do que comemorações, principalmente, pelo aumento constante da violência doméstica contra a mulher, mesmo com as leis Maria da Penha (2006) e do feminicídio (2015).

Numa onda crescente de misoginia em pleno obscurantismo, retrocessos sociais e isolamento devido à pandemia do novo coronavírus, os casos de feminicídio não param de subir no país, um crime cometido por sentimento de ódio, posse e intolerância ao sexo feminino. Isso comprova que uma sociedade machista favorece as agressões contra as mulheres.

Os números são cada vez mais alarmantes. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, desde que surgiu a pandemia da Covid-19 no mundo, além do aumento gigantesco de casos de infecção e morte pela doença, houve também o crescimento de ocorrências de violência doméstica. Milhares de mulheres que já experimentavam uma terrível situação em períodos anteriores, viram essa realidade agravar-se em razão do novo contexto gerado pelo regime de distanciamento social, que embora eficaz do ponto de vista sanitário, impôs a elas um tipo de convívio muito mais intenso e duradouro junto a seu agressor, em geral seu parceiro.

Nos primeiros seis meses de 2020, 1.890 mulheres foram mortas de forma violenta em plena pandemia do novo coronavírus, um aumento de 2% em relação ao mesmo período de 2019, quando 1.848 morreram. Dos 1.890 assassinatos, 631 são registros de feminicídio. No primeiro semestre de 2019 foram 622 casos, portanto, alta de 1%.

Fatores como a classe social, a etnia da vítima, a violência no entorno e outros contextos sociais contribuem para a situação de risco e vulnerabilidade social da mulher.

Conforme o anuário, em 2019 foram mortas 1.326 mulheres por feminicídio no país, um aumento de 7,1% ante os 1.229 casos de 2018. Em 2017 foram 1.075 mortes. Os casos registrados passaram de 929 em 2016, primeiro ano completo de vigência da lei do feminicídio, para 1.326 em 2019, um aumento de 43% no período. Em média, três a quatro mulheres são assassinadas a cada dia no país, na maioria dos casos por companheiros ou ex-companheiros, 89,9%. Cerca de 56,2% das vítimas em 2019 tinha entre 20 e 39 anos de idade. Sendo que 58,9% dos crimes ocorreram dentro da residência. Das vítimas, 66,6% eram mulheres negras.

A maior concentração de feminicídio entre as mulheres negras revela a situação de extrema vulnerabilidade socioeconômica e à violência a que este grupo populacional está submetido. O racismo e suas consequências agravam o risco de lesão e morte entre as mulheres negras.

O alto índice dos assassinatos de mulheres motivados apenas pelo gênero, ou seja, pela vítima ser do sexo feminino, colocou o Brasil em quinto lugar no ranking dos países em que mais se matam mulheres, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos. O país só perde para El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia em número de casos de assassinato de mulheres. Em comparação com países desenvolvidos, aqui se mata 48 vezes mais mulheres que o Reino Unido, 24 vezes mais que a Dinamarca e 16 vezes mais que o Japão ou Escócia.

O feminicídio é o homicídio praticado contra a mulher em decorrência do fato de ela ser mulher (misoginia e menosprezo pela condição feminina ou discriminação de gênero, fatores que também podem envolver violência sexual) ou em decorrência de violência doméstica. Enfim, crime cometido por homens que odeiam mulheres.

Mesmo com toda a violência e o alto índice de desemprego, as mulheres estão na luta por um lugar no mercado de trabalho, mas a grande maioria sofre pelas más condições de trabalho, assédio, e o salário reduzido em comparação ao dos homens. O desemprego entre elas é grande e quando conseguem um trabalho ganham salário inferior ao dos homens em funções idênticas.

Com o cenário da pandemia da Covid-19 a situação da mulheres piorou, portanto, os desafios são ainda maiores para o enfrentamento da violência doméstica, que precisa ser priorizado como uma política pública forte e consistente, que vá além da segurança pública, mas que atinja os campos da saúde, educação e assistência social. O fortalecimento das políticas de combate à violência de gênero passa então pelo fortalecimento das redes de proteção à mulher e por uma definição de metas, diretrizes, recursos financeiros e humanos que possam atuar em seu favor.

Não apenas em 08 de março, mas em todos os dias do ano, a mulher tem que se manifestar para expor as suas condições de vida para que haja uma tomada de consciência do seu valor como cidadã, profissional, eleitora, pessoa, ser humano, enfim, como mulher. A luta em busca do respeito à dignidade pessoal, social e profissional da mulher deve ser travada dia após dia. Que as mulheres, batalhadoras e guerreiras, sejam devidamente respeitadas!

Numa data tão importante é oportuno lembrar da poetisa Cora Coralina, que se dizia “uma mulher que fez a escalada da Montanha da Vida removendo pedras e plantando flores”. Considerada como “contribuição para o Ano Internacional da Mulher, 1975”, Cora Coralina escreveu: “Vilipendiada, esmagada. Possuída e enxovalhada, ela é a muralha que há milênios detém as urgências brutais do homem para que na sociedade possam coexistir a inocência, a castidade e a virtude. Na fragilidade de sua carne maculada esbarra a exigência impiedosa do macho. Sem cobertura de leis e sem proteção legal, ela atravessa a vida ultrajada e imprescindível, pisoteada, explorada, nem a sociedade a dispensa nem lhe reconhece direitos nem lhe dá proteção. E quem já alcançou o ideal dessa mulher, que um homem a tome pela mão, a levante, e diga: minha companheira”.

Salve, mulher guerreira! Que a vida resplandeça sempre em seu caminho de luta e resistência! Sua força move o mundo e sua esplendorosa luz afasta as trevas. Que não faltem jamais o amor e a perseverança em suas batalhas diárias. Salve, salve, guerreira, no 8 de março, Dia Internacional da Mulher, repleto de significados e história!

Escrito por
João Júlio
João Júlio da Silva

Jornalista e Professor

Com graduação em Comunicação Social e Educação Física, foi um dos editores de jornal diário e regional no Vale do Paraíba por 18 anos, onde publicou uma coluna dominical por 16 anos, e professor em Minas Gerais.

Participou, em 2020, da antologia "Parem as máquinas!", da editora Selo Off Flip, de Paraty, com publicação de conto e poesia.

Blog:
papoentrelinhas.wordpress.com

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