Por João Júlio da Silva Em Blog e Colunas Atualizada em 10 MAI 2021 - 12H11

PAPOENTRELINHAS: Um aceno na estação vazia

Texto de João Júlio da Silva

Vai se decompondo em palavras para se agarrar à raízes expostas no abismo que grita e se agiganta no meio do caminho. A dor sufoca o caminhar em dias cinzentos e deixa os pensamentos aprisionados num túnel sombrio, com sua saída bloqueada e inatingível. Os passos trôpegos não se depararam com a pedra do poeta no meio do caminho, não houve tropeço algum, apenas o deslizar de sonhos entre pesadelos, pois no meio do caminho não havia uma pedra, mas um abismo.

Um abismo do tamanho do mundo. Nele se deságua e acena um adeus como lágrimas que se desprendem do nada para revelar a essência melancólica da angústia de dias soturnos.

Se desfaz para sobreviver no fio de uma vida que antecede o balançar derradeiro de um vento que virá com gestos bruscos, arrancando à força, das raízes que o sustentam no abismo que se agiganta no meio do caminho. Sente no rosto a mão da hora inevitável que não tarda e já acena com os braços estendidos para o último gesto, ela já se move em direção ao vazio que se equilibra silencioso na solidão de uma navalha afiada em folhas de papel que não dizem a razão do existir, de um nada a filosofar pelas frestas de dias sem fim, onde ruídos medonhos se vestem de sarjetas famintas, que invadem noites inteiras por distâncias agonizantes de anos-luz de escuridão.

Como goteira que insiste ruidosa no escorrer da chuva no telhado, se esparrama gota a gota no prelúdio do lacrimejar inesgotável. De véspera se desmancha, deixando apenas a sua decomposição de bicho ferido, que se mira na dor a rastejar, mas vislumbra, ainda, a mão redentora das páginas vindouras de um amanhã além das palavras que se perdem ao vento sorrateiro, que varre as ruas frias de uma cidade que se fez exílio para quem apenas quis ser o eco de algo que pudesse sussurrar, ao menos, uma gotícula que fosse de um azul capaz de despertar tantos passos sonâmbulos, que seguem aterrorizados rumo ao abismo que permanece aos gritos de convite em mãos, destinado aos aflitos que arrastam suas correntes pelo caminho sem volta, pois no seu meio não há pedra nenhuma, e sim o abismo final do adeus.

A véspera ficou para trás e as sombras apressadas chegaram sem piedade. A chama da vida fica trêmula ante a presença da tristeza na dor de uma perda irreparável, que dilacera e corrói a alma. Que ausência é essa? Antes, flor que espalhava luz vida afora; agora, saudade aos prantos por canteiros cabisbaixos.

Que estação é essa? O vazio toma todas as plataformas. A solidão rasteja, perambulando pelos cantos de um mundo em escombros. O último trem partiu silencioso e os trilhos foram retirados às pressas. Nessa viagem só de ida ficou um amargo solitário no aceno final que não houve e ficou perdido no vazio.

É inútil tentar correr de volta ao passado, pois está tudo muito escuro e os passos tropeçam em lágrimas que rastejam pelo caminho. Mas é um alento vislumbrar ao longe o quintal florido da infância, ouvir a voz adocicada chamando pelo nome, quando ainda brincava entre árvores e voava entre pássaros. Aquela algazarra de dias alegres ainda grita nos ouvidos, embora, hoje, estejam tomados por ruídos alucinados de tempos cinzentos. Ao deixar as marcas descalças pelas ruas de terra, encharcadas pela chuva, sentia um orgulho de herói com as roupas molhadas, que desvendava o brilho da vida. Após a partida, pulsa forte a essência da solidão, que respira o vácuo como se estivesse fora de órbita, em um buraco negro do espaço. Muito além, as estrelas brilham, e há uma luz criadora em cada ponto do universo. No florir da criação não há espaço para o fim, pois o tempo é eterno. O que se chama morte é apenas uma semente plantada para uma nova existência nos jardins celestiais; onde flores brilhantes, com um sorriso acolhedor, aguardam por novas primaveras.

Mas, que luz é essa ao andar sorrindo entre estrelas? Que vestes alvas são essas? Seres iluminados festejam ao redor! Sim, eles sabem da grande vitória! Na estação vazia ficou o ensaio de um aceno trêmulo, incerto; na memória, paira a lembrança da luz guerreira, incansável, por toda a vida.

Blog: https://papoentrelinhas.wordpress.com/

Escrito por
João Júlio
João Júlio da Silva

Jornalista e Professor

Com graduação em Comunicação Social e Educação Física, foi um dos editores de jornal diário e regional no Vale do Paraíba por 18 anos, onde publicou uma coluna dominical por 16 anos, e professor em Minas Gerais.

Participou, em 2020, da antologia "Parem as máquinas!", da editora Selo Off Flip, de Paraty, com publicação de conto e poesia.

Blog:
papoentrelinhas.wordpress.com

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