Por Máriston Rafael Alves Em Blog e Colunas Atualizada em 13 NOV 2020 - 12H42

QUASE

O suicídio é o único problema filosófico realmente sério (Albert Camus)

Era sábado à tarde e dezembro.

Caso tivesse achado em si tranquilidade, teria disposto em papel: trem. Dor. Cloreto de potássio. Morte. Reconsideração. Filhos. Ruminaria as palavras e as imagens. Discorreria sobre.

Não houve calma mínima. Saiu.

Talvez, ao longo do dia, as tenha juntado em trechos, recheando os entremeios de adjetivos, substantivos e advérbios - e o mais preciso para bilhete ou carta.

É homem inteligente e ácido (havendo precisão de ser). Espontâneo. Nada circunspecto que ou por feitio ou por propósito de não sê-lo, é assim. Um erê, quase, a bem dizer. Pode tornar-se circunspecto - pelo mesmo motivo em parêntesis.

Falante, porém polido. Melhor: esmerilha as palavras por afeição a elas. Amoroso. Trinta e cinco anos.

Chama-se Ascânio.

O encanecimento aos trinta, precoce portanto, insinua-se no nome dele próprio. Não que aparente velhice. Há juventude, de um tipo à qual a sedução toma assento e dificilmente deixa a face e os modos (de uns felizes de tê-la) envelhecerem aos olhos do alheio.

Era quase um senhor quando quis morrer. Trinta e três anos, no entanto.

Depois, estranhamente, tornou-se em quase rapaz.

Depois, que diz, é de atravessada a porta do inferno para o lado de fora (precisão de dizer).

Não sabe ou não quer discorrer sobre o desejo de comparecer ao inferno - muito provavelmente inferno - mas suspeita dos motivos.

A calva luzidia, o sorriso pouco e o riso amplo (em querendo rir) e o olhar agudo, além de nariz bastante protuberante, compõem-lhe uma face que, ao que tudo lhe indica, é boa de ver-se e em nada denuncia sua alma velha que, embora isto, não o aparenta ao conde ou a outros vampiros. Não guarda ruindades em si mesmo e os olhos espelham a alma. Os dele, virtuosos.

Ascânio reivindica para si esquecimentos impossíveis.

"Esquecer é uma necessidade. A vida é uma lousa, em que o destino, para escrever um novo caso, precisa apagar o caso escrito".

Está em Machado de Assis, - que o bruxo do Cosme Velho sabia da vida e da morte, doente das eletricidades cerebrais e por isso mesmo a perspicácia. Ascânio talvez seja um pouco assim, de despolarizações elétricas.

Por ocasião de quase matar-se, esquecimento certo, lembrou-se claramente do escritor e de conto específico que traz a citação machadiana de há pouco.

(Escrevendo-a, o prazer grande por repetir, letra a letra, as letras de Machado).

Foi ter com um irmão a pedir impedimentos e, conseguidos, pediu-lhe também justo o conto - para releitura. Um irmão de pai e mãe, legítimo, sem a concessão que se faz vulgarmente à palavra, estendida ao "brother" de agora - que Ascânio conheceu esta forma de tratamento usada assim, inadequadamente, ao travar contato com determinada substância anestésica branca a que recorreu para ajudá-lo na morte.

É grato. Não à substância. Ao irmão.

Para sempre.

Passara parte da adolescência a ler, em território russo, mais precisamente São Petersburgo (canoa de pedra em russo, Ascânio por vezes inventa), e adquiriu familiaridade com trens, não tendo havido necessidade, então, de recorrer à literatura de Liev Tolstói para travar conhecimento com comboios - ou mesmo citar sua literatura à guisa de esclarecimento e enriquecimento da narrativa suicida -, conforme se deu com o empréstimo que fez de Machado de Assis, uma obsessão sua.

Desacorçoado e resoluto, em terras brasileiras e modernas, com trens subterrâneos, deslocou-se de São Petersburgo à paulicéia desvairada de Mário de Andrade, outro estilo e tamanho e tal.

Ama-a.

Quase pulou.

A vida, ela inteira pode perfeitamente reduzir-se a uma palavra.

Quase.

Ascânio quase abraçou o capeta, destino provável dos suicidas como querem as superstições.

Pulada a plataforma para dentro da estação, para o seguro, para além dos trilhos onde vislumbrou o esquartejamento de seu corpo (espetáculo do qual poupou seus queridos por lampejo de lucidez, ética e mesmo moral e decência), resolveu cumprir, em vida, a asserção por demais irônica e certeira, machadiana, extraída do texto para traduzir-se em alguma felicidade que deve ser possível.

Acredita desde sempre que morrerá de noventa para mais - caso o demônio não faça mostra de si, antes. Resolveu encará-lo sem descer ao Hades, à profundeza, a sua casa, a seu abraço abrasador.

Tem administrado, de desejo próprio, os vários demônios que habitam sua cabeça.

Seu corpo, uma excelência, não está tomado, infestado.

Ascânio é de demoras. Ficou. Deixou o suicídio aos textos para sorvê-los ora em Machado de Assis ora em Albert Camus...

Para alegrar-se perante o gosto de sua compreensão e mesmo uma quase reapresentação das ideias em suas próprias letras, menores.

Para ele, magníficas.

Escrito por
Ton Colunista (Arquivo Pessoal)
Máriston Rafael Alves

Psiquiatra especializado em Esquizofrenias e Dependências de Substâncias Psicoativas, com 27 anos de experiência.

Escritor.

mariston.rafael@gmail.com

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