Por Máriston Rafael Alves Em Blog e Colunas Atualizada em 16 FEV 2021 - 11H30

Sonho de Arlequim

Momo transatlântico


Arlequim, de Pablo Picasso


Viagem cansativa e bela.

Tomei o avião no Rio de Janeiro às dez da manhã - por glamour reivindicado das máscaras aristocráticas venezianas e por lembranças de carnavais da Urca e da Lapa não quis embarcar em São Paulo.


Cheguei em Veneza a 14 de fevereiro com a festa começada a 11, depois de escala em Nápoles que escolhi por lembrança do melado Dio Come Ti Amo que melado ou não eu vi em cinema acompanhado da primeira namorada e portanto me arde o espírito ao lembrar Gigliola Cinquetti chamando em música pelo amado por alto-falantes, ali naquele exato aeroporto o final do filme.

Eram dez horas da noite quando desci à terra quase toda ela água e eram quarenta gôndolas pelos muitos canais, gondoleiros em máscaras coloridas e não levavam casais enamorados mas seguiam carreando uma quase procissão marítima.

Era carnaval em Veneza e, desta vez, venezianos fizeram desse outro modo.

Soou mais belo a Thomas Mann, o alemão com quem travei amizade no Vêneto, tinha acabado de escrever Morte em Veneza. Era avesso à festa das máscaras embora tivesse competência para escrever divinamente sobre a cidade, mascarados e máscaras, canais e edifícios e o que lhe aprouvesse.

Conversamos por umas cinco horas seguidas, ora em alemão ora em italiano, até que me dei conta de que morrera há tempos e que não há mesmo uma só palavra sua que remeta ao carnaval do Vêneto em sua obra e que, sobretudo, eu conversara com um espectro.

Tive calafrios mas segui observando a festa.

Veneza dorme muito cedo mas, de 11 a 28 de fevereiro, não dormem os poucos habitantes que lhe restaram (os outros corridos das águas e corrosões) e sobretudo não dormem para apreciarem o carnaval lindo, de muitos mais dias que o carnaval da cidade da Bahia, orgulhosa de seus oito dias de festa e de festa pasteurizada noves fora o desfile do Ilê Aiyê, a décima primeira maravilha do mundo - não sei quais existam entre a sétima e a décima mas há.

Na metade do sonho quando minha imaginação acusou Salvador, veio-me uma mulata tipo exportação que viu em meus beijos compromisso e preferiu o além-mar.

Voou até Lisboa, pois, com escala posterior em Roma, onde achou Luchino Visconti que a esperava para um filme que foi roubado por Sophia Loren para si, o que era justo.

A morena desocupou-se do filme e foi ter a Veneza em meio à procissão momesca.

Abraçou o primeiro gondoleiro que achou em abraço tão lúbrico quanto mortífero que ele, extasiado com a beleza, deixou virar a gôndola.

Os corpos não foram encontrados sequer decompostos mais tarde, em galerias.

Acordei quando um pombo fantasiado, um pombo-correio do carnaval do Brasil, da cantoria de Gilberto Alves, veio me avisar que ali mesmo estava havendo Maria Callas interpretando Carmen e que quase em êxtase cantava La Chanson Du Toreador, devendo eu estar presente, mas num ímpeto e levado pelo título da ária e pela ópera transportei-me a Madri para ver os touros - espetáculo que abomino mas de todo modo apreciei.

Brigavam França, Espanha e Itália por atenção minha e em pleno carnaval havia ópera.

Ano que vem, no carnaval e sem falta, vou à Espanha e França.

A Itália deixo.

Muito parecida a nós, o Lácio todo ali, reverberando nela e ecoando em nós.

Desinteressante. Exceto nos capítulos renascença, música e rios.

(Muito lamentável afirmação).

Tão interessante quanto linda, guardo um próximo carnaval para ela.


Arlequins, de Di Cavalcanti, 1943


Pelourinho, Salvador-BA


Escrito por
Ton Colunista (Arquivo Pessoal)
Máriston Rafael Alves

Psiquiatra especializado em Esquizofrenias e Dependências de Substâncias Psicoativas, com 27 anos de experiência.

Escritor.

mariston.rafael@gmail.com

Seja o primeiro a comentar

Os comentários e avaliações são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site.

0

Boleto

Carregando ...

Reportar erro! Comunique-nos sobre qualquer erro de digitação, língua portuguesa, ou
de informação equivocada que você possa ter encontrado nesta página:

Por Meon, em Blog e Colunas

Obs.: Link e título da página são enviados automaticamente.