Maurício Fleury tecladista

África, Brasil e latinidades em um show: Bixiga 70, sexta-feira, no Sesc São José
Divulgação/Nicole Heineger
O número de referências musicais para tentar traduzir o que é a banda paulistana Bixiga 70 -que toca no Sesc de São José dos Campos, sexta-feira (14), às 19h30- é tão grande que nos cabe falar em música negra da África e América Latina, passando pela veia principal, a brasileira. Afrobeat, samba, jazz, cumbia, maracatu, candomblé, carimbó e música eletrônica se juntam para criar uma cerimônia em álbum.
O tecladista e arranjador Maurício Fleury falou com o Meon, por telefone, sobre o segundo disco da banda -Bixiga 70 (2013), gravadora Traquitana-, referências, Os Tincoãs, música instrumental, o bairro do Bexiga nos anos 70 e 80, popularidade e raízes afrobrasileiras.
Leia a seguir a entrevista:
Numa imensidão de ritmos e estilos musicais como referências de candomblé, maracatu, a música malinké (da Guiné), samba, jazz experimental, funk... Como dez caras estruturam toda essa pesquisa musical em disco?
Isso demonstra um processo bem coletivo. A gente vai batendo a cabeça, tentativa e erro, experimentando. E isso reflete na autoria das músicas, todas as músicas têm a parceria de um autor e o resto da banda. Da maneira que a gente arranja a música, é isso que dá a cara da composição. Cada um da banda tem uma experiência musical diferente, então por isso a gente acaba abrindo um leque tão grande.
Maurício Fleury tecladista
Quanto maior o número de influências da banda, mais difícil de dizer o que vocês são. Quer dizer, não dá pra falar que é afrobeat, mas é Bixiga 70.
Exatamente. O que a gente quis sempre foi isso, na verdade. O negócio do afrobeat... O que interessa pra gente no afrobeat, além desse rótulo, é o processo. É um tipo de som, um gênero híbrido, já. A própria mistura da música pop, eletrificada, urbana, com os ritmos ancestrais que o Fela Kuti fazia lá com os percussionistas dele. Convergindo esses gêneros diferentes, é nisso que a gente se identifica. A gente prefere refazer o caminho do afrobeat do que soar como tal, né. Refazer uma captura, pra fazer cada vez soar de um jeito. Refazer a mistura de timbres, os sons, assim como a Nação Zumbi faz, por exemplo. Tem outros exemplos na música instrumental. A própria música dos Tincoãs [“Deixa a Gira Girar”] que abre o nosso disco... Ela é um encontro de candomblé e umbanda, bem conhecidos, mas os próprios Tincoãs fizeram uma leitura moderna daquilo.
Que não é necessariamente como era tocado nos rituais...
Isso. Já tinha uma guitarra, um violão, um arranjo de cordas, coisa que não teria naquela música pura do terreiro, né? Então é mais ou menos isso que a gente faz. A gente olha pra aquilo que aconteceu no Brasil, na América Latina, na África e tenta fazer a relação entre o urbano e o ancestral, de percussão e de sopro que são os mais ancestrais. Até o elétrico e eletrônico...
A música instrumental é, em muitos casos, elitista, bem fechada. O Bixiga 70 quer ser popular?
A gente não mede isso. Não tem isso. A gente não quer travar uma guerra com a música instrumental clássica. Pelo contrário, tem grandes shows de música instrumental brasileira que transcendem essa coisa de elitista. A gente tem o próprio Hermeto Pascoal. Ou mesmo voltando mais no tempo, no próprio[bairro do] Bexiga, daquela banda do César Leal, do Escova, que era mais música latina. Tem aquela banda Metalurgia, que era uma banda instrumental que movia a galera. A gente vai nessa, né. A gente quer fazer as pessoas dançarem. O nosso som é dessa natureza, a gente quer que ele seja contagiante. E isso flui naturalmente.
Sei que você não gosta de que exista uma cena afrobrasileira. Mas tem muita gente indo por esse caminho, o Metá Metá, a Orquestra Rumpilezz, Abayomy, até o Bnegão está saindo com um disco instrumental com referências afro...
Tem o Iconili de BH também. É, isso mostra que essa coisa de cena é limitante também...
Claro que cada uma tem suas diferenças. Mas porque você acha que, de dez anos pra cá, surgiram mais bandas com essa matriz afrobrasileira?
A gente vive esse momento de novos paradigmas, em que fica mais fácil abrir esses baús, das gravações [de música africana]. Ontem mesmo a gente ouviu, o Letieres Leite, as primeiras gravações de música afrobrasileira e 1910 a 1930, naquele evento do Sesc [do projeto Goma-Laca]. Então acho que faz sentido isso, é meio natural. Não gosto que seja considerado uma moda, porque deveria ser uma coisa que passa. E as pessoas estão mais abertas a esse tipo de som, principalmente pela multiplicidade de opções. A gente vê o desgaste da música eletrônica, que talvez estivesse muito forte dez anos atrás. E que hoje as pessoas querem ver mais a música tocada, a música improvisada.
Inclusive no Bixiga tem uns elementos de guitarrada, de carimbó...
Sim, em “Kalimba”. Essa música é de um bloco do Pará que o nosso guitarrista Cris Scabello trouxe pro disco. É essa mistura mesmo, essa ritmia. Mas essa coisa de cena é muito limitante. Só no Bixiga já são dez caras totalmente diferentes, um cara freqüenta um ambiente, tem um background musical seja no dub, seja na música tropical, no jazz. A gente vive um momento muito saudável, que a galera está se entendendo.
No ano passado vocês excursionaram pela Europa e adoraram os shows. Teve até um show pra 10 mil pessoas na França.
Foram marcantes. A gente tocou pra 10 mil pessoas na França, no dia da Queda da Bastilha. E a gente era a única atração dessa comemoração naquela parte da cidade. Também fomos pro festival Roskilde, na Dinamarca, um dos mais importantes da Europa. Pra gente foi uma evolução fazer esses shows.
Já tem shows marcados pra esse ano?
Já. Nós vamos no final de maio, começo de julho. Mas não podemos soltar onde.
Vocês já falaram que a música de vocês é para dançar. Qual é a música mais dançante para esse show de sexta-feira?
“Kalimba”, com certeza.
SERVIÇO
Bixiga 70 no Sesc São José dos Campos
Quando: sexta-feira, 14, às 19h30
Onde: avenida Doutor Ademar de Barros, 999, Vila Adyana, São José dos Campos
Quanto: grátis
Mais informações: (12) 3904-2000
Escute o álbum Bixiga 70 (2013) na íntegra, abaixo:
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