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"Faltou ousadia aos jogadores da França", diz ex-lateral Lizarazu

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Ex-lateral e hoje jornalista, Lizarazu diz que franceses não foram ousados

Fifa.com/Divulgação

O ex-lateral esquerdo francês Bixente Lizarazu abraçou uma nova carreira no jornalismo há alguns anos, mas não deixou o futebol de lado — muito pelo contrário. Campeão do mundo em 1998 e europeu em 2000, ele agora trabalha no rádio, na televisão e na imprensa escrita. Presente no Brasil para cobrir a Copa do Mundo da Fifa 2014, o ex-jogador da seleção francesa e do Bayern de Munique concedeu uma entrevista exclusiva ao Fifa.com antes das duas últimas partidas do torneio.

Fifa.com: O que passou pela sua cabeça ao assistir à terrível derrota do Brasil na semifinal?
Bixente Lizarazu:
 Muitas coisas que se misturam... Não foi muito racional o que aconteceu. Uma derrota por 7 a 1 numa semifinal de Copa do Mundo nos deixa sem poder fazer uma análise técnica ou tática. Estamos diante de coisas que, na minha opinião, são de ordem psicológica, emocional... Acho que houve um excesso de emoções na gestão dessa Copa do Mundo por parte dos brasileiros. Puxaram a corda e ela acabou arrebentando. É a única explicação que vejo. Tínhamos a impressão que esse Mundial era uma questão de vida ou morte. Antes das partidas, na hora dos hinos, nos principais momentos. Tudo era forte demais. O alto nível exige distanciamento e sangue frio, e tenho a impressão que não havia o suficiente disso

O Brasil não tinha como chegar até o fim, na sua opinião?
Certas pessoas fazem as constatações depois e dizem que a equipe atual não era muito boa, mas mesmo assim ela derrotou o Chile e a Colômbia! E precisava derrotar! Por um lado, Neymar e Thiago Silva não estavam nessa semifinal, mas houve um apagão do time inteiro, que não virou um time de quinta divisão de uma hora para outra. Mas tudo ficou sério demais. Era sério demais jogar uma partida de futebol

Como se reerguer e tentar ganhar o terceiro lugar contra a Holanda?
Eu não sei, nunca me deparei com uma situação dessas, que é quase única em Copas do Mundo. Se o Felipão tivesse a resposta, ele teria encontrado uma solução no intervalo, para que a equipe pudesse se recompor. É como alguém que está à flor da pele semana após semana com uma acumulação de coisas e, em determinado momento, explode e tem uma crise de nervos. Não há nada a acrescentar sobre essa última partida, que também não é fácil de disputar e que, aconteça o que acontecer, não apagará aquele 7 a 1

Qual é o mérito da Alemanha em tudo isso?
Todo mundo fala do Brasil, e é claro que existe um mal-estar porque havia bastante diferença entre as duas equipes. Mas agora que passou, considero que a Alemanha fez uma partida colossal. Ela foi excepcional taticamente na sua trajetória nessa Copa do Mundo. Ela soube resolver os seus problemas progressivamente, sobretudo os erros na defesa do jogo contra a Argélia, em que os alemães foram salvos por Manuel Neuer. Houve um reposicionamento do Philipp Lahm na lateral direita e os dois volantes, Sami Khedira e Bastian Schweinsteiger, cresceram pouco a pouco. Eu diria que o estalo aconteceu contra a França, e também com a volta do Mats Hummels ao miolo de zaga. A Alemanha reencontrou o equilíbrio certo. Temos tendência a ocultar o mérito alemão porque o eliminado foi o Brasil, mas em 2002, 2006, 2010 e 2014, a Alemanha sempre chegou pelo menos à semifinal.

Como você explica que os alemães tenham tão poucas quedas de rendimento nas grandes competições?
Eles têm uma geração muito boa, mas por outro lado não ganharam. Teriam merecido, apesar de isso não significar grande coisa. Eu diria que o momento em que eles estiveram mais perto foi na Euro 2012, em que perderam da Itália cometendo erros defensivos colossais, embora tivessem entrado em campo como os grandes favoritos. Talvez eles estivessem um pouco obcecados demais pelo futebol bonito. A Alemanha é, junto com a Espanha, a seleção que para mim soube produzir um futebol de qualidade ao longo do tempo, mas faltavam coisas, como o instinto de concluir e matar a partida quando necessário. Dessa vez, vimos os alemães se adaptarem a diversas situações diferentes até atingirem a perfeição nos aspectos táticos contra o Brasil. Existem dias assim, em que somos tocados pela graça, com tabelinhas, triangulações e praticamente um gol a cada chute. Essa geração mereceria finalmente conquistar um título internacional, pois ela chegou muito perto quase todas as vezes. 

Está satisfeito com uma final entre Argentina e Alemanha?
É uma belíssima final! A Argentina teve dificuldades em entrar na competição. Ela também teve problemas defensivos, mas teve a mesma inteligência que os alemães nas suas mudanças de jogadores, com o Martín Demichelis, que virou titular da zaga, Lucas Biglia, que foi reposicionado, e Javier Mascherano chefiando o meio de campo. Tudo isso reequilibrou a equipe. Vimos os argentinos jogarem muito bem defensivamente contra os belgas, mas também contra os holandeses, que acabou sendo a partida das defesas por excelência. Eles perderam um jogador muito importante com o Ángel di María e não se sabe se ele poderá jogar a final, mas eles têm Lionel Messi, que foi decisivo e que também tem, por sua vez, uma história a escrever. Gonzalo Higuaín foi muito bem nas duas últimas partidas e Sergio Agüero está de volta, portanto o potencial ofensivo existe. É um time muito inteligente, que tem a capacidade de cadenciar o jogo e jogar no seu ritmo. A Argentina pensa e não é fácil de desestabilizar. Ela impressiona pela velocidade, pela vivacidade e pela habilidade dos seus atacantes, mas de mim ela chamou a atenção pela capacidade de desmontar o jogo do adversário. A Holanda quase não jogou, embora fosse uma das equipes mais espetaculares da competição. 

Falemos um pouco sobre a seleção francesa. Você gostou do que ela fez durante essa Copa do Mundo? 
Há coisas que me agradaram, mas tive uma decepção no final, uma pequena frustração. Achei que nesse final faltou ousadia. É isso que eu lamento. Mas era contra a Alemanha e vimos o que ela conseguiu fazer em seguida com o Brasil. É uma equipe experiente que viveu muitas coisas, e a França ainda não. Ora ela puxou o freio e jogou com prudência demais, ora ela não tinha gás suficiente nos seus motores, mas faltou atrevimento. Para mim, o mais duro foi o jogo contra a Nigéria, porque éramos favoritos, o que não era o caso contra a Alemanha. Nessas situações, podemos nos entregar e psicologicamente não temos nada a perder. Fiquei com a sensação de que havia como dar algo a mais. 

De quem você gosta na atual equipe da França? 
Didier Deschamps. Eu gosto muito dele porque ele estabeleceu o rumo e definiu as linhas, tanto nas suas escolhas pessoais quanto nas suas mensagens. Ele soube encontrar os ingredientes e as palavras de que precisávamos. Ele soube cuidar para que a equipe não se empolgasse depois dos 5 a 2 sobre a Suíça. Ele restabeleceu a ordem. Isso não era tão fácil e ele soube apaziguar os ânimos em torno da seleção francesa. Tudo se acalmou e foi muito agradável termos voltado à normalidade. Era um trabalho de fundo importante que será útil nos próximos dois anos. Outra coisa que eu adoro é a sua lucidez. Ele não nos vende nenhum sonho. Ele é um arquiteto e eu gosto dessa mentalidade, porque as coisas não são construídas da noite para o dia, muito menos uma equipe que ganha a Copa do Mundo em dois anos. Por outro lado, em quatro anos, podemos fazer uma campanha sólida na Euro 2016 que será disputada na França.

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