Alunos

Educação e internet: benefícios e problemáticas

Entenda as dificuldades no ambiente virtual com Tiago Figueiredo Dias, educador no YouTube

Beatriz, Maria Clara e Maria Eduarda_Embraer

Escrito por Beatriz do Nascimento | Maria Clara Soares | Maria Eduarda Fonseca

03 JUN 2021 - 11H29 (Atualizada em 03 JUN 2021 - 11H47)

Foto: Reprodução Imagem materia meon (Foto: Reprodução)

A internet tornou-se um vetor de informação e democratização do conhecimento. Em plataformas como o YouTube encontram-se diversos professores que lecionam cursos completos do ensino primário até a universidade. No entanto, nem todas as pessoas que produzem conteúdos ditos educacionais são qualificadas para tal. Por isso é necessário escutar profissionais sobre o assunto.

Nessa perspectiva, decidimos entrevistar Tiago Figueiredo Dias, professor de História, Sociologia e administrador do canal História Nua e Crua no YouTube com mais de 2 mil inscritos, que disponibiliza um curso gratuito e completo para alunos do Ensino Médio e pré-vestibular. Em seus vídeos, Tiago procura disseminar conhecimento de qualidade e com responsabilidade, ressaltando a importância das fontes.

Para entender melhor, confira a entrevista a seguir:

1. Qual sua motivação para fazer vídeos de educação na internet?

"Quando eu comecei a fazer o canal, a minha ideia era que servisse como uma espécie de currículo, mas é um contexto muito específico da minha vida, eu não tinha muitos contatos aqui na região e planejava essa mudança rapidamente. Eu entendi o mundo virtual como uma opção de contato, das pessoas me conhecerem."

"Mas, antes mesmo dessa mudança para São José dos Campos dar certo, eu conheci algumas pessoas, alguns estudantes, que se envolveram com o meu canal durante a pandemia por terem a opção de fazer um curso gratuito de História, e ele deixou de ser um mecanismo de divulgação do meu trabalho para poder chegar aqui na região e se transformou em um projeto que eu sigo até hoje e que não pretendo parar, independente da movimentação nele."

 "O 'História nua e crua' tem o compromisso de ser sempre um canal gratuito. As aulas do canal têm por objetivo a mesma qualidade com que eu trabalho com as aulas no Juarez (Colégio em São José dos Campos), porque a ideia é conseguir levar o conteúdo com maior qualidade possível ao maior número de pessoas. Então, isso se transformou ao longo da história do canal, que é recente, criado em 2018, e eu passei a utilizá-lo de fato em Fevereiro do ano passado, quando eu voltei a usá-lo não tinha quase nenhum inscrito, então eu comecei praticamente do zero. Está dando mais certo do que eu imaginava, para ser bem honesto."

2. Quais os desafios de ser um produtor de conteúdo educacional e tentar aumentar o número de seguidores e engajamento dos alunos?

"São um dos maiores desafios do mundo! Trabalhar com educação, com assunto sério no YouTube, talvez seja o maior desafio de todos dentro da plataforma, porque, segundo uma pesquisa do próprio YouTube, o Brasil é o país que produz o maior volume de conteúdo “lixo” do mundo, o maior volume de conteúdos “sem conteúdo” é brasileiro. "

"Tanto que o projeto do YouTube Educação, que existe em todos os lugares do mundo, no Brasil, está abandonado faz quatro anos; porque é muito difícil você produzir conteúdo de qualidade e sobreviver na internet. Então, a gente tem que se amarrar a pequenas motivações, por exemplo: 'hoje eu tive dois, cinco inscritos', porque têm algumas coisas que são desesperadoras, por exemplo, eu dei uma aula de uma hora, consegui juntar vinte e cinco pessoas no melhor momento da aula, isso me trouxe apenas quatro novos seguidores e no dia seguinte eu perdi cinco, sabe-se lá porquê."

" Então assim, é uma luta, um esforço cotidiano de tentar vencer esse volume gigantesco de inutilidades que o mundo virtual oferece para as pessoas. Eu tenho tentado buscar grupos de WhatsApp, grupos de Facebook de alunos da rede pública, para poder divulgar o meu trabalho. O professor que entra no YouTube com o sonho de ganhar muito dinheiro, ou é um idealista ou tem más intenções, quer usar a ideia de educação para fazer outras coisas."

" Eu não tenho nada contra as pessoas usarem o YouTube para fazer outras coisas, o que me incomoda é usar o termo “educação”, “conhecimento”, "ciência”, quando, na verdade, não é. Então os meus grandes desafio são dois: conseguir atrair mais gente e conseguir reter essas pessoas nos meus vídeos, fazer a galera ter a paciência de sentar e assistir um vídeo de trinta a quarenta minutos, considerado longo para o padrão da produção atual, mas como que eu faço Revolução Francesa em cinco minutos? Não tem como."

3. Qual a dificuldade de disseminar conhecimento no cenário atual repleto de fake news e teorias da conspiração ganhando destaque, ainda mais quando se trata da área de humanas?

"Hoje a gente tem um cenário em que uma série de pessoas trabalham para desvalorizar a fonte, criando mentiras e um grupo de pessoas que usam títulos como o de professor e de doutor, criando um movimento de revisionismo histórico e de negacionismo. Então hoje a grande dificuldade é fazer com que as pessoas acreditem na informação vinda do professor, uma profissão tão desvalorizada no Brasil, é transformar a fala de um professor em uma fala de credibilidade. E pensar que há pouco tempo atrás o professor era uma 'entidade' no Brasil, falavam “nossa! Sua profissão é linda!” e hoje não, hoje você é doutrinador, esquerdopata, quer enganar, manipular os alunos e transformar em um imoral. Hoje ser professor e principalmente nas mídias sociais é lutar contra esse mecanismo de desinformação, conspiração e fake news, que tem por objetivo, de forma sistemática, desvalorizar a ciência e o conhecimento. Se fazer acreditar eu acho que é o ponto mais difícil."

4. Quão prejudicial é a onda cada vez maior de pessoas se informando com produtores de conteúdo não especializados?

"A grande dificuldade é que essas pessoas não tem compromisso com a verdade, então elas falam coisas que são agradáveis de serem ouvidas e falam de forma superficial, simplista, o que também facilita a compreensão. Então quando você dá uma aula de determinado tema com qualidade, conteúdo e embasamento, essa aula é profunda, te provoca a pensar, fazer uma reflexão, o conhecimento vem desse processo de pensamento, você absorve, aquela informação passa a ser sua porque você compreendeu e transformou isso em um processo de ensino e aprendizagem. "

"Um relato superficial facilita a memorização daquela informação, mas não te produz capacidade de conhecer. A grande dificuldade, o grande desafio, é mostrar para as pessoas que esses indivíduos que postam vídeo na internet se dizendo professores não têm profundidade de conhecimento, e esse é um resgate dificílimo de ser feito, de fazer as pessoas entenderem que a profundidade de conhecimento é importante e que você não aprende em um passe de mágica."

5. Como as plataformas de entretenimento rápido ajudam a propagar fake news?

"Essas plataformas de entretenimento vão na mesma linha que o vídeo raso do YouTube, oferecem um mundaréu de informação sem verificação, sem qualidade, elas oferecem respostas que agradam os ouvidos, mas principalmente, elas limitam as pessoas na sua capacidade de fazer análise, de fazer um olhar crítico sobre o mundo. E quando você não consegue fazer um olhar crítico sobre o mundo e sobre as relações pessoais, a gente não consegue acreditar no papel da educação."

"Essas plataformas, que têm sido visitadas de forma acentuada porque as pessoas estão em casa, criaram um espaço em que a pessoa não tem responsabilidade pelo que diz. A pessoa entra no Facebook, tem uma publicação de um professor de História, a pessoa faz um comentário carregado de informação tendenciosa, de fakes, de mentira, de violência, de agressividade, e no final ela coloca “mas essa é a minha opinião”, e essa frase se transformou em um mantra das redes sociais para a pessoa vociferar o que ela quer. A rede social, as plataformas viraram um grande espaço, um grande caminho para a propagação de violência."

"Contra a ciência não existe opinião, você não opina sobre um dado científico. Você respeita. Para você refutar um dado científico é só com ciência, e não com opinião. Eu entendo que essas plataformas, essas redes sociais, deram voz às pessoas para que elas propaguem violência."

6. Como você lida com as distorções históricas e sociológicas na sala de aula vindas de alunos e conhecidos?

"Vindo de conhecido é mais fácil, porque você tem liberdade com a pessoa pra dizer “cara, você está falando besteira”. Quando é amigo eu digo “eu sou o cientista social, eu sou o cientista da História, eu sou formado para isso, eu sei como pesquisar e produzir, eu produzi artigo científico, eu sei o que eu estou falando”. A questão é quando vem de aluno, porque o meu amigo eu não tenho obrigação de educar, de passar a ele conhecimento, às vezes eu tenho a obrigação de mostrar para ele que ele está sendo ignorante. Para um aluno não, o aluno eu tenho a obrigação de formá-lo, eu tenho a obrigação de mostrar para ele que o conhecimento dele está indo para um caminho errado."

" Então, eu procuro, na medida do possível, quando eu recebo uma frase, uma fala, uma informação, questionar a fonte, que é essencial da ciência humana, a referência bibliográfica, e aí eu mostro para essas pessoas como que a referência bibliográfica que estão usando é uma referência deturpada. Mostro que a interpretação que eles têm acerca de alguma coisa é manipulada. Agora, quando o aluno chega com um absurdo do tipo “eu acredito que a Terra é plana”, a minha discussão se encerra."

"O indivíduo não acredita que a Terra é plana porque ele tem uma referência bibliográfica, ele acredita porque alguém que ele idealiza, alguém que ele transforma em ídolo, disse para ele que a Terra é plana, então aquela verdade dele vem de um ídolo. O aluno acredita naquilo como fé e aí eu não tenho espaço. É claro que eu não vou deixar passar em branco, eu só digo para ele: “isso, para uma prova de vestibular, é inaceitável, se você escrever isso não há fundamento científico, você não vai passar” e encerro aí, senão eu coloco o meu emprego em risco."

" E se eu perco o meu emprego, não é o Tiago que perde o emprego, é a escola que perde a oportunidade de usar a fala da “Terra plana” para desconstruir fakes. Se eu entro na briga e sou demitido, quem vence é a “Terra plana”. Então, o que eu preciso é mostrar o limite desse desconhecimento, dessa ignorância, com aquilo que é limite para ele, que é a prova de vestibular. E eu deixo que ele pense, eu torço para que isso faça com que ele reflita, com que ele questione essa informação que vem do ídolo, que vem de cima para baixo como uma verdade absoluta, como um dogma."

"A “Terra plana” é um dogma, a “vacina mata” é um dogma, “não houve ditadura militar no Brasil” é um dogma. Se você questiona, a pessoa não sabe como sair do questionamento, aí ela vocifera alguma violência para me chamar de doutrinador, de qualquer outra coisa do tipo, para encerrar a discussão em briga. Então eu uso esse mecanismo: a ciência aceita até aqui, o limite é esse, daqui para frente você faz o que você achar prudente para sua vida."

Para mais conteúdos de História e atualidades, o professor faz lives semanais em seu canal e já comentou assuntos como a Ditadura Militar com outros profissionais. 

Com supervisão de Giovana Colela, jornalista do Meon Jovem. 

Escrito por
Beatriz, Maria Clara e Maria Eduarda_Embraer
Beatriz do Nascimento | Maria Clara Soares | Maria Eduarda Fonseca

Colégio Embraer - São José dos Campos, SP

Seja o primeiro a comentar

Os comentários e avaliações são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site.

0

Exclusivo | Comissão Pré-Julgadora

Boleto

Carregando ...

Reportar erro! Comunique-nos sobre qualquer erro de digitação, língua portuguesa, ou
de informação equivocada que você possa ter encontrado nesta página:

Por Meon, em Alunos

Obs.: Link e título da página são enviados automaticamente.