A cidade mudou — e o Plano de Mobilidade de São José ficou para trás

Nos últimos anos, São José cresceu, adensou bairros, criou novas centralidades e ampliou significativamente a circulação de pessoas e veículos

Escrito por: Anderson Senna4 min de leitura
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O Plano Municipal de Mobilidade Urbana de São José dos Campos completou quase dez anos. E a pergunta que precisamos enfrentar com seriedade é simples: ele ainda responde à cidade que temos hoje?

Na minha avaliação, não.

Não por falta de importância — ao contrário. Foi um instrumento fundamental no seu tempo. Mas porque a cidade mudou, e mudou profundamente. E quando a realidade muda, o planejamento precisa acompanhar. Caso contrário, deixamos de organizar o futuro e passamos apenas a reagir ao presente.

Nos últimos anos, São José cresceu, adensou bairros, criou novas centralidades e ampliou significativamente a circulação de pessoas e veículos. Regiões como Urbanova, Jardim Aquarius e o eixo da Via Oeste mostram isso com clareza. Tenho apresentado indicações e requerimentos justamente sobre esses pontos — cobrando estudos de impacto, novos acessos e contrapartidas viárias — porque os sinais de saturação já estão postos.

Mas o desafio vai além do crescimento urbano. Ele está, principalmente, na forma como nos deslocamos.

Hoje, a mobilidade urbana é completamente diferente da que existia quando o plano foi elaborado. As motos de entrega, impulsionadas por aplicativos, passaram a fazer parte do dia a dia da cidade em escala inédita. Motoristas de aplicativo se consolidaram como alternativa permanente de transporte. Patinetes elétricos, bicicletas elétricas e ciclomotores entraram em circulação, cada um com características próprias.

E o Brasil, inclusive, já avançou na regulamentação disso. Pelas normas do Contran, ciclomotores — com até 50 cilindradas ou 4 kW de potência — exigem habilitação, registro e placa. Já bicicletas elétricas e equipamentos autopropelidos, como patinetes, não precisam de emplacamento, mas devem seguir regras específicas de circulação.

Na prática, isso criou um novo cenário urbano.

Hoje, há disputa por espaço em todos os níveis. Nas calçadas, pedestres dividem espaço com patinetes. Nas ciclovias, bicicletas tradicionais convivem com elétricas em velocidades diferentes. Nas ruas, motos, carros e aplicativos disputam cada metro de via. E esse conflito crescente tem impacto direto na fluidez, na segurança e na qualidade de vida.

Um exemplo claro disso é a motofaixa azul. Já existe previsão legal, já foi adotada com sucesso em outras cidades e atende diretamente quem trabalha com moto — especialmente entregadores. Em São José, no entanto, ainda não saiu do papel. E enquanto isso, seguimos com riscos elevados e falta de organização para um dos modais que mais cresce.

O transporte coletivo também precisa ser reposicionado dentro dessa nova realidade. A introdução de ônibus elétricos é um avanço importante, mas não resolve, sozinha, questões como integração com outros modais, cobertura em áreas em expansão e eficiência operacional. Sem essa integração, o que vemos é o aumento do transporte individual — e, consequentemente, mais pressão sobre o sistema viário.

É por isso que tenho insistido: não basta acompanhar o plano atual. É preciso atualizá-lo.

E atualizar não significa apenas revisar dados. Significa repensar a mobilidade da cidade como um todo. Significa organizar a convivência entre modais, definir prioridades, criar infraestrutura adequada e garantir segurança para todos.

Nos requerimentos e indicações que tenho apresentado, o foco sempre foi antecipar problemas. Seja ao cobrar informações sobre impactos viários de novos empreendimentos, seja ao defender estudos técnicos mais atualizados, a intenção é evitar que a cidade seja surpreendida por um sistema que não dá mais conta da realidade.

Mas agora precisamos avançar para uma discussão mais ampla.

A construção de um novo Plano Municipal de Mobilidade Urbana precisa começar. E precisa começar com seriedade, com base técnica e, principalmente, ouvindo quem vive a cidade todos os dias. Entregadores, motoristas de aplicativo, usuários do transporte público, ciclistas, comerciantes, pedestres, especialistas. Todos fazem parte dessa equação.

Mobilidade não é apenas engenharia de trânsito. É organização da vida urbana.

São José dos Campos sempre teve tradição em planejar. Mas planejamento não é algo que se faz uma vez e se guarda na gaveta. Planejamento é um processo contínuo, que precisa acompanhar as transformações da cidade.

E nos últimos dez anos, muita coisa mudou.

Mudou a forma de trabalhar, de consumir, de se deslocar. Mudou a tecnologia, mudaram os hábitos, mudou o volume de circulação. E, com tudo isso, mudaram também os desafios.

Se quisermos preservar a fluidez, garantir segurança e construir uma mobilidade completa, precisamos agir agora.

Porque a cidade que temos hoje já não cabe no plano de ontem.

Anderson Senna
Anderson Senna

Do Gabinete

Senna é vereador em São José dos Campos pelo Partido Liberal (PL), presidente da Frente Parlamentar da Segurança Pública e integrante da Comissão de Justiça e Redação da Câmara Municipal. Atua em pautas relacionadas à segurança pública, mobilidade urbana, saúde, inclusão de pessoas com deficiência e…

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