‘Abandonada’ por Vladimir Putin, expectativa de vida cai na região da Sibéria
Longe da imagem que o presidente Vladimir Putin gostaria de passar ao mundo durante a Copa do Mundo de uma Rússia soberana, autoconfiante, moderna e sofisticada, as cidades satélites da Sibéria registram 25% da população vivendo hoje abaixo da linha da pobreza. Não por acaso, em 2015, a população da província de Irkutsk surpreendeu o…

Longe da imagem que o presidente Vladimir Putin gostaria de passar ao mundo durante a Copa do Mundo de uma Rússia soberana, autoconfiante, moderna e sofisticada, as cidades satélites da Sibéria registram 25% da população vivendo hoje abaixo da linha da pobreza.
Não por acaso, em 2015, a população da província de Irkutsk surpreendeu o Kremlin ao eleger como seu governador Sergei Levchenko. Ele é um dos poucos chefes locais não endossados por Vladimir Putin, em um voto que foi interpretado como um recado a Moscou sobre o abandono que vive a região na Sibéria.
Não é de hoje o caráter rebelde do local. Ao final do século 19, um terço da população era composta de exilados políticos. No século 17 e de olho no comércio com os chineses, Moscou enviou para a região uma legião de cossacos. Nos anos 20, a morte do líder antibolchevique Alexander Kolchak foi orquestrada a partir de uma milícia de Irkutsk.
Hoje, porém, a periferia da província é o retrato de uma região abandonada. Dados fornecidos pela Caritas (organização humanitária da Igreja Católica) indicam que, das 30 milhões de crianças hoje na Rússia, 15 milhões delas vivem abaixo da linha da pobreza. Praticamente todas na Sibéria.
O que ainda preocupa a entidade é o numero elevado de crianças de rua na Sibéria, o maior desde o final da Guerra Fria. Segundo a Caritas, 4% dos menores são órfãos, enquanto que as altas taxas de desemprego e renda baixa têm levado a problemas graves de desnutrição e falta de acesso à educação.
A prevalência de drogas aumentou em cinco vezes em apenas 20 anos e 30% das mortes de jovens são atribuídas ao alcoolismo. Cheirar cola entre menores e um salto de 10% nos casos de Aids em apenas um ano são outras marcas de uma sociedade que viu a sua expectativa de vida cair de 64 anos em média na década de 1990 para 55 anos em 2017.
“O processo de mudança depois do colapso do socialismo empurrou muitos para a exclusão”, alertou a Caritas, em um informe sobre a situação siberiana. “De uma sociedade igualitária que a Rússia tinha como objetivo, o país está mais longe do que nunca nessa realidade”, continuou a instituição. “Um quinto da população russa tem hoje metade da renda do país, enquanto os 20% mais pobres detêm apenas 6% do PIB”.
“A disparidade entre os vencedores da modernização e os perdedores não necessariamente é visível na Rússia”, alertou a instituição. “Muitos dos velhos, doentes e deficientes estão vivendo atrás de muros da privacidade ou em regiões remotas, como são os casos das cidades-satélites da Sibéria”, informou a Caritas em um panorama local.
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