Após crise e escândalos, Fifa suspira com êxito da Copa do Mundo na Rússia
Em um país sem liberdade de imprensa, com protestos proibidos e gastos públicos inéditos, a Fifa respira aliviada diante de uma Copa do Mundo tecnicamente bem sucedida, a primeira do presidente suíço Gianni Infantino. Quem também comemora é o governo de Vladimir Putin, que aposta que o evento pode ter mudado a percepção internacional sobre o…

Em um país sem liberdade de imprensa, com protestos proibidos e gastos públicos inéditos, a Fifa respira aliviada diante de uma Copa do Mundo tecnicamente bem sucedida, a primeira do presidente suíço Gianni Infantino. Quem também comemora é o governo de Vladimir Putin, que aposta que o evento pode ter mudado a percepção internacional sobre o país e fortalecido a sua popularidade em casa.
A Fifa vinha de uma série de situações de impactos negativos à sua reputação. Os problemas da Copa do Mundo de 2014, no Brasil, foram seguidos pela crise motivada pela corrupção. As finanças desabaram, os patrocinadores fugiram e seu governo caiu.
A primeira Copa do Mundo depois dessa fase seria um teste para Gianni Infantino, questionado por uma gestão que peca pela falta de transparência. Ele afastou os investigadores independentes da entidade e ainda tentou aprovar iniciativas como a de fechar acordos com fundos de investidores, sem revelar os seus nomes aos demais dirigentes.
Mas o sucesso da competição dentro de campo e em termos comerciais deram oxigênio para que o suíço declarasse que havia virado a página da crise. Sua esperança é de que o Mundial sem solavancos abra caminho para a sua reeleição, em 2019.
Em termos financeiros, a crise dos últimos três anos foi superada, ainda que os patrocinadores tenham vindo da China e não mais do Ocidente. Apesar dos prognósticos negativos, a Fifa conseguiu fechar a Copa do Mundo com uma receita recorde de US$ 6,2 bilhões, com 98% dos estádios lotados e um sentimento de festa.
Não por acaso, Gianni Infantino já comemorou os resultados da disputa. “Sinto-me numa loja de brinquedos”, declarou diante de Vladimir Putin. O evento também foi comemorado no Kremlin, que começa a sair de um período de recessão e que, em apenas quatro anos, somou 8 milhões a mais de pobres no país. O governo russo adotou uma forte censura, impedindo até mesmo que boletins policiais fossem publicados durante o mês. Protestos foram impedidos e interrompidos.
Desacreditada, a seleção russa surpreendeu e chegou às quartas de final, levando a população a uma euforia comparada ao dia da vitória na Segunda Guerra Mundial, de acordo com organizadores. Até a derrota foi usada como fator de união e patriotismo, com Vladimir Putin classificando os seus atletas de “heróis”. Foi sob a cortina da festa que ele aumentou impostos no dia de abertura da Copa do Mundo e elevou a idade de aposentadoria. Ninguém pôde protestar.
Mas o objetivo dos russos não era vencer a Copa do Mundo. Respondendo à reportagem, o vice-primeiro-ministro do país, Arkady Dvorkovich, deixou claro que a maior conquista foi seu impacto político e o potencial de mostrar uma nova imagem. Para ele, a hospitalidade que a população mostrou não foi propaganda. “Somos assim”, garantiu. “Esperamos que isso mude a atitude em relação à Rússia e ajude a estabilidade internacional”.
Vladimir Putin insiste que também alcançou outra meta: acabar com os estereótipos no Ocidente sobre a Rússia. Segundo ele, quem levaria essa nova imagem seriam os “torcedores-jornalistas” e não a imprensa ocidental que, segundo ele, fazia campanha contra Moscou.
Os torcedores e cidadãos, porém, viveram uma Copa do Mundo sem informações. O governo russo não concedeu uma só entrevista coletiva de imprensa durante o evento e raramente respondeu a questões de jornalistas estrangeiros. Já a imprensa local se limitou a ecoar a mensagem de patriotismo vinda do Kremlin.
Na Fifa, a tradição de realizar uma entrevista coletiva de imprensa por dia foi abolida e comunicados foram publicados durante a madrugada. Questionada se poderia falar sobre o Mundial, a secretária-geral da Fifa, Fatma Samoura, rejeitou fazer qualquer declaração. “Não falo durante a Copa do Mundo”, disse a africana, enquanto uma assistente apontava que ela tinha uma agenda muito cheia.
Sem ter de prestar contas, a Rússia realizou o evento mais caro da história do futebol, destinando US$ 11 bilhões (R$ 49 bilhões). Consultorias e economistas admitem que dificilmente o impacto será de longo prazo. Oficialmente, US$ 3,5 bilhões foram destinados aos estádios, alguns dos mais caros do mundo, e pelo menos quatro deles correm risco de se transformarem em elefantes brancos.
Mas a Copa do Mundo serviu para Moscou usar megaeventos como instrumentos de propaganda. Até agora, US$ 70 bilhões foram gastos em torneios, campeonatos mundiais e Olimpíada de Inverno. E, em 2019, a Universíade será na Rússia. Já em 2020, São Petersburgo recebe jogos da Eurocopa. O êxito do Mundial ainda abre as portas para uma candidatura russa à Olimpíada de 2032. Neste domingo, Moscou deve receber pela primeira vez, desde a crise do doping em 2015, o presidente do COI, o alemão Thomas Bach, para reatar laços.
“Vamos avaliar uma eventual candidatura aos Jogos Olímpicos”, disse o vice-primeiro-ministro. “Mas isso depende do chefe de Estado”. O mandato de Vladimir Putin termina em 2024. Em Moscou, ninguém imagina hoje uma alternativa ao czar, principalmente depois desta Copa do Mundo.
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