Artista cria poesia haicai em fotografia e vídeo

O haicai é uma poesia oriental que consiste em três versos de 17 caracteres (no português, os caracteres japoneses são as sílabas), formando, em sua estrutura clássica, o esquema 5-7-5.

Escrito por: Renan Simão3 min de leitura
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A fotógrafa Letícia Kamada, que esteve no Festival da Mantiqueira 2014

Reprodução/Facebook

O haicai é uma poesia oriental que consiste em três versos de 17 sílabas (no português, os caracteres japoneses são as sílabas), formando, em sua estrutura clássica, o esquema 5-7-5. Diz a lenda que essa sequência de palavras é o mínimo necessário para a expressão de uma imagem. A fotógrafa Letícia Kamada faz o contrário: três imagens ordenadas, paradas ou em movimento, podem gerar a poesia de haicai.

Letícia é uma artista visual que já realizou oficinas e cursos de fotografia na FCCR (Fundação Cultural Cassiano Ricardo), Sesc São José dos Campos e esteve presente no Festival da Mantiqueira de 2014. Uma de suas frentes de trabalho é, segundo a paulistana, uma pesquisa inédita, que trata justamente do haicai em fotografia e no audiovisual.

Seja na linguagem fotográfica ou no vídeo, o tempo é o objeto desse registro. “É a contemplação de um lapso de tempo, o vazio e a necessidade da imagem em movimento, esse é o meu haicai”, conta a artista.

Um exemplo é o haicai -dividido em três fotos- de um pássaro sobre um galho em uma árvore. Aparentemente são iguais, mas o pássaro faz três movimentos de cabeça distintos, estimulando o espectador a pensar naquele universo, a criar o movimento da situação.

O processo artístico de Letícia consiste em obter primeiro a imagem. Depois cria um haicai escrito sobre a fotografia, que seria “descrever a imagem para quem não está vendo”. Só depois é que a imagem em movimento pode ser pensada como poesia.

Nos vídeos do site da artista podem ser encontrados um haicai de três vídeos curtos de um minuto cada ou mesmo vídeos de sete minutos de duração como “O Idiota”, que mostra uma galinha ciscando em plano fechado, entrando e saindo de quadro, com uma trilha sonora que denota um clima sinistro.

Ozu
Paulo Leminski é um dos maiores haicaístas brasileiros, muito influenciado por Matsuo Bashô, poeta de haicai do século 17 e um dos símbolos do estilo da escrita no Japão. Mas Letícia tem como importante referência de estudo os trabalhos do cineasta Yasujiro Ozu, um dos principais realizadores da história do cinema. Os filmes de Ozu prezam pelo plano parado meticulosamente disposto, como uma fotografia.

“É bem parecido com o que faço. A concepção é de uma fotografia de 40 segundos, de deixar a câmera parada mesmo. Depois o que acontece ali é imprevisível”, afirma.

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