Banda Porcas Borboletas canta a imperfeição masculina
A lona tem gosto de derrota. E a queda, não importa o tamanho que se tenha, é dolorida. O trágico, contudo, também pode ser cômico. A perspicácia da banda Porcas Borboletas encontra o riso em meio ao choro. Ri-se da fragilidade. No caso do álbum Momento Íntimo, a piada é o ser masculino. O homem, esse poço sem fundo de tragédias e imperfeições,…

A lona tem gosto de derrota. E a queda, não importa o tamanho que se tenha, é dolorida. O trágico, contudo, também pode ser cômico. A perspicácia da banda Porcas Borboletas encontra o riso em meio ao choro. Ri-se da fragilidade. No caso do álbum Momento Íntimo, a piada é o ser masculino. O homem, esse poço sem fundo de tragédias e imperfeições, cujas tentativas de acerto são tão falhas que, por vezes, beiram o ridículo.
Momento Íntimo, o quarto disco do Porcas Borboletas, é a narrativa do fiasco. Na voz jocosa de Danislau, o vocalista do grupo de Uberlândia, a história se ergue a partir de uma figura surrada pela vida. Cujo cabelo é impossível pentear e quanto mais tintura lhe é aplicada, mais branco fica. Sujeito com roupas sem caimento, largas demais e conta do banco esvaziada. Um alguém incapaz de se sentir confortável com o próprio corpo quando está nu e ainda sofre de uma gravíssima disfunção erétil. Com duas músicas de alma roqueira, Derrota Transcendental e Ejaculação Precoce, o Porcas constrói facilmente o personagem do qual vamos rir – mesmo que for de nervoso, por se identificar com uma característica ou outra.
Qualquer semelhança com o personagem George Costanza, interpretado por Jason Alexander, na série Seinfeld, não é mera coincidência. Essa figura em ruínas, de projeções e desilusões, está entre nós há tempos. A sagacidade do Porcas Borboletas é pescar essa persona para questionar a masculinidade em declínio e o patriarcado decadente diante das mudanças de comportamento tão fundamentais pelas quais a sociedade (enfim) passa.
É o que faz de melhor o grupo que chega aos 18 anos de idade. Com sarcasmo, discurso afiado e canções bastante narrativas, o Porcas Borboletas se estabeleceu como uma banda de olhar único sobre o ao redor. A masculinidade fragilizada exposta ao longo das 10 músicas por uma banda com um sorriso matreiro no rosto de quem sabe o que está retratando. “E todo o conceito do disco surgiu depois. Foi ao final, ao construirmos essas músicas, que percebemos que falávamos sobre essas questões”, diz Danislau. Para ele, a queda do boxeador Maguila, em uma disputa com o campeão mundial de boxe Evander Holyfied, em 1989, cantada na música Maguila, é a representação do que há em Momento Íntimo: “É um binômio entre derrota e glória. Almeja-se a glória, mas cai-se um bocado”.
Borboletas Íntimas
‘Momento Íntimo’
Matraca Records; Plataformas digitais
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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