‘Bater cartão’ nunca mais!
Na RMVale existem três locais do tipo, em São José dos Campos – o primeiro da região -, Taubaté e Jacareí


Espaço coworking em São José dos Campos
Pedro Ivo Prates/Meon
Por que tenho que ter um horário definido ou estar na empresa para trabalhar? Esses são alguns dos desejos de boa parte dos brasileiros que não querem mais “bater o cartão”, segundo uma pesquisa da CNI (Confederação Nacional da Indústria) em parceria com o Ibope (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística).
De acordo com o levantamento, divulgado em março deste ano, os trabalhadores querem ter mais opções para a rotina e, para isso, estão sujeitos até mesmo a uma flexibilização em regras trabalhistas.
Neste cenário, aparecem as opções de home office – quando o trabalhador atua na própria residência – e locais como os coworkings – espaço compartilhado por profissionais de diferentes áreas.
Das 2.008 pessoas entrevistadas, em 140 cidades, 71% delas gostariam de adequar o horário de trabalho às próprias necessidades. Claro que essa possibilidade, assim como as outras destacadas na pesquisa, tende a acontecer mais com determinadas profissões, ramos de atuação e de acordo com o vínculo empregatício. Segundo a pesquisa, apenas 38% dos trabalhadores do mercado formal, aqueles que têm carteira assinada, afirmam ter essa flexibilidade nos horários, contra 76% dos trabalhadores em atividades informais.
De acordo com o levantamento, 73% dos entrevistados desejam trabalhar em home office ou num ambiente alternativo à sede da empresa. No entanto, esse desejo atualmente, também é usufruído mais pelos autônomos ou prestadores de serviços (74%). Apenas 42% dos empregados do mercado formal possuem essa possibilidade.
O joseense Gabriel de Siqueira Domingues, de 26 anos, possui carteira assinada e trabalha em casa. “Foi um acordo de ambas as partes, vimos que eu não tinha a necessidade de ir ao escritório. Quando precisamos nos falar, marcamos uma reunião presencial ou fazemos por videoconferência”, conta o publicitário.
“Funciona como se eu estivesse trabalhando na empresa. Todos os dias sigo um cronograma do que tenho que fazer, como algumas artes, responder alguns e-mails dos clientes, marcar reuniões e programar as viagens para a realização dos eventos”, completa Domingues, que atua no setor de marketing e produção de eventos de uma empresa.
O publicitário garante que trabalha melhor em casa e que prefere essa opção. “Consigo sim [cumprir as obrigações trabalhando em casa] e, para falar a verdade, meu dia rende bem mais. Não gosto de ter uma rotina, isso foi o que mais me atrapalhou quando trabalhava em outras empresas”, comenta Domingues.
Também em março e um pouco antes da pesquisa ser divulgada, o TCESP (Tribunal de Contas do Estado de São Paulo) regulamentou o home office em caráter experimental por 90 dias. A Corte já trata a opção como uma modalidade de trabalho, que será implantada como projeto piloto pela presidência do órgão, que irá acompanhar as atividades e resultados obtidos.
De acordo com o TCESP, os servidores que possuem mais de três anos de efetivo exercício poderão desempenhem suas atividades à distância. Além do home office, a presença do coworking também vem aumentando. O local é outra alternativa para quem deseja mais flexibilidade no emprego e, em alguns casos, possui um ambiente mais dinâmico se comparado ao trabalho em casa.
Na RMVale existem três locais do tipo, em São José dos Campos – o primeiro da região -, Taubaté e Jacareí. “Também há locais que são ocupados por diferentes profissionais e empresas, mas que possuem divisórias e salas separadas, o que não se enquadra em coworking”, explica a arquiteta e responsável pelo coworking de São José, Daniela Asdente.
Segundo Daniela, o novo modelo de local de trabalho precisou quebrar paradigmas para dar certo. “Criamos há dois anos e no começo foi difícil, a pessoa quer ver uma placa do negócio dela na fachada e isso não existe no coworking. Foi uma mudança cultural, no primeiro ano o negócio não se pagava, mas neste ano já está sustentável”, conta.
No local, o cliente pode usar desde uma diária, que custa R$ 15 a hora, ou fechar um pacote mensal, que para uma estação custa a partir de R$ 790 – podendo diminuir o valor se mais pessoas aderirem – e para uma sala, normalmente usada por empresas, para até oito pessoas, de R$ 2.500 a R$ 4 mil. Também há possibilidade de usar o coworking para reuniões e eventos.
“Nesses valores já estão inclusos a limpeza, internet, café, secretária etc. O cliente ainda pode usar o nosso endereço como sendo o do negócio dele. Aqui é pré-pago, você paga e usa”, completa Daniela. De acordo com a arquiteta, o modelo é uma tendência. “As empresas querem flexibilidade e têm interesse pela área de inovação. Num coworking elas ‘veem’ o que as outras empresas e profissionais estão planejando, pensando etc”, diz.

Brasileiros querem mais flexibilidade
Pedro Ivo Prates/Meon
De acordo com Daniela, flexibilidade, networking, custo benefício e complementos de habilidades, são as palavras-chave do coworking. “Temos aqui empresas, advogados, profissionais do setor da economia criativa e logística, produtor de conteúdo, jornalista, engenheiro, programador, representantes de empresa, etc. Um engravatado senta ao lado de um designer todo tatuado e fazem parcerias”, afirma.
Obviamente, a arquiteta prefere o coworking ao home office. “Tem a questão social do autônomo. No home office a pessoa não interage, o ambiente não favorece e há o preconceito por se trabalhar em casa. Aqui é mais respeitado socialmente”, conclui Daniela. Atualmente, em São Paulo, por exemplo, existem cerca de 270 coworkings.
O morador de São José, Rodrigo Bastos, de 36 anos, possui carteira assinada e utiliza o local. “A empresa que escolheu. No começo foi home office, depois optamos por esse modelo pra ser mais formal, ter um endereço”, conta o executivo de contas de uma empresa que tem sede em São Paulo. “A vantagem é ter uma opção com mais tranquilidade para trabalhar e fazer uma reunião. Quem trabalha home office é difícil marcar um lugar para isso. Uma padaria, por exemplo, nem sempre é propício para o negócio”, completa.
“Hoje, faço a administração do meu tempo. Mas esta flexibilidade já vem da empresa que trabalho. Em nossa matriz, os funcionários que moram longe têm flexibilidade de horário e ajuda bastante, principalmente para evitar horários de pico no trânsito”, conta Bastos, revelando uma ação que também apareceu na pesquisa da CNI.
De acordo com o levantamento, 58% dos entrevistados gostariam de reduzir o intervalo de almoço e sair mais cedo para, por exemplo, evitar o horário de pico no trânsito. Outros 63% aceitam trabalhar mais horas por dia para poder tirar folgas.
Outros dados
Segundo a pesquisa, 53% dos trabalhadores gostariam de ter poder dividir as férias em mais de dois períodos, 62% prefeririam receber o vale transporte diretamente em dinheiro e 43% aceitariam reduzir a jornada e salário em períodos de crise. Para a CNI, as relações do trabalho no país precisam ser modernizadas e desburocratizadas urgentemente.
“Datada da década de 1940, a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) trouxe um conjunto importante de proteções ao trabalhador, mas não acompanhou o avanço econômico e social do país, nem a diversificação e a modernização de sua estrutura produtiva. Não prevê, por exemplo, as novas formas de trabalho, com horários e rotinas flexíveis, o como o home office e o emprego à distância, em vez do cartão de ponto e o trabalho presencial”, informa em nota.
Para a gerente-executiva de Relações do Trabalho da CNI, Sylvia Lorena, é preciso fomentar a negociação entre empregados e empregadores. “A consequência da manutenção de normas antigas é o aumento de conflitos e a incapacidade de atender as novas formas e necessidades do trabalho e da produção, o que não atende os interesses dos trabalhadores e das empresas”, afirma.
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