Bola parada e mãos na massa: o ano em que o São José Rugby não jogou mas deu show
Sem atuar profissionalmente em 2020, a equipe joseense deixou um belo legado de como o esporte pode também ser solidário

O ano mais atípico do século, 2020 gerou imprevistos em todos os setores da sociedade. Problemas econômicos atingiram em cheio entidades comerciais, de entretenimento, turismo e, de quebra, também o cenário das instituições esportivas. O futebol, esporte mais popular do país, com muitos questionamentos e protocolos altamente rígidos, voltou aos poucos e consolidou suas competições ao decorrer do ano. Entretanto, no rúgbi, esporte tradicional na Europa e Oceania, mas com pouco apelo no Brasil, a realidade foi totalmente diferente. O São José Rugby, atual campeão nacional de 2019, sentiu na pele os efeitos da pandemia. Contudo, se engana quem acha que a equipe ficou a mercê da crise que se instalou em todo mundo.
O time se preparava para jogar o triangular do Campeonato Paulista da modalidade, quando o vírus chegou com força em todo país, obrigando atividades não essenciais serem paradas. Com o cenário esportivo paralisado, o elenco calçou as luvas e as máscaras, e entrou de cabeça em outra questão bastante abraçada pela modalidade: a solidariedade.
Alexandre Spani, diretor de esportes do clube, acredita que grande parte da manutenção do apoio dos patrocinadores se deu por conta das ações sociais que a equipe realizou no período de pandemia.
“Sempre esteve em nossa veia o trabalho social. Vimos que a situação era de desespero, as pessoas estavam sofrendo e os campeonatos todos estavam sendo cancelados. Buscamos saber o que as autoridades de saúde estavam recomendando e começamos a trabalhar”, diz Spani.
O São José Rugby, segundo diz o dirigente, se associou diretamente ao Movimento SJC Sem Fome, instituição criada pela prefeitura da cidade, de onde surgiram as primeiras atividades solidárias. Arrecadação de alimentos e montagem de cesta básica. Tudo com a participação dos atletas.

Em outra das ações, as equipes de rúgbi, voleibol e basquete, se reuniram e realizaram uma gincana com o foco, novamente, na arrecadação de alimentos
“As pessoas trocavam 1kg de alimento por uma máscara de proteção contra a Covid-19. Fizemos com essas outras duas equipes de modalidades diferentes, mas novamente em parceria com o Movimento SJC Sem Fome. Foram cerca de 300kg de alimentos arrecadados”, destacou o dirigente.
As ações geraram compartilhamentos de todos os cantos do país. Segundo números das redes sociais da equipe, o aumento de inserções em relação ao ano anterior foi de 29%. Foi em uma dessas mensagens que a equipe recebeu o contato do Diamante do Gueto, projeto social de Recife-PE. Utilizando o esporte e a música como ferramenta de educação, o projeto, através dos irmãos Wanderson e Wandreys, entrou em contato com o São José Rugby para parabenizar o clube pelas ações sociais e, de quebra, revelaram ser fãs dos irmãos Daniel e Felipe Sancery, atletas da equipe e da Seleção Brasileira.
Com ajuda da equipe do Jacareí Rugby, equipe rival, os atletas autografaram camisas e enviaram para os meninos.
“Foi gratificante demais para nós. Ao mesmo tempo que ficamos surpresos por uma mensagem vinda de tão longe, nos sentimos honrados. Foi muito legal”, destaca Spani.
Segundo semestre: retorno aos treinos e mais ações solidárias
Com várias competições canceladas e a decisão concreta por parte das federações de que nenhum campeonato seria disputado em 2020, o desafio para as equipes foi achar maneiras de manter as portas abertas em um esporte sem tanto apelo nacional.

Logo após o cancelamento oficial das competições, a Federação Paulista de Rugby anunciou uma campanha chamada “Rúgbi Paulista contra a Covid”. Dividida em três atos, a ação promovia venda de máscaras protetivas contra o coronavírus, arrecadação de alimentos e doação de sangue. Tudo o que foi arrecadado foi destinado ao Instituto Brantz, entidade sem fins lucrativos, localizado na região sul de São José dos Campos.
“Acredito que isso trouxe reconhecimento por parte dos nossos apoiadores. Vinculamos nossa imagem de maneira positiva em meio à crise”, destaca Alexandre Spani.
O ano de 2020 se encerrou e o São José Rugby manteve todos os patrocinadores que a equipe teve na conquista do Super 8 – maior competição nacional da modalidade – no ano anterior.
Com a reabertura de muitos setores do comércio por conta da variação das fases do Plano São Paulo, pela primeira vez a equipe tinha em vista uma possibilidade de iniciar os treinos de forma presencial.
Com um protocolo seguro e rigoroso, aprovado pela Secretaria de Esportes de São José dos Campos e elaborado pelo departamento médico do clube, a equipe voltou com os treinos, das times masculino e feminino adultos, com atividades individuais e em horários alternados.
“Nossa maior preocupação era dar suporte aos profissionais. Com a diminuição dos números da pandemia no segundo semestre de 2020, começamos a ter mais liberdade para trabalhar alguns fundamentos de treino”, destacou o dirigente.
Spani ainda destacou que devido ao grande tempo de inatividade, os treinamentos tiveram que contar com aprimoramento de exercícios considerados básicos do esporte.
“Tivemos que voltar com atividades padrões da modalidade. Lançar a bola, saber cair em determinada dividida de jogo, entre outros. O longo tempo parado fez os atletas saírem das condições ideais de jogo”, completou.
Rúgbi joseense pelo mundo
Se o rúgbi esteve inativo e sem partidas oficiais em território nacional, no cenário internacional alguns eventos foram realizados. Atual campeão nacional e vice-campeão paulista, o São José Rugby teve alguns de seus atletas cedidos e atuando pela Seleção Brasileira.
Leonardo Souza, Moisés, Rafael Teixeira e os irmãos Daniel e Felipe Sancery estiveram servindo ao time nacional no Sul-Americano de Rúgbi Union (Modalidade de 15 jogadores por equipe), no Uruguai. Desses, Moisés, Daniel e Felipe Sancery também estiveram no Chile, representando o Brasil no torneio de rúgbi sevens (Modalidade de sete jogadores por equipe).
Já no feminino, na modalidade de sevens, Mariana Nicolau foi a representante joseense na equipe brasileira que disputou a competição sul-americana no Uruguai.
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