Cães adestrados visitam crianças internadas no Hospital em São José
Cães ajudam diretamente no tratamento de doenças


As crianças internadas aguardam ansiosamente pelas tardes de sexta-feira
Pedro Ivo Prates/Meon
Que a presença de um animal de estimação alegra qualquer ambiente é fato, principalmente se tiver alguma criança no local. Há quase um ano e meio, muito mais do que alegrar um ambiente, cachorros adestrados estão ajudando diretamente no tratamento de pacientes da ala de pediatria do Hospital Municipal de São José dos Campos.
As crianças internadas aguardam ansiosamente pelas tardes de sexta-feira, quando o senhor Lauro Cardoso, adestrador de cães há mais de 30 anos, vai até o hospital com a labradora Bruna, para passar pouco mais de uma hora interagindo, não só com os pacientes, mas também com pais, médicos e enfermeiros.
O projeto é uma iniciativa da Comissão de Humanização do hospital, um comitê interno que é responsável pelo desenvolvimento e execução de ideias que buscam promover a humanização no local. As pessoas envolvidas no projeto não recebem nenhum retorno financeiro por isso e mesmo assim a iniciativa é um sucesso desde sua criação.
O adestrador Lauro Antônio Cardoso Freire, de 73 anos, que trabalha na área há 34 anos, é o responsável técnico pelo projeto. Ele é quem analisa se o cão pode ou não entrar no hospital e participar da inteiração. Membro da Sociedade Valeparaibana de Cães Pastores Alemães desde 1968, Lauro foi escolhido e convidado para o cargo e não pensou duas vezes antes de aceitar a proposta.
“Havia um bom tempo que eu vinha pedindo para Deus que eu pudesse encontrar alguma forma de ajudar o próximo e poder fazer a diferença. Quando apareceu a proposta para mim, por eu ser um adestrador antigo e conhecido na cidade, eu sabia que aquele era o sinal, de que eu tinha encontrado minha missão”, conta Cardoso.
“No começo, o projeto era mais agitado. Chegaram a ir oito adestradores, cada um com um cachorro. O trabalho é sério e você deve abrir mão de algumas coisas às vezes e, devido aos compromissos do dia a dia, algumas pessoas foram parando. Eu me ausentei uma vez apenas, por ter ficado doente. No momento sou eu e mais duas pessoas apenas tomando conta do projeto”, disse.
Lauro leva a labradora Bruna todas as sextas-feiras ao hospital, cachorra de um casal de amigos e que ele adestrou. “A Bruna é um amor, super calma, tranquila e obediente. Nunca tive problemas com ela. Já aconteceu uma vez, logo no começo do projeto, de um cachorro de um dos adestradores avançar em outro cão, então infelizmente tive que impedir que o cachorro voltasse mais vezes. A segurança das crianças deve vir em sempre em primeiro lugar”, afirma.
Durante a visita, Lauro faz diversas apresentações como se estivesse em um campeonato. Bruna se finge de morta, deita, rola, finge que está com a pata machucada, cumprimenta, busca a bolinha e pula obstáculos, além atravessar uma argola no ar. “É muito legal aprender a dar ordens igual o adestrador, a Bruna obedece certinho”, afirma o paciente Miguel Marques Barbie, de 9 anos de idade.

Cachorro tem que ter a liberação
Pedro Ivo Prates/Meon
Olhar clínico
Os resultados são visíveis na melhoria dos pacientes, que em alguns casos passam longos períodos internados no hospital e necessitam quebrar a rotina de exames, medicamentos e repouso. A terapia com cães é algo que vem ganhando força no Brasil nos últimos anos, mas que é praticado nos Estados Unidos há décadas.
Existem diversos estudos que comprovam os benefícios do tratamento com cães. A cura de doenças nunca foi comprovada, mas os benefícios físicos e psicológicos, como melhoria da coordenação motora, do sistema imunológico e de sintomas de depressão são autênticos. Além disso, a presença do cão no ambiente estimula a comunicação entre as pessoas.
Para a psicopedagoga Elaine Paraizo Santos, de 27 anos, responsável pela ala de pediatria do hospital, são grandes os ganhos com o projeto. “Os resultados são enormes com o projeto. Muitas vezes vemos casos de crianças com possibilidade de estarem mais ativas, porém, elas estão psicologicamente assustadas, por estarem em um lugar desconhecido e passando por vários procedimentos. Quando a visita dos cachorros acontece, tudo muda. É visível a mudança da condição emocional da criança”, afirma.
“A criança se anima para levantar da cama, abre um sorriso e esquece dos problemas um pouco. Existem crianças que ficam por longos períodos no hospital e o projeto para eles é de grande importância, pois são coisas simples, mas que fazem falta no cotidiano dessas crianças”, conclui Elaine.
A alegria no olhar de Wallace Coelho, de 11 anos, assim que os animais chegam no local é perceptível. “Eu estava com saudades do meu cachorrinho. Poder brincar com eles aqui no hospital me fez matar um pouco dessa saudade e alegra meu dia”, relata.
Para a mãe de Wallace, Rosangela Coelho, de 38 anos, não existe nada melhor que, em meio as dificuldades, poder ver o filho com a estima lá em cima. “É impressionante como alguns momentos fazem toda a diferença. Ele está há semanas no hospital e sempre aguarda a sexta-feira para poder brincar com os cachorrinhos. Este carinho especial faz toda a diferença no tratamento dele”, afirma.
Preparação e higienização
Para poder frequentar o hospital e participar do projeto, o cachorro tem que ter a liberação de um veterinário, que também é voluntário do hospital. A relação de vacinas deve estar sempre atualizada e, caso o animal apresente algum comportamento estranho dias antes de ir até o hospital, ele deve passar pelo profissional para garantir que não há nada de errado.
O cachorro também é sempre avaliado pelo responsável técnico, no caso o adestrador Lauro. Somente após uma avaliação dele, dizendo que o cachorro está apto para interagir com as crianças, que há a liberação do animal.
Existe também todo um processo de higienização do cão antes de ir ao hospital. Ele deve tomar banho sempre um dia antes, para que ele esteja limpo e também para que o cheiro do perfume não esteja muito forte e cause alergia ou irritação nas crianças. Além disso, existe o controle de tártaro, que é acompanhado pelo veterinário semanalmente.
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