Chapeuzinho vermelho; Fábulas pós modernas

Chapeuzinho Vermelho caminhava saltitante pelo bosque de araucárias e flores silvestres, carregando a cesta com biscoitos e guloseimas que sua mãe fizera para a avó que morava no meio da floresta. Tudo cuidadosamente preparado com cereais integrais e sem glúten, pois a vó era natureba convicta.

Escrito por: Meon Redação3 min de leitura
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Chapéuzinho Vermelho caminhava saltitante pelo bosque de araucárias e flores silvestres, carregando a cesta com biscoitos e guloseimas que sua mãe fizera para a avó que morava no meio da floresta. Tudo cuidadosamente preparado com cereais integrais e sem glúten, pois a vó era natureba convicta.

Acontece que Chapeuzinho, desobedecendo sua mãe, ficou flanando perigosamente pela floresta, colhendo uns cogumelos estranhos que encontrou pelo caminho e tentando achar sinal de internet para postar selfies no Facebook.

Enquanto isso, sorrateiro como ele só, o lobo mau foi correndo para a casa da vovozinha, assim poderia comê-la e ter a netinha de sobremesa depois.

Toc, toc, toc.

–    Quem é?

–    Sou eu vovó, sua netinha… rosnou o lobo, tentando simular, sem muito sucesso, a fina e taquárea voz da Chapeuzinho vermelho.

Quando a vovozinha abriu a porta, o lobo mau foi logo gritando, com uma voz empostada para parecer mais selvagem e ameaçador:

–    Sou o lobo mau, e vim te comeeeeeeer!

–    Ual, que lobo mais assanhado…

E então o lobo pulou em cima da pobre vovozinha, que defendeu-se ligeira com uma joelhada frontal impiedosa, derrubando o animal no chão.

–    Que fúria é essa vovozinha? Ta fazendo academia da melhor idade?

–    Não, é muai thay mesmo, boxe tailandês…

–    Quase me partiu ao meio…

–    Desculpe, não queria machucá-lo, sente aqui que vou pegar um pouco de gelo. Você está sumido da floresta, o que tem havido?

–    Ando meio deprimido, essa floresta escura é tão opressiva que às vezes me dá um aperto no peito…

–    Já procurou um terapeuta holístico?

–    Tentei florais de Bach, mas não adiantou. Meu psicólogo desconfia que seja síndrome do pânico.

–    Puxa, quem diria, o velho lobo mau.

–    Lobo down.

–    Não fique assim, o choro não lhe cai bem. Tudo passa.

Toc, toc, toc.

– Oi vó, sou eu, chapeuzinho vermelho.

–    Entre minha neta.

–    Vim trazer esta cesta de biscoitos e doces que a mamãe mandou.

–    Que delicia, ponha aqui na mesa.

–    O wifi está ligado vovó?

–    Sim. A senha é wildladies.

–    Quem é você?

–    Sou o lobo mau.

–    Lobo mau? E esse narizinho arrebitado e tão pequeno?

–    Fiz cirurgia plástica para tentar vaga num reality show.

–    E esses braços lisinhos e sem pelos?

–    Depilação a laser.

–    E essas pernas marombadas?

–    Quadríceps e leg 45, três vezes por semana.

–    Ual. Um lobo metrosexual…

–    E você chapeuzinho, porque esta toda de preto? Virou emo?

–    Quer apanhar? Sou gótica.

–    Maneiro… Bom gente, vou indo.

Foi quando a avó interveio:

–    Fica um pouco mais lobo, vai ter bolo. Desistiu de me devorar? (mal ocultando o semblante de decepção)

–    Preciso tomar meu antidepressivo e gosto de chegar em casa antes do anoitecer. Sabe como pode ser perigosa essa floresta.

–    Volte outras vezes. Prometo ser mais carinhosa da próxima.

–    Espero.

–    Não vá se perder, hein?

–    Não me perco. O GPS do celular fica sempre ligado.

–    Tchau.

E a vovó devorou a cesta inteira de biscoitos e guloseimas, que era o que lhe restava fazer naquele fim de tarde gelado no meio daquela floresta escura e solitária.

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