Com licença, mas essa história está mal contada!

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Escrito por: Pedro Henrique Cordeiro Santos4 min de leitura
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As trajetórias de representatividade de incontáveis minorias sociais, tal como a população LGBTQIA +, são público-alvo de deturpações históricas quanto a suas vivências ímpares e frutos de contextos sociopolíticos distintos na sociedade brasileira contemporânea. À vista disso, é inevitável pressupor que a grande mídia é um reflexo direto de pensamentos desta natureza, inerentemente desumanizadora e equivocada. A fim de que esta conjectura se prove verdadeira é fundamental que o seguinte exercício imaginativo seja realizado: quais são as imagens que vêm a sua mente ao ler mulher trans e empregada doméstica? De antemão, vale salientar que este questionamento é a chave para as reflexões propostas e discorridas neste artigo.

Antes de qualquer coisa, é relevante que o leitor esteja ciente do contexto histórico, em que a palavra “estereótipo” surge, com intuito de que uma analogia seja concretizada e esteja no horizonte deste debate. No contexto da impressão gráfica, este termo foi utilizado para se referir às placas de metal que permitiam imprimir a mesma imagem inúmeras vezes, isto é, em massa. Perante esta informação, nota-se que a indústria cultural, constantemente, assemelha-se com um aparato criado no século XIII, valendo-se da complexidade e pluralidade de grupos socialmente estigmatizados e os reduzindo a representações hiper simplificadas e ocas, preenchidas pelo repertório munido de ignorância daqueles que os significam e os definem.

A título de exemplificação, pode-se recorrer a telenovela “A Dona do Pedaço”, escrita por Walcyr Carrasco, exibida em 2019 na TV Globo em horário nobre, em que uma mulher trans, Britney, interpretada por Daniela Garcia Machado, compõe o núcleo cômico e é alvo de piadas ao ter sua genitália meramente mencionada, bem como a incapacidade de Abel, Pedro Carvalho, em perceber que está se relacionando com uma pessoa trans. Por outro lado, é também imprescindível recordar os papéis relegados às mulheres negras, por exemplo, de empregadas domésticas, como acontece no caso da personagem de “Êta Mundo Bom”, Dita, vivida por Jennifer Nascimento, que pode ser categorizada como uma moça bisbilhoteira, espevitada e de uma língua muito afiada, sub-estereótipo clássico na teledramaturgia brasileira.

Contudo, engana-se quem crê que este cenário se limita somente ao Brasil, uma vez que a cinematografia norte-americana está abarrotada de representações menosprezáveis da população negra e LGBTQIA+, desde seus primeiros passos, tendo em conta “A Florida Enchantment”, de 1914, dirigido por Sidney Drew, no qual se concluí que homens negros são intrinsecamente violentos e descontrolados e “The Crying Game”, lançado em 1992, em que o corpo de uma mulher trans é ridicularizado e seguido de uma completa reação de repulsa, causando mal-estar no homem que a vê nua. Coincidentemente, gerando um efeito dominó nos filmes posteriores, nos quais a única conduta viável ao se deparar com um corpo desviante do sistema sexo-gênero é aversão, como “Ace Ventura: Pet Detective”, de 1994, que conserva esta mesma regra. Apesar desta lista ser muito mais extensa, deve-se recordar outro fato curioso: homens cisgênero interpretando personagens trans. A exemplo de Cillian Murphy, em “Breakfast on Pluto”, de 2005, que interpreta uma travesti.

Em suma, constata-se que a representatividade das várias minorias deve abranger uma perspectiva bem mais ampla do que a atual, dado que a desumanização não pode se tornar um ato trivial em nenhuma esfera da sociedade. Ainda que este quadro esteja demonstrando evolução e aspectos positivos recentemente, alguns dados carecem de atenção. A começar pela morte brutal de ao menos 273 pessoas LGBTQIA + no Brasil em 2022, levantado pelo Observatório de Mortes Violentas Contra LGBTI+, em parceria com a ANTRA e ABGLT. Sem contar, o fato da taxa de homicídio de homens negros ser quase 4 vezes maior do que de não negros conforme a segunda edição do relatório de Violência Armada e Racismo, pautado em informações do Sistema de Informações sobre Mortalidade, ou até mesmo o aumento da taxa de assassinato da população indígena em 21,6% nos últimos dez anos de acordo com o Atlas da Violência. Logo, cabe ao Brasil o papel de acolher e tornar-se um país menos assombroso para aqueles que fogem dos padrões moldados e esperados de cada integrante da população.

Com supervisão de Isabela Sardinha, jornalista do Meon Jovem.

Pedro Henrique Cordeiro Santos
Pedro Henrique Cordeiro Santos

2° ano do Ensino Médio - E.E Prof Ruth Coutinho Sobreiro - SJC

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