Confira o trecho da delação em que Carlinhos Almeida (PT) é citado
Ex-prefeito de São José aparece em depoimento da Operação Lava-Jato


Carlinhos Almeida é citado na operação “Lava Jato”
Arquivo / Meon
O ex-prefeito de São José dos Campos, Carlinhos Almeida (PT), foi citado durante o depoimento das delações premiadas dos executivos da Odebrecht, na Operação Lava Jato. O seu nome é mencionado durante o depoimento do ex-diretor de relações institucionais da Odebrecht, Cláudio Melo Filho.
Por meio de nota, o ex-prefeito Carlinhos Almeida disse que o vídeo que mostra o depoimento é a maior prova de que não há irregularidades na doação recebida por ele. “O vídeo do depoimento do senhor Cláudio Melo Filho é a maior prova de que eu não defendi em nenhum momento qualquer interesse que não fosse o fortalecimento da indústria nacional de defesa, uma das maiores empregadoras da nossa região. Ele afirma com clareza que a doação foi feita de forma totalmente legal, sem que nada tenha sido pedido em troca. Aliás, a doação da Mectron à minha campanha foi exatamente a mesma que fez ao meu principal adversário naquela eleição”, afirma o ex-prefeito.
Confira a transcrição do trecho da delação premiada, na íntegra:
Nos treze dias do mês de dezembro de 2016 na sede da Procuradoria Geral da República. Presentes os procuradores Melina e Vitor, compareceu o senhor Claudio Melo Filho, acompanhado dos seus advogados Rodrigo e Mauricio, a fim de apresentar o seu depoimento em relação de acordo com colaboração.
Eu indago ao senhor Cláudio Melo.
Procurador: O senhor no tocante do seu anexo 4.12, que trata do assunto Deputado Carlinhos Almeida, medida provisória 544/2011. Irá responder a todas as perguntas formuladas?
Cláudio Melo Filho: – Perfeitamente
Procurador: Vamos às questões: Por gentileza, contextualize o relacionamento com o deputado Carlinhos Almeida e a Odebrecht e também essa questão da medida provisória 544.
Cláudio Melo Filho: – Eu conheci o deputado Carlinhos Almeida em uma viagem à Ucrânia. Em que participei a pedido do DS, diretor superintendente João Pacifico, porque esse DS João Pacifico tem uma obra chamada “Alcântara”, que é a base de lançamento de foguete de Alcântara e alguns parlamentares foram convidados pela Comissão Parlamentar Brasil/Ucrânia para visitar a base dos ucranianos, na Ucrânia. Como iriam parlamentares, Pacífico me perguntou se eu poderia ir, porque automaticamente iriam algumas pessoas da empresa. Então, como iriam parlamentares e eu represento a empresa aqui em Brasília, me perguntou se eu poderia ir.
Eu fui na visita. A Comissão de Ciência e Tecnologia, que foi a comissão que foi visitar, era presidida pelo deputado Bruno Araújo (PSDB) na época, eu acho.E como o deputado ia, e eu o conhecia, também foi o deputado (Antônio) Imbassahy (PSDB), da Bahia que eu conhecia e lá eu conheci o deputado Carlinhos Almeida (PT).
Depois disso, eu voltei ao Brasil. Essa viagem foi em 2011. Eu voltei ao Brasil e, quando eu volto ao Brasil, o deputado se torna relator de uma medida provisória que dizia respeito à indústria de defesa do Brasil. A medida provisória 544, de 2011.
Então, nessa linha, como eu tinha conhecido o deputado, as pessoas da Odebrecht Defesa e Tecnologia, área jurídica de lá, me perguntaram se eu tinha condições de levá-los para ter uma interlocução com o deputado Carlinhos Almeida. E assim o fiz. Não vi problema em fazer isso.
Liguei pro deputado, pedi uma audiência. Fomos conversar com ele e lá a gente fez algumas discussões sobre a medida provisória que, institucionalmente, era apoiada pela Fiesp da época, por conta da indústria brasileira. Eu to tentando achar o nome, era Condefesa. Condefesa e Abindi, Associação Brasileira da Indústria de Defesa. E Condefesa eu acho que é Confederação da Indústria da Defesa, alguma coisa assim.
E eu levei, conversamos e nessa medida provisória a preocupação nossa, como a gente estava inserido no projeto, a ODT, Odebrecht Defesa e Tecnologia estava iniciando o seu negócio, ela queria entender como viria, como seria a discussão dessa medida provisória e se ela passaria a valer. E assim foi feita a medida provisória. Seguiu em frente, foi aprovada e virou lei.
Procurador: O deputado de alguma forma concorreu para que essa medida fosse aprovada?
Cláudio Melo Filho: Ele era o relator.
Procurador: E ele se comprometeu a atuar no sentido de defender os interesses?
Cláudio Melo Filho: Ao que eu me lembre a gente não fez nenhum pedido especifico. A gente só queria entender como estava a medida provisória e se ela efetivamente seria para valer. Eu digo isso, porque uma medida provisória, como o senhor sabe melhore do que eu, ela tem 60 dias de validade, prorrogada por mais 60. Então, a gente estava constituindo a Odebrecht Defesa e Tecnologia. Então, se existisse o arcabouço jurídico o negócio poderia prosperar.
Procurador: Depois desse episódio, o senhor teve contato com o deputado?
Cláudio Melo Filho: Fui procurado pelo deputado Carlinhos Almeida, no ano de 2012. Ele se candidatava, à época, a prefeitura de São José dos Campos, que é onde é inclusive a base da empresa Odebrecht Defesa e Tecnologia. Ele estava concorrendo e perguntou se, de alguma forma, a Odebrecht poderia contribuir para a campanha dele. Aí eu procurei o presidente da Mectron. A Mectron é empresa nossa que fica sediada em São José dos Campos, que é parte da Odebrecht Defesa e Tecnologia. E falei com ele e ele se comprometeu a fazer uma ajuda. E consta que houve uma ajuda oficial da Mectron, no valor de 50 mil reais.
Procurador: Quem definiu esse valor?
Cláudio Melo Filho: O presidente da Mectron, com quem eu falei. Ele procurou o próprio deputado, a meu pedido, se apresentou e definiu o valor de 50 mil reais.
Procurador: Qual o nome do presidente (da Mectron)?
Cláudio Melo Filho: Ele saiu da empresa, por isso minha dificuldade. Poxa, não era uma pessoa do meu convívio e ele saiu, ele não trabalha mais na Odebrecht. Me perdoe, eu não estou lembrado agora.
Procurador: Esse pedido, essa solicitação, teve alguma relação com o fato do deputado ter sido relator da MP 544?
Cláudio Melo Filho: Olha, eu acho que pelo fato de eu tê-lo procurado né?! Pra conversar sobre essa medida provisória, da mesma forma que eu me senti a vontade em ir, porque eu tinha conhecido ele numa visita recente, eu acho que ele se sentiu também confortável de vir falar comigo e me fazer a solicitação.
Procurador: Esse valor de R$ 50 mil foi repassado de que maneira?
Cláudio Melo Filho: De forma oficial.
Procurador: Por meio de doação?
Cláudio Melo Filho: Por meio de doação oficial.
Procurador: Você sabe se foi feito algum tipo de repasse não contabilizado?
Cláudio Melo Filho: Tenho certeza que não.
Procurador: Certeza que não?
Cláudio Melo Filho: Tenho certeza que não. Porque o presidente da empresa me disse uma vez isso.
Procurador: Algum outro fato que gostaria de esclarecer?
Cláudio Melo Filho: Eu só peço mais uma vez desculpas de não me lembrar aqui o nome, mas até pela internet vocês podem descobrir.
Procurador: Qual foi o período?
Cláudio Melo Filho: 2012.
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