Da esperança às lágrimas, torcida paulista sai frustrada com eliminação na Copa
Um jovem chora enrolado na bandeira do Brasil. Não era o único. Cerca de 25 mil torcedores estavam prontos para apoiar Tite, Neymar, Philippe Coutinho e companhia no Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo, contra a Bélgica. Teve gritaria, teve mandinga, teve reza. Não teve jeito. Os adversários venceram por 2 a 1 em Kazan, na Rússia, onde…

Um jovem chora enrolado na bandeira do Brasil. Não era o único. Cerca de 25 mil torcedores estavam prontos para apoiar Tite, Neymar, Philippe Coutinho e companhia no Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo, contra a Bélgica. Teve gritaria, teve mandinga, teve reza. Não teve jeito. Os adversários venceram por 2 a 1 em Kazan, na Rússia, onde já haviam caído Alemanha e Argentina, outras favoritas. Fim de Copa do Mundo para o Brasil. Lágrimas no Anhangabaú.
Os paulistanos assistiram à derrota diante de um telão de mais 70 metros quadrados, maior do que muito apartamento na cidade. “Faltou organização no meio de campo”, disse o estudante Vitor Martins, de 20 anos, o jovem que, em meio a outros tantos, chorou enrolado na bandeira. “Não vou dizer que existiu um vilão, futebol é um jogo coletivo, todo mundo perde junto”.
O clima no Anhangabaú virou em 90 minutos. Uma hora antes do jogo, centenas de torcedores chegavam animados, boa parte com fitinhas, bandeiras, pinturas no rosto e cerveja na mão. Uma roda de samba, com bumbo e pandeiro, se formou do lado de fora do cercado. Estavam confiantes que o Brasil passaria à semifinal, embora alguns demonstrassem cautela.
“É o adversário mais difícil até aqui”, disse o vendedor Nelson Roberto, de 50 anos, que levou o filho Davi, de 1 ano e 1 mês, para assistir à seleção. “O ataque da Bélgica é muito bom, mas ainda precisa ser testado contra um time de nível. A defesa que é lenta”, avaliou.
Com as unhas coloridas de azul, verde e amarelo, a vendedora Márcia Rodrigues, de 68 anos, juntou as mãos para rezar, antes dos times entrarem em campo. “Estou com mau pressentimento. Não consegui dormir direito, fiquei me virando na cama a noite toda por causa desse jogo”, contou. Vestiu-se à caráter: uma camisa de 1970, lenço no pescoço, chapéu e relógio do Brasil e até um coraçãozinho pintado na bochecha.
De bobeira, o motorista Hebert Nascimento, de 30 anos, andava de bicicleta no entorno sem ser incomodado por ninguém. Era o único a vestir uma camisa da Bélgica. “Na verdade, eu não ligo para futebol: se ganhar ou perder, não muda nada para mim. A camisa é porque eu tinha em casa”, disse.
Com sol forte na cara, a plateia no Anhangabaú fez sombra com as mãos para acompanhar a disputa. O Brasil começou bem: “Uuuuh!”, vibrou a torcida quando Thiago Silva acertou a trave e, no lance seguinte, Paulinho não conseguiu aproveitar. Muito som de buzina e gritos.
Virava tensão quando De Bruyne, Hazard ou Lukaku surgiam no jogo. “Ele é perigooooso”, falava Galvão Bueno sempre que um dos três pegava na bola. Foi rápido. Cobrança de escanteio para a Bélgica, Fernandinho – remanescente do 7 a 1 e substituto de Casemiro, suspenso – subiu para afastar. Silêncio no Anhangabaú. Olhos arregalados, os brasileiros viram, pela primeira vez na Copa do MUndo, a seleção sair atrás. “Eu acreditôôô!”, a torcida fez coro. Da sacada dos prédios, vizinhos também acompanhavam o telão.
MOMENTO DE FÉ – Pouco depois, em um contra-ataque rápido, De Bruyne chutou de fora da área: 2 a 0. Os pentacampeões levaram a mão à cabeça, o fracasso ganhara corpo. No intervalo, os torcedores tinham a cara mais fechada do que as linhas de defesa da Bélgica.
Contra os diabos, mascote dos adversários, restou apostar na fé. No WhatsApp dos torcedores, começaram a circular “correntes da sorte”. “Essa é a capivara da virada do Brasil, repasse para o Brasil virar o jogo”, dizia uma das brincadeiras.
O gol até saiu. Em um cruzamento, Renato Augusto, herói improvável, mandou de cabeça, fazendo vários copos de cerveja voarem no Anhangabaú. Faltavam 15 minutos, mais 5 de acréscimo. O suficiente apenas para perder chances de gol, uma delas do próprio Renato Augusto. No fim das contas, nem a fé adiantou. “Esse Gabriel aí só tem nome de Jesus mesmo”, comentou o confeiteiro Gelson Gomes, de 48 anos.
Ainda sem saber da derrota, o operador de máquinas Marco Antônio Silva havia arriscado 2 a 1 para o Brasil. “Só inverti os times”, lamentou depois. Do lado dele, senhorinhas choravam sem acreditar no resultado. “A seleção lutou bem. Os gols davam para ter saído, deu azar”.
O Brasil foi o último dos sul-americanos a cair na Rússia. Após a derrota, um artista subiu no palco do Anhangabaú, que tem shows previstos para toda a Copa do Mundo, e tentou consolar o público. “Sei que todos estão tristes, mas a vida segue. A gente ainda vai ter muita história para contar”, disse. Então tocou a primeira música, um axé. Ninguém aplaudiu.
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