Eduardo Galeano, um popstar na Bienal de Brasília
A literatura também tem seus popstars – foi o que comprovou a passagem do escritor uruguaio Eduardo Galeano por Brasília, como convidado da 2ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura. Desde seu primeiro compromisso oficial, na noite de sexta, até a tarde de ontem, quando participou de uma mesa sobre futebol e ditaduras na América Latina, o autor de…

A literatura também tem seus popstars – foi o que comprovou a passagem do escritor uruguaio Eduardo Galeano por Brasília, como convidado da 2ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura. Desde seu primeiro compromisso oficial, na noite de sexta, até a tarde de ontem, quando participou de uma mesa sobre futebol e ditaduras na América Latina, o autor de 73 anos era protegido por seguranças enquanto diversos fãs buscavam aproximação. “Estou sufocado de carinho”, brincou ele.
Galeano tornou-se notório por uma obra publicada em 1971, As Veias Abertas da América Latina, clássico entre os esquerdistas por analisar a história daquela região desde o período colonial até a contemporaneidade, argumentando contra o que considera exploração econômica e política do povo latino-americano – primeiro pela Europa, depois pelos Estados Unidos.
Apesar de sempre ser badalado por esse livro, Galeano revelou-se cético diante da própria obra. “Depois de tantos anos, já não me sinto mais ligado a esse texto”, disse. “O tempo passou e descobri diferentes maneiras de conhecer e de me aprofundar na realidade. Considero uma etapa superada. Se eu relesse a obra hoje, cairia desmaiado, não iria aguentar”, completou, em tom de brincadeira.
Na verdade, a essência de seu discurso continua a mesma (para ele, o progresso da América Latina está em seguir seu próprio caminho ao invés de se tornar uma cópia do mundo desenvolvido e dos países governantes), mas a oratória mudou.
“Como todo latino, apresento diversos vícios e o mais grave é a tendência à inflação – não dos preços, mas de palavras”, ironizou, na noite de sábado, durante homenagem ao poeta argentino Juan Gelman, morto esse ano e um dos principais convidados da 1ª Bienal Brasil, há dois anos. “Essa inflação é a mais grave e mais difícil de evitar. Nos dias de hoje, tento dizer o máximo possível com menos palavras, pois descobri que o silêncio também é uma eficiente forma de comunicação.”
Em conversa exclusiva com o jornal O Estado de S. Paulo, na tarde de sábado, 12, Galeano havia completado o raciocínio ao dizer que o mundo vive hoje uma ditadura do medo. “Isso pode ser constatado nas revelações de Edward Snowden (ex-agente da CIA que revelou segredos de Estado), que mostraram o quanto somos vigiados.”
Mas, como sua voz não se cala e suas palavras continuam encantando leitores de todos os continentes (o séquito em Brasília é uma prova viva), Eduardo Galeano se contradiz constantemente, mantendo o ritmo tradicional. Questionado sobre o passado tortuoso e os rumos da esquerda em uma entrevista coletiva, ele respondeu: “A esquerda foi demolida muitas vezes por ter dado certo. Foi castigada pelas ditaduras, pelos sacrifícios humanos e pelas barbaridades cometidas em nome da paz, do progresso e da democracia. Em algumas épocas, a esquerda também cometeu erros gravíssimos. A realidade tem o dom da surpresa justamente por dar respostas a perguntas não formuladas”.
Fiel a esse pensamento, ele o aplica em diversas áreas, especialmente na que considera sua maior paixão: o futebol. Quando analisa o que se passa dentro de campo, seus olhos brilham. “Por sorte, ainda temos jogadores, como Neymar e Messi, que tratam o esporte como espetáculo e não apenas como forma de subsistência”, comentou.
Otimista, ele também não engrossa o coro dos que criticam o atraso das obras da Copa do Mundo no Brasil. “Não acredito nos profetas bíblicos, muito menos nos profetas esportivos. O melhor a fazer é calar a boca e esperar.”
O tom muda quando a conversa pula para fora do campo e chega até a intrincada engrenagem da máquina que comanda o futebol mundial: a Fifa. “Muda-se o presidente, mas continuamos sem saber o que se passa dentro daquele castelo, onde homens criam leis que transformam os atletas em macacos de circo, ou seja, não usufruem devidamente dos dividendos conquistados pelo seu esforço e talento.”
Por meio da ironia, o escritor deu a medida em que sente um domínio excessivo do mercantilismo no futebol. “Quando abro as páginas esportivas dos jornais, sinto que estava lendo a editoria de economia. Afinal, ali só se falam dos valores dos passes dos jogadores, como se todos tivessem um preço”, disse. “Se houvesse respeito ao futebol, os atletas seriam respeitados e não confundidos com mercadorias.”
Na mesa de ontem à tarde, que atraiu uma multidão maior que a capacidade de tenda, provocando um pequeno tumulto, Galeano decidiu não falar de ditadura, mas enobrecer um jogador: Sócrates. “É em memória dele que estou aqui, pois Sócrates, com a Democracia Corintiana dos anos 1980, participou da maior revolução acontecida no futebol: a tomada de poder.”
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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