Eleições 2026: virada de 6,6 milhões de votos e prorrogação da votação levantam questionamentos sobre o segundo turno

Lula ganhou 10,4 milhões de votos entre os dois turnos, enquanto Flávio Bolsonaro cresceu 3,7 milhões. Mudança no eleitorado e decisão judicial que ampliou o horário de votação alimentam debate sobre o resultado

Escrito por: Rubens Baracho6 min de leitura
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A eleição presidencial de 2026 terminou neste domingo (25) com a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas abriu uma nova disputa política e jurídica em torno do resultado. Além da controversa decisão que prorrogou o horário de votação até as 19h, os números registrados entre o primeiro e o segundo turno despertam questionamentos sobre a redistribuição dos votos dos candidatos eliminados.

No primeiro turno, Flávio Bolsonaro (PL) havia terminado à frente de Lula, com 56,1 milhões de votos, contra 53,9 milhões do petista. Três semanas depois, o resultado foi invertido: Lula alcançou 64,2 milhões de votos, enquanto Flávio recebeu 59,8 milhões.

A mudança representa uma inversão de aproximadamente 6,6 milhões de votos na diferença entre os dois candidatos.

O resultado foi oficialmente anunciado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com 51,79% dos votos válidos para Lula e 48,21% para Flávio Bolsonaro.

Para onde foram os votos de Caiado, Zema, Cury e Renan Santos?

Um dos pontos que merecem atenção na análise do resultado é o comportamento dos eleitores que, no primeiro turno, optaram por outras candidaturas.

Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e o escritor Augusto Cury (Avante) somaram aproximadamente 6,38 milhões de votos. Renan Santos, do Partido Missão, conquistou outros 2,67 milhões.

Os resultados do primeiro turno para esses candidatos foram os seguintes:

CandidatoVotos no 1º turno
Ronaldo Caiado2.605.148
Romeu Zema326.488
Augusto Cury3.448.569
Renan Santos2.675.887
Total9.056.092

Juntos, os quatro candidatos receberam mais de 9 milhões de votos no primeiro turno. A votação dessas candidaturas ganha relevância diante da diferença de crescimento registrada pelos dois finalistas.

Enquanto Lula conquistou 10.376.694 votos adicionais, Flávio Bolsonaro ampliou sua votação em 3.721.538 votos. O crescimento do presidente reeleito foi, portanto, quase três vezes maior.

O que mudou entre os dois turnos?

A comparação dos resultados mostra que as duas candidaturas ampliaram suas votações, mas o crescimento de Lula foi significativamente maior.

Candidato1º turno2º turnoVotos adicionais
Lula53,88 milhões64,26 milhões+10,38 milhões
Flávio Bolsonaro56,10 milhões59,83 milhões+3,72 milhões

Considerando o posicionamento político de parte das candidaturas eliminadas, especialmente Caiado e Zema, identificados com o campo da direita e centro-direita, a distribuição final dos votos suscita uma pergunta: em que proporção os eleitores desses candidatos optaram por Lula, Flávio Bolsonaro, votos brancos, nulos ou pela abstenção?

A resposta não pode ser obtida apenas pela soma dos votos. Também é necessário considerar os milhões de eleitores que não participaram do primeiro turno, mas compareceram ao segundo, além daqueles que mudaram de candidato entre as duas votações.

O comparecimento aumentou em aproximadamente 3 milhões de pessoas, enquanto o número de votos brancos e nulos diminuiu.

Esses movimentos ajudam a explicar o crescimento das duas candidaturas, mas não revelam, individualmente, o destino dos votos dos candidatos eliminados. Para uma análise mais precisa, será necessário comparar os resultados por município e zona eleitoral, especialmente nas regiões em que Caiado, Zema e Cury tiveram desempenho mais expressivo.

O aumento da votação não permite identificar como cada eleitor votou. A transferência entre candidaturas não é comprovada apenas pelos totais nacionais.

Prorrogação da votação amplia a controvérsia

Paralelamente às discussões sobre a transferência de votos, a decisão de ampliar o horário de votação em todo o país até as 19h provocou um impasse entre o Supremo Tribunal Federal (STF) e a Justiça Eleitoral.

O ministro Cristiano Zanin determinou a prorrogação após uma solicitação apresentada pela campanha de Lula, que relatou dificuldades no transporte público em diferentes cidades.

A decisão foi divulgada às 17h03, três minutos depois do horário oficialmente estabelecido para o encerramento da votação.

O problema é que muitas seções eleitorais já haviam encerrado suas atividades, emitido os boletins de urna e concluído os procedimentos de fechamento.

A orientação do TSE às seções chegou às 17h49, estabelecendo que apenas aquelas ainda abertas poderiam continuar recebendo eleitores até as 19h.

Na prática, a decisão judicial produziu situações diferentes entre seções eleitorais: algumas permaneceram funcionando, enquanto outras já não podiam receber novos votos. A circunstância levanta questões sobre a uniformidade da aplicação da medida, a competência judicial e os procedimentos adotados para garantir condições equivalentes de participação.

Flávio também pediu prorrogação, mas em municípios específicos

A campanha de Flávio Bolsonaro também havia solicitado a ampliação do horário de votação, porém em condições diferentes. O pedido foi encaminhado ao TSE e estava relacionado a municípios afetados por fortes chuvas, alagamentos, interdições e falta de energia.

Diferentemente da solicitação apresentada pela campanha petista, o pedido de Flávio tinha abrangência localizada e buscava assegurar o direito de voto dos eleitores prejudicados por fenômenos climáticos. A campanha de Lula, por sua vez, solicitou a prorrogação nacional, posteriormente determinada pelo STF.

A distinção entre os pedidos é relevante: a solicitação de uma medida específica não equivale necessariamente à concordância com uma ampliação generalizada, sobretudo quando a determinação ocorre depois do horário oficial de encerramento.

Quantos votos foram registrados depois das 17h?

Esse é um dos pontos objetivos que poderão ajudar a esclarecer o alcance da controvérsia. O presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, determinou o levantamento dos votos registrados durante o período de prorrogação.

A informação permitirá dimensionar quantos eleitores efetivamente participaram da votação depois das 17h e qual foi o alcance da medida extraordinária.

Também será importante esclarecer quantas seções permaneceram abertas e quantas já haviam concluído suas atividades quando a decisão chegou aos tribunais regionais.

A diferença final entre Lula e Flávio Bolsonaro foi de 4.430.191 votos. A comparação desse número com o volume de votos registrados durante a prorrogação poderá contribuir para a discussão sobre a relevância eleitoral da medida, embora não seja suficiente, isoladamente, para determinar sua validade jurídica.

Questionamentos exigem transparência e comprovação

Flávio Bolsonaro anunciou que pretende contestar judicialmente o resultado da eleição, questionando a decisão que ampliou o horário de votação e seus efeitos sobre o processo eleitoral.

A eventual discussão sobre a validade do pleito dependerá de elementos jurídicos e técnicos concretos. Da mesma forma, a mudança na distribuição dos votos entre os dois turnos, por mais expressiva que seja, não constitui, isoladamente, evidência de irregularidade na apuração.

Os dados oficiais permitem constatar uma virada eleitoral significativa, mas a identificação das razões desse movimento exige análises adicionais, inclusive pesquisas sobre o comportamento do eleitorado e comparações regionais.

O TSE disponibiliza os boletins de urna e demais registros de votação para consulta pública, possibilitando a conferência dos resultados.

A questão central não é antecipar conclusões sobre a legitimidade da eleição, mas assegurar que os números, as decisões judiciais e os procedimentos adotados sejam submetidos ao necessário escrutínio público.

Em uma disputa marcada por polarização e por uma inversão expressiva entre os dois turnos, a transparência das informações é fundamental para que a sociedade compreenda não apenas quem venceu, mas também como se formou o resultado final.

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