Endereços cheios de histórias
Quem casa, quer casa. Quem saiu da casa dos pais, quer uma casa. Quem foi morar com os amigos, quem se mandou da correria da cidade, quem resolveu criar um canto do seu jeito. Nesta semana, conversamos com pessoas que amam o endereço que têm. São lugares criados com as próprias mãos, desde as cores das paredes até a disposição dos objetos


Projeto casa de Rodnei Tiago que saiu da agitação de São Paulo
Epitácio Pessoa/Estadão Conteúdo
Quem casa, quer casa. Quem saiu da casa dos pais, quer uma casa. Quem foi morar com os amigos, quem se mandou da correria da cidade, quem resolveu criar um canto do seu jeito. Nesta semana, conversamos com pessoas que amam o endereço que têm. São lugares criados com as próprias mãos, desde as cores das paredes até a disposição dos objetos. Pessoas que não tiveram ajuda de profissionais para deixar pronto o cantinho que escolheram para chamar de casa. Por vontade própria, eles quiseram ser os autores de cada detalhe. Juntaram coisas, procuraram referências, tiveram ideias e colocaram a mão na massa.
Foi assim com Marina Barbato, que não via a hora de ter sua própria casa. A de seus pais era clássica demais para seu gosto colorido. Designer apaixonada por ilustrações de botânica, assim que foi pedida em casamento começou os preparativos para a sua nova casa, em um prédio baixo do Planalto Paulista, zona sul de São Paulo. “O edifício é de uma senhora que mora no primeiro andar e faz questão de cuidar de tudo pessoalmente. Me sinto bem aqui, olhando da janela os aviões que pousam no aeroporto e criando meus desenhos.”
Quem também saiu da casa dos pais para ter seu primeiro cantinho foi Luiza Valim, que veio de Brazópolis, no sul de Minas, para morar com os amigos em um apartamento antigo na Avenida Paulista Em cada quarto, a personalidade de cada um. Na sala, a vitrola antiga toca os discos preferidos dos quatro moradores. “A gente recebe muito os amigos, gostamos de falar que nossas festas se chamam ‘rolê da agulha’, já que passamos a noite ouvindo música ” No sofá que vira cama, uma manta de crochê da infância de Luiza. Na geladeira, um bilhete da vizinha pedindo de volta a “panela grande, emprestada na semana passada”, ao lado, um imã estampado com a frase “eu bebi saudade a semana inteira”. “Como a família de todo mundo mora longe, a gente não volta para a casa de nossos pais sempre. Então, aqui tinha de ser um lugar que nos lembrasse todos os dias de onde viemos.”
Rodnei Tiago fez o caminho contrário para achar seu espaço. Saiu da agitação do centro de São Paulo e encontrou a paz em uma casa de tijolos aparentes no meio da Serra da Cantareira. Assim que entrou, sabia que era ali que ele e seu companheiro, Klecius Borges, deveriam juntar suas coisas, seus cachorros e viver. “Aqui o tempo passa devagar”, diz Tiago. A mesa no jardim é o cenário das refeições em todos os dias quentes do ano. No inverno, a lareira do estar fica acesa durante a noite. “Cada coisa que colocamos aqui foi planejada para que esse lugar fosse um refúgio.”
A jornalista Rafaela França também cuidou de cada detalhe de seu apartamento, em uma rua movimentada de Pinheiros, zona oeste de São Paulo. As grandes janelas da sala deixam vazar o som do vaivém de quem frequenta as baladas do bairro, mas isso não é um problema. “Já morei em muitas casas desde que vim do Rio. O apartamento, por ser pequeno, me traz a sensação de aconchego que acho que nunca vou encontrar em uma casa grande.” Os amigos não se importam em se apertar no espaço de 55 m² nas festas que rolam por lá. Uma pequena mesa de madeira serve de bar nas noites de agito e a rede acomoda a moradora nas tardes de domingo dedicadas à leitura. “Quando me mudo, monto meu acampamento. Mas só me mudo quando preciso mesmo. Minha vontade é sempre de ficar.”
A empresária Maíra Faigle também não gosta de mudança. Até que saiu de uma casa que amava para outra, no mesmo bairro. Achou que seria difícil se acostumar com o novo espaço, mas resolveu deixar, ela mesma, tudo com a cara da família. Para isso, foi em busca de móveis que pudessem ser reformados. “Fiz até um blog para contar minhas experiências, o ‘inventando um cafofo’.” O “cafofo” de Maíra, assim como os outros lares que a reportagem visitou, já estão prontos. São casas para ir com tempo para ouvir histórias. E ficar à vontade.
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