Equação do novo mundo

Quando parti para terras remotas, nos confins de Minas Gerais, em 2012, ainda mergulhado em pessimismo e medo, queria entender a “equação do novo mundo”. Queria entender toda essa pujança individualista em detrimento dos grandes sonhos humanistas. Queria compreender porque tanto cinismo, enquanto quase um quarto do mundo passava fome. Afiava o canivete na pedra: […]

Escrito por: Meon Redação3 min de leitura
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Quando parti para terras remotas, nos confins de Minas Gerais, em 2012, ainda mergulhado em pessimismo e medo, queria entender a “equação do novo mundo”. Queria entender toda essa pujança individualista em detrimento dos grandes sonhos humanistas. Queria compreender porque tanto cinismo, enquanto quase um quarto do mundo passava fome.

Afiava o canivete na pedra: “Num futuro próximo, teremos que viver como bons selvagens, cuidar da terra, dos bichos, alcançar uma espécie de amor incondicional, cuidar das coisas indistintamente, porque agora precisamos, mais e mais, ou quase tão somente, de carinho indistinto”.

Cheguei a me perguntar: “Terei adoecido junto à humanidade, sanando meu medo do mundo”? Ao mesmo tempo em que indagava sem concretude, sempre esteve comigo o sentimento de que “a humanidade só caminha para frente”. Depois de muito me esforçar para compreender a História (Goethe, Rousseau, Marx, Durkheim), passei a olhar para trás na tentativa de “perdoar” a espécie humana.

“O homem ainda está em seu jardim da infância. São apenas 10 mil anos de civilização frente a 200 mil de espécie”, eu pensava.

Procurava reunir os grandes períodos, assistindo a revoada passar dos séculos: pilhéria patriarcal na Grécia, imperialismo populista em Roma, absolutismo na Europa medieval, direitos naturais do homem no renascimento, direitos civis no iluminismo. E concluía: “Nós só estamos começando. Com retrocessos aqui ou acolá, não importa, estamos apenas começando”.

Prova disso é que de todos os períodos citados acima, não há nenhum em que eu gostaria de ter vivido. Há apenas passagens que me atraem: os anos 1960 em São Francisco, a Belle Époque em Paris. Ainda assim, eu prefiro as conquistas do final do século 20 e início do 21. Mas por quê? Afinal, pra onde estamos indo, movidos “às cegas” pelo individualismo? Afinal, para onde estamos indo, se “o sonho acabou”?

Lennon, mártir da utopia libertária, foi morto por um tiro narcisista (disparado por um jovem invejoso). John sentiu na pele o fim das utopias. Esse fato acabou representando, de certa forma, o início de todo esse preconceito contra o pensamento romântico e contemplativo em prol de uma sociedade objetiva, utilitária e eficiente.

Lennon, herói da minha geração, foi enterrado e zombado como “hippie maconheiro”, exatamente como aqueles soldados romanos, que cuspiam no rosto de um homem que ironizavam como “Jesus Nazareno Rei dos Judeus”, enquanto este agonizava. Pois então, para estamos indo, se o sonho acabou?”

Eis que abro um livro de cândido nome, “Filosofia da Liberdade”, e encontro umas das epístolas mais esperançosas desses tempos de incertezas, que povoamos inertes. Seu autor, o filósofo alemão Rudolf Steiner, apareceu pra molhar a terra seca, com o conceito de “INDIVIDUALISMO ÉTICO” que, posso dizer, habitava meu cocuruto desde que voltei pra cidade disposto a aceitar esse processo de “objetivação do mundo” como um “jardim da infância” da humanidade.

“Filosofia da Liberdade”, ou “filosofia da interpessoalidade”, defende a união multifacetada, pessoal e ética, entre o pensar e o sentir. “Individualismo ético” seria, para Steiner, a semente da liberdade – alcançada através de um “pacto consciente” entre nossos ideais e as leis objetivas do mundo.

O “cessar-fogo” entre o sonho individualista e a utopia coletiva, tão necessário para o crescimento humano, enfim ganhou sentença, verbalizou-se, pra solucionar, mesmo que em parte, minha tão procurada “equação do novo mundo”.

Quem sabe, dia desses, num rincão de terra qualquer, numa lavoura de lucidez e sapiência, a civilização se torne adulta? Quem sabe?

Há muitos jardins pela frente. E estamos apenas aprendendo.

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