Festival reverencia Nelson Rodrigues
Diferentemente dos anos anteriores, a nova edição do Festlip (Festival Internacional de Teatro de Língua Portuguesa) reunirá espetáculos que partiram de proposta semelhante: a encenação de obras de Nelson Rodrigues (1912-1980). “Dei aula de teatro nos países de língua portuguesa. Percebi que a dramaturgia brasileira não é difundida em nenhum…

Diferentemente dos anos anteriores, a nova edição do Festlip (Festival Internacional de Teatro de Língua Portuguesa) reunirá espetáculos que partiram de proposta semelhante: a encenação de obras de Nelson Rodrigues (1912-1980). “Dei aula de teatro nos países de língua portuguesa. Percebi que a dramaturgia brasileira não é difundida em nenhum deles. Agora é que a editora Tinta-da-China, de Portugal, está voltada para a publicação de Nelson”, informa a atriz e produtora Tania Pires, idealizadora do evento.
Desde o início, Tania optou por Nelson. “Os temas são familiares. Na África, a mulher permanece como objeto de desejo. A poligamia se mantém como prática comum. A violência doméstica é constante. E Nelson escreve de modo passional, característica que diz respeito aos portugueses”, explica Tania, sobre o festival que começa nesta terça-feira, 20, para convidados e na quarta, 21, para o público, e se estende até 2 de outubro, com entrada franca. As encenações tomarão conta do Oi Futuro do Flamengo, Teatro Sesi do centro e Sesi de Jacarepaguá, no Rio.
Tania encomendou às companhias montagens de textos do autor. A Elinga Teatro, de Angola, ficou encarregada de levar ao palco A Mulher Sem Pecado, primeira peça do dramaturgo. A Raiz di Polon, de Cabo Verde, recebeu o desafio de encenar A Serpente, o último texto. E o Teatro da Garagem, de Portugal, foi incumbido de mergulhar nas crônicas de Nelson em A Vida Como Ela É. Cada grupo teve três meses para levantar o espetáculo. Representando o Brasil, haverá uma leitura dramatizada, conduzida pelo diretor Antonio Gilberto, de O Terceiro Vestido de Noiva. As escolhas de Tania foram norteadas por determinados critérios. “O Elinga investe numa vertente mais realista. Já o Garagem costuma trabalhar com a interface teatro/cinema”, esclarece.
Diretor da companhia portuguesa, Carlos J. Pessoa confirma a influência do cinema, mesmo que essa não seja a espinha dorsal da montagem. “Utilizamos estratégias que associamos ao cinema, num registro fragmentário que oscila entre o documental, a narração e o interlúdio tragicômico. Na dramaturgia, a referência ao cinema brasileiro – O Pagador de Promessas (1962) – constitui o corolário do espetáculo”, observa, mencionando o filme de Anselmo Duarte. Desde o Festlip passado, o Teatro da Garagem está desenvolvendo um projeto com a Talu Produções, realizadora do festival, chamado A Falar Que A Gente Se Entende. Tania assume que a diminuição na quantidade de espetáculos se deve a limitações financeiras. “Os festivais estão tendo que usar a criatividade para lidar com a crise”, frisa.
Em todo caso, além da programação teatral, esse oitavo Festlip oferecerá a exibição, na Cinemateca do MAM, de filmes centrados no universo rodriguiano – Mulheres e Milhões (1961), de Jorge Ileli, O Casamento (1976), de Arnaldo Jabor, A Dama do Lotação (1978), de Neville DAlmeida, e Bonitinha Mas Ordinária (1981), de Braz Chediak -, viabilizada graças a uma parceria com o REcine. Haverá ainda uma exposição de Ismael Lito, na Casa de Cultura Laura Alvim, com cenas, frases e citações de Nelson e uma mostra gourmet comandada pelo chef Rodrigo Tristão, do Zazá Bistrô, com pratos inspirados nos textos do célebre anjo pornográfico.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
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