Filho de felá Kuti, Seun vem ao Brasil com alto poder de fogo
A África não havia experimentado na música força da natureza igual até o final dos anos 1960, quando Fela Anikulapo Kuti começou a existir com mais visibilidade em meio à conturbada situação política da Nigéria. Fela, influenciado por tudo o que viu e ouviu em uma viagem aos Estados Unidos nos anos 1960, elaborou um conceito de música como se armasse um artefato explosivo para jogar sobre as tropas da ditadura que assolou o país a partir de 1966. Usou os sopros dos metais da soul music, repensou e complicou as linhas de baixo do funk, colocou mulheres para fazer backings e investiu na guitarra africana, com o conhecido recurso da técnica ‘palm mute’ (de notas abafadas), para criar seu vigoroso e inebriante afrobeat. Enfrentou os militares nas letras das canções e foi preso, teve sua casa incendiada e sua mãe, assassinada. Morreu em 1997, aos 58 anos, deixando um legado de resistência e transformação cultural.


Seun Kuti é leal seguidor do pai, Fela Kuti que criou um gênero africano em 1970
Reprodução/Facebook
A África não havia experimentado na música força da natureza igual até o final dos anos 1960, quando Fela Anikulapo Kuti começou a existir com mais visibilidade em meio à conturbada situação política da Nigéria. Fela, influenciado por tudo o que viu e ouviu em uma viagem aos Estados Unidos nos anos 1960, elaborou um conceito de música como se armasse um artefato explosivo para jogar sobre as tropas da ditadura que assolou o país a partir de 1966. Usou os sopros dos metais da soul music, repensou e complicou as linhas de baixo do funk, colocou mulheres para fazer backings e investiu na guitarra africana, com o conhecido recurso da técnica ‘palm mute’ (de notas abafadas), para criar seu vigoroso e inebriante afrobeat. Enfrentou os militares nas letras das canções e foi preso, teve sua casa incendiada e sua mãe, assassinada. Morreu em 1997, aos 58 anos, deixando um legado de resistência e transformação cultural.
Mais do que o filho da lenda, Seun Kuti é seu leal seguidor. O pai, Fela Kuti, homem que criou um gênero africano absolutamente original e com ele deu voz à sangrenta Nigéria dos anos 1970, deixou no palco um menino de 15 anos transpirando sonhos e revolta quando morreu, em 1997. Seun herdou sua banda, a Egypt80, assumiu seu instrumento, o sax, e se apoderou do discurso paterno ainda mais impiedoso que o dos rappers norte-americanos: “Qualquer desenvolvimento da África só existe para as pessoas ricas. Nós temos um presidente que usa um jato privado, mas que não faz nenhum planejamento para ajudar as pessoas pobres. Só os pobres morrem na África”, diz em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, por e-mail, de sua cidade, Lagos, na Nigéria.
Seun Kuti, de 31 anos, vem ao Brasil à frente da Egypt80 ainda entusiasmado pelo resultado de seu álbum mais recente, A Long Way to the Beginning, com produção do norte-americano Robert Glasper e atuações do duo de hip hop Dead Prez, do trompetista Christian Scott e da cantora nigeriana Nneka. O primeiro show de Seun com um grupo de 14 integrantes será em São Paulo, dia 28 de setembro, no Vale do Anhangabaú, com abertura da Orquestra Poly-Rythmo de Cotonou, do Benin (como antecipou o site Radiola Urbana). Já no dia 11 de outubro, ele se apresenta na passagem do Festival Mimo por Paraty (RJ), em show também gratuito na Praça da Matriz. Seun foi escalado para o lugar de outro africano, o malinês Salif Keita, que cancelou a vinda para o Mimo depois de adiar sua turnê internacional para 2015.
Quais são as particularidades do novo álbum, A Long Way To The Beginning?
O afrobeat segue juntando elementos da black music (soul, rock e funk). Chamei Robert Glasper para produzir e atuar em algumas faixas, como também Dead Prez, Christian Scott e Nneka. É importante que o afrobeat mantenha o orgulho e o respeito pela black music.
Seu pai deixou um legado de enfrentamentos contra a ditadura na Nigéria nos anos 70. E hoje, quais os desafios de seu país?
Os jovens precisam estar mais envolvidos. Acordar e mostrar que têm potencial. A nova geração tem de lutar por seus direitos, levantar-se para fazer uma África melhor. Quem faz a mudança são os jovens, a decisão está com eles. Mas não podem entrar na política para não se corromperem. O que precisam fazer é libertar sua “destruição criativa” (conceito idealizado pelo economista austríaco Joseph Schumpeter, que fala sobre uma nova economia de mercado recriada por produtos criativos que destruirão velhas empresas e modelos de negócio). Os líderes econômicos e políticos têm medo da “destruição criativa”, estão com medo das novas tecnologias, do que os jovens podem criar com elas, com o novo sistema que irá acabar com todos os antigos. Os jovens precisam trazer a África para o novo milênio. As chaves estão com eles.
Como foi a sua infância?
Muito simples, nós nem tínhamos carro. Eu ia para a escola de transporte público. Meu pai estava sempre em casa, sempre com tempo para conversar, mas minha mãe era rigorosa. Fela me fez um cara simples, com a mente aberta, e me fez aceitar quem eu sou. Ele foi um grande pai, sempre com os jovens a seu redor.
O Egypt80, a última Banda de Fela, está toda com você?
O Egypt80 é uma instituição. Eles deveriam ganhar um prêmio por tudo o que têm feito. Chegaram a gravar nove álbuns com o meu pai. Oito ou nove integrantes tocaram com ele.
A África de hoje não precisa de um novo Fela Kuti?
Há vários Felas na África de hoje. O problema é a corrupção que não permite a eles divulgar suas ideias nas TVs ou nas rádios. Assim que aparecem, o governo trata de tirar as emissoras do ar. É difícil, ninguém pode falar sobre esses artistas. Mas há um pouco de Fela em todos nós. A África tem muitas grandes mentes.
Quando você ouve música brasileira, você ouve a África?
Sempre. E o grande músico, o grande homem, amigo de meu pai, se chama Gilberto Gil.
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