Goebbels, a vida de um narcisista impiedoso
Descrevê-lo como lunático evitaria o trabalho de explicá-lo. Ele fazia parte de um séquito que via atributos heroicos em seu führer, a grandeza inquestionável e o gênio de um redentor nacional. A história de Joseph Goebbels é indissociável da personalidade carismática de Adolf Hitler. Mas o que faz a história do ministro nazista e gauleiter de Berlim singular não é apenas a sua associação à propaganda e aos projetos culturais do nazismo, mas um diário, que ele manteve de 1923 a 1944, que o tornou o mais importante cronista do Terceiro Reich.


Homem da propaganda nazista manteve um diário de crônicas por quase 20 anos
Divulgação/CC/Wikipedia
Descrevê-lo como lunático evitaria o trabalho de explicá-lo. Ele fazia parte de um séquito que via atributos heróicos em seu führer, a grandeza inquestionável e o gênio de um redentor nacional. A história de Joseph Goebbels é indissociável da personalidade carismática de Adolf Hitler. Mas o que faz a história do ministro nazista e gauleiter de Berlim singular não é apenas a sua associação à propaganda e aos projetos culturais do nazismo, mas um diário, que ele manteve de 1923 a 1944, que o tornou o mais importante cronista do Terceiro Reich.
Foi por meio da análise exaustiva do diário desse arrivista cruel e impiedoso que o historiador alemão Peter Longerich compôs o livro Joseph Goebbels, Uma biografia. Ao descrever o biografado como uma personalidade narcisista perturbada, ele decidiu desconstruir o autorretrato concebido por Goebbels, pois quase tudo o que se conhece sobre o homem provém dele mesmo.
O chefe nazista abriu seu diário em 17 de outubro de 1923 escrevendo: “O novo rumo é a direita”. Em 4 de abril de 1924, fundou em sua cidade – Rheydt – um grupo local nacional-socialista. Poucos, na expressão do historiador Ian Kershaw, “trabalhavam para o führer” tão bem quanto ele, ou seja, procuravam descobrir os objetivos do líder para determinar e legitimar suas iniciativas políticas e pessoais.
O diário era um presente de Else Janke, sua namorada. Else era uma professora primária filha de mãe judia, condição que o atormentava. Goebbels, conta o historiador Marc Ferro, guardava um ressentimento pessoal contra os judeus. Ele escrevera um drama, Judas Iscariotes, e pedira emprego no Berliner Tageblatt, um jornal dirigido por um judeu, que o negou. O antissemitismo de Goebbels (“odeio o judeu pelo instinto e pela razão”) tornaria-se virulento após sua adesão ao NSDAP (o partido nazista, na sigla em alemão), O homem que levou os métodos da publicidade comercial à política defendia o extermínio (“comina-se aos judeus uma pena sem dúvida bárbara, mas eles a merecem”).
Longerich não tem a elegância e a vivacidade do texto de Kershaw Também não faz da biografia uma história do tempo e do espaço em que viveu o biografado – o alemão não é Jacques Le Goff. É em torno do limite imposto pelos fatos da vida do ministro da Propaganda do Reich e de suas relações que a obra se organiza. Os olhos do historiador não perdem Goebbels de vista jamais. O ambiente totalitário é apenas entrevisto. Mas lá estão suas sombras. Elas passam pela vida do homem que se vendia como chefe genial de um aparato de propaganda intuitivamente em conformidade com o ídolo – Hitler – a fim de criar o consenso entre povo e liderança. Para tanto, calou o dissenso – baniu até a crítica artística.
Era, surpreendentemente, alijado das principais decisões políticas e militares do führer. Mesmo assim, defendeu quase tudo o que Hitler fez. Livrou-se do compositor Paul Hindemith – o que o levou à ruptura temporária com o maestro Wilhelm Furtwängler – após o führer atacar “corruptores da arte”. Demitiu Richard Strauss depois de a Gestapo interceptar uma carta dele para o escritor Stefan Zweig na qual dizia fingir colaborar com o regime.
Quando Hitler mandou o pastor Martin Niemöller para um campo de concentração, escreveu que o luterano devia ser trancafiado até perder “a audição e a visão”. Estatizou o cinema, proibiu os cabarés e organizou em 1937 a exposição da arte degenerada em Munique. Mais de 2 milhões de alemães foram ver as obras de Kandinsky, Klee, Chagall e outros “decadentes”. Salvo as de Shakespeare – “um poeta nórdico” – as peças estrangeiras foram banidas do teatro.
Casara-se com Magda Quandt em 1931. Desenvolveu-se então, segundo o historiador, uma relação triangular entre Hitler, Goebbels e Magda. “Goebbels engoliu o ciúmes e aceitou o arranjo, que, afinal de contas, prometia lhe dar uma influência inimaginável sobre o chefe.” Depois que Hitler decidiu se matar em seu bunker, em Berlim, Goebbels e Magda assassinaram os seis filhos e se suicidaram. Para Longerich, eles não concebiam mais o mundo sem o führer.
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