Greve na Embraer gera conflito entre grupo de trabalhadores e sindicato
Após a decisão dos trabalhadores da Embraer de São José dos Campos em iniciar uma greve por tempo indeterminado na última quarta-feira (5), alguns funcionários da empresa que não concordam com a paralisação criaram um grupo fechado no Facebook, onde se organizam contra o movimento e criticam a abordagem do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região.


Trabalhadores da Embraer votaram pela suspensão da greve nesta segunda (10)
Rodrigo Ribeiro/Meon
Após a decisão dos trabalhadores da Embraer de São José dos Campos em iniciar uma greve por tempo indeterminado na última quarta-feira (5), alguns funcionários da empresa que não concordam com a paralisação criaram um grupo fechado no Facebook, onde se organizam contra o movimento e criticam a abordagem do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região.
O grupo chamado Sou Embraer e NÃO Estou em Greve. Fui Impedido de Entrar na Fábrica, conta com mais de 4.100 membros. Por meio da rede social, os integrantes combinaram que todos que não concordam com a greve fossem vestidos de azul na assembleia desta segunda-feira (10), na qual a maioria entre os 8 mil presentes votaram pela suspensão da paralisação.
O grupo do Facebook representa cerca de 40% do número total de empregados da unidade da Embraer em São José, que conta com aproximadamente 10 mil trabalhadores. Segundo dois funcionários que não quiseram se identificar, a maior parte dos presentes na assembleia estavam de azul.
“Este grupo NÃO é uma iniciativa da liderança Embraer. É dos funcionários que não concordam com a greve e estão indignados com a atitude do sindicato de desrespeitar o direito de ir e vir das pessoas. Vamos mostrar quantos somos!”, diz a especificação do grupo na rede social.
Ainda segundo os trabalhadores, por vários momentos durante a assembleia na manhã desta segunda, os integrantes do sindicato foram vaiados enquanto falavam para os funcionários presentes. Durante a assembleia, houve confusão e agressão física entre um grupo de trabalhadores e integrantes do sindicato.
“O que aconteceu foi que um grupo pequeno de chefia, com diretores, supervisores e gerentes, quiseram tumultuar a assembleia. Os mesmos ficaram ameaçando os trabalhadores durante o fim de semana, inclusive ligando na casa dos mesmos e hoje na assembleia, pressionando os trabalhadores para encerrar a greve”, diz o presidente do sindicato, Antônio “Macapá” Ferreira de Barros, sobre a confusão entre integrantes do sindicato e funcionários.
Na assembleia desta segunda-feira (10), o sindicato não colocou em votação a proposta de reajuste salarial apresentada pela Embraer de 7,4% e vai entrar com ação de dissídio coletivo contra a empresa para buscar, na Justiça, um reajuste de 10%, redução da jornada para 40h semanais, estabilidade no emprego e o não desconto dos dias parados durante a greve. O caso vai ser protocolado no TRT (Tribunal Regional do Trabalho), em Campinas.
“Apesar de ainda não termos alcançado os 10% de reajuste, esta foi uma das maiores lutas dos metalúrgicos nos últimos anos. É importante deixar claro que a greve não acabou, apenas foi suspensa”, afirma o vice-presidente do sindicato, Herbert Claros da Silva.
“Nós somos contra a atitude do sindicato. Eles em nenhum momento colocaram em votação o 7,4%. Se colocassem, provavelmente seria aceito, faz tempo que a gente não recebe mais que 7%. Pra você uma ter noção, hoje eles perguntaram se éramos contra a greve, contra o aumento de 10%, a favor de descontar os dias não trabalhados e aumentar o convênio, mas não perguntaram se a gente queria 7,4%”, conta um integrante do grupo que não quis se identificar.
“Não nos sentimos coagidos nem pelo sindicato, nem pela empresa, o grupo foi criado porque fomos impedidos de entrar na empresa e de votar. O sindicato até fez um bom trabalho conseguindo voltar atrás o aumento do convenio e também os 7,4. Mas se perderam na semana passada nessa questão de não fazer assembleia para votar o reajuste e greve”, afirma o integrante do grupo dos trabalhadores na rede social.
Embraer
Nesta segunda-feira, a Embraer enviou um comunicado interno para os funcionários informando que não irá descontar dos trabalhadores os dias de greve, por entender que os empregados tiveram cerceado seu direito de escolha.
Em nota publicada no sábado (8), a Embraer já havia se adiantado sobre uma possível decisão na justiça. “No caso de solução pela via judicial, a discussão se inicia no TRT, em Campinas, com possível recurso, por qualquer das partes, junto ao TST (Tribunal Superior do Trabalho), de Brasília. É difícil estimar com precisão a duração de um processo desse tipo, mas o histórico indica a probabilidade de muitos anos até sua efetiva conclusão. Durante esse período, as empresas que concederam antecipação da data-base por liberalidade (5,3%) poderão manter esse índice até a decisão final”, diz a nota.
A empresa também criticou a abordagem do sindicato. “Os fatos que vêm ocorrendo nos portões da fábrica representam um total desrespeito ao direito dos empregados de ir e vir e de entrar para trabalhar, com eventos lastimáveis de ofensas e até agressões físicas. O direito de escolha dos empregados é soberano e precisa ser respeitado por todos. Nesse sentido, a proposta da Fiesp precisa ser apresentada e votada por todos os empregados”.
Segundo a Embraer, a prática de impedir o acesso das pessoas ao local de trabalho tem impactado operações críticas da empresa, como entrega de aviões, atendimento a operadores em AOG, processamento de obrigações fiscais e contábeis, dentre outras. “Os danos potenciais não afetam negativamente apenas a Empresa, mas seus clientes, fornecedores e empregados”.
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