“Hoje está muito mais fácil gostar de jazz”, diz crítico Carlos Calado

É com essa clássica cena do filme eternizado pelas atuações de Frank Sinatra e Grace Kelly que o crítico Carlos Calado inicia sua palestra “Música Para Todos – Como Ouvir Jazz Sem Medo”, em meados de agosto, no Sesc Taubaté. Sua função ali é desmistificar o jazz como gênero musical elitista.

Escrito por: Renan Simão3 min de leitura
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Crítico de jazz fez palestra durante o festival Sesc Jazz & Blues, em Taubaté

Flávio Pereira/Meon

Bing Crosby dá o ritmo. Descreve como é a batida e a melodia da música, apresentando cada instrumento e seu respectivo músico. Ao seu lado, está Louis Armstrong, soprando seu trompete e soltando uma voz incomparável. Depois de descrever todo um gênero musical, Crosby conclui a apresentação da música “Now You Has Jazz” da cena do filme “Alta Sociedade” (1956): “Isso é jazz”.

É com a clássica cena do filme eternizado pelas atuações de Frank Sinatra e Grace Kelly que o crítico Carlos Calado inicia sua palestra “Música Para Todos – Como Ouvir Jazz Sem Medo”, realizada no Sesc Taubaté, durante o festival Sesc Jazz & Blues. Sua função ali é desmistificar o jazz como gênero musical elitista.

“É um mito que afasta muita gente. De que jazz é uma música só para iniciados musicalmente, de que é preciso ler partitura para entender. Acho que o jazz é uma música perfeitamente assimilável por qualquer um”, afirma Calado.

Quem ouve essas palavras ditas de forma simples, pode não perceber que esse jornalista de 58 anos tem quase quatro décadas de vida e trabalho dedicados ao jazz. Em 1974, viu seu primeiro show de jazz, Miles Davis, em São Paulo.

A partir dessa experiência no “auge daquela fase eletrificada” de Davis, Calado não parou de ouvir jazz e blues. Estava presente e escreveu sobre shows de lendas como Dizzy Gillespie, Stan Getz, Hermeto Pascoal, Etta James, Astor Piazzolla, Quincy Jones, B. B. King, Cassandra Wilson, e tantos outros.

Para o crítico que já trabalhou para a Folha de S. Paulo e Valor Econômico, existem alguns estilos de jazz mais contemporâneos e alinhados à música erudita que contribuem para manter o gênero a certa distância do gosto popular, mas “nenhum desses motivos te impede de ouvir e curtir a música desde que você seja curioso”.

Internet
“Quando era jovem, não tinha uma biblioteca em casa, nem uma boa discoteca, mas na minha época o rádio era mais diversificado do que é hoje. Boa parte da minha iniciação no jazz vem de um programa semanal chamado ‘Noites do Jazz'”, conta.

Hoje o rádio é muito pobre, segundo Calado, e obriga as pessoas a procurarem outras plataformas para escutar, quase sempre a internet é a escolhida.

Além do imenso acervo musical e histórico que a web fornece gratuitamente, o especialista afirma que hoje temos muito mais livros, músicos e festivais de jazz no Brasil do que tínhamos há 20 anos.

Perguntando sobre como o gosto popular pode se aproximar do jazz, lembro do verso de Gilberto Gil na música “Rep”, do álbum “O Sol de Oslo” (1998), que faz alusão ao tema: “O povo sabe o que quer / mas o povo também quer o que não sabe”.

“É isso mesmo”, concorda Calado. “As pessoas são curiosas mesmo. Se existisse só o rádio, a humanidade só ouviria coisas muito simples, com muita repetição. E hoje, com a internet, se você for curioso, ficou muito fácil gostar de jazz”, diz.

Para finalizar a conversa Carlos Calado diz por que gosta do jazz.

“Tenho mil razões para gostar de jazz, mas posso dizer que gosto por causa da grande variedade de estilos que o jazz tem, que vai se transformando através dos tempos. É isso o que faz uma grande arte. E o jazz tem isso de sobra”.

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