Igreja quer ideologia de gênero fora dos Planos de Educação das cidades
Assunto gera polêmica entre comunidade católica e movimento gay da região


Dom Raymundo Damasceno, cardeal e arcebispo de Aparecida
Divulgação
O PME (Plano Municipal de Educação), que deve ser aprovado pelos municípios até o dia 24 de junho, tem um item em especial que preocupa religiosos e gera polêmica entre a igreja e a comunidade gay: a ideologia de gênero.
Pela proposta do novo plano, passaria a ser aceita e utilizada pela rede pública e particular de educação, a ideologia de gênero, que afirma que ninguém nasce homem ou mulher, mas deve construir sua própria identidade, isto é, o seu gênero, ao longo da vida.
Uma vez aceita, a ideologia mudaria não somente o relacionamento entre a instituição e as crianças ou jovens com diferentes opções sexuais, mas ensinaria este conceito nas aulas, como parte do conteúdo ao longo dos anos.
Polêmico e delicado, o assunto divide opiniões, tanto que nesta quinta-feira (11), a Câmara de Aparecida realizou uma audiência pública para ouvir o que cada setor da sociedade pensa sobre o assunto.
Na ocasião, o cardeal brasileiro e arcebispo de Aparecida, dom Raymundo Damasceno, defendeu a posição da Igreja Católica e foi contra a mudança e a implantação da ideologia de gênero no PME.
Valores
Em entrevista exclusiva ao Meon, o cardeal afirma que o tema fere os valores da família e que não é um tema pertinente para as salas de aula.
“O governo tentou aprovar já no Plano Nacional de Educação essa mudança e não conseguiu, e agora está tentando por meio dos municípios introduzir esta questão da identidade de gênero. Claro que está excluída por nossa parte, qualquer descriminação. Não se descrimina por etnia, raça, muito menos diversidade sexual, mas não podemos ignorar o fato de que se nasce, sim, homem ou mulher, e isso não muda”, afirma dom Damasceno.
Para o arcebispo, a questão de escolha de gênero é um tema que deve ser de responsabilidade da família. “Nos preocupa essa ideologia de que cada indivíduo escolha ou aprenda na escola que se escolhe o gênero, baseado em experiências sexuais ou afetivas. E que meninos e meninas sejam tratados de forma idêntica, como se fossem iguais biológica e psicologicamente. Estamos falando de algo muito complexo, de referência a valores antropológicos, religiosos e que vai contra os valores que a família cultiva. Essa discussão não diz respeito ao Estado. É um aspecto, um direito da família”, detalha.
Além de participar das audiências, Dom Damasceno está encaminhando carta a todos os vereadores e prefeitos da sua Arquidiocese de Aparecida, pedindo que reflitam sobre o tema. “Me disponibilizo, inclusive, para conversar com os vereadores. Estou indo em audiências públicas, mas acredito que, na região, este item não vai entrar nos planos de educação”, conclui.
Inclusão
De outro lado, o movimento LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros) defende a inclusão do tema no PME e acredita que esta é uma forma de diminuir o preconceito, ensinando na escola que cada pessoa tem o direito de optar pelo seu gênero sexual.
Para Kika Medina, do Fórum Paulista de Travestis e Transexuais, a aceitação pelo plano é uma forma de reconhecimento ao direito de escolha e poderia evitar problemas recorrentes, como evasão escolar de travestis e transexuais e atos deliberados de segregação, que ela diz ainda acontecerem no ambiente escolar.
“Quando você ensina sobre a ideologia de gênero na escola, você esclarece, você respeita mais a diversidade e o jovem se sente acolhido na sala de aula e não vai deixar de estudar. Muitos mais de nós poderão estudar, chegar à faculdade”, defende Kika.
A ativista acredita que ensinar sobre a escolha de gênero pode, sim, ser feito na escola. “A igreja diz que é um papel da família, mas a família faz tempo que terceirizou seus filhos para a escola. Eu também acho que a educação vem de berço, mas não é bem assim na prática”, argumenta e conclui.
“Isso (ideologia de gênero) não fere nada. O que fere valores é jogar criança em caçamba de lixo, nas casas de outros. Isso aí é um problema de valores muito maior que a sexualidade. A Igreja tem que se preocupar menos com o que o povo faz na cama, e ajudar mais quem está sozinho nas ruas, nas drogas”, completa Kika.
O plano
O Plano Nacional de Educação foi aprovado pela Lei 13.005/2014 em junho de 2014 e estabelece 20 metas e diretrizes para a educação no Brasil nos próximos 10 anos. Com mais de 250 estratégias, parte do trabalho agora está nas mãos dos estados e das prefeituras, que têm que compor seus planos particulares de educação para a próxima década.
Os planos estaduais e municipais devem conter diretrizes e metas a serem alcançadas até 2024, mesma vigência do plano nacional. É importante ressaltar que o apoio suplementar financeiro e técnico que o MEC (Ministério da Educação) oferece aos municípios e estados levará os planos em consideração. Quem concluir um bom plano municipal, alinhado ao nacional, terá o acesso aos recursos otimizados.
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