Joseense de 21 anos põe o pé na estrada em aventura até Litoral Norte
Em seis dias de viagem a pé, ele e o amigo pegaram carona, fizeram amizade com locais, enfrentaram frio e calor e dormiram sob a luz das estrelas

Não são poucos os livros e filmes sobre “road trips”, aquelas histórias em que o personagem embarca numa viagem em busca de aventura e autoconhecimento. Como chegar é o de menos, carro, ônibus ou carona de caminhão, o negócio é percurso. É o caminho que traz dificuldades, beleza, pessoas, emoções e reflexões.
Em São José dos Campos, o estudante de comunicação Guilherme Oliveira, de 21 anos, não ficou só no romance. Botou, literalmente, o pé na estrada e viajou com o amigo Pedro, estudante de filosofia de 21 anos, até o Litoral Norte. Foram seis dias de caminhada até chegar a Ubatuba, a partir da Rodoviária Nova de São José até Paraibuna, onde passaram a primeira noite.
“Não medimos o tempo durante a viagem. Isso já era intencional, a gente não queria ficar medindo o tempo porque acho que essa alógica de tempo que a gente tem no dia a dia, de fazer tudo com pressa, fazer o tempo render, é uma preocupação que a gente não queria ter”, explicou Guilherme. O destino da dupla foi a Praia do Cedro, um dos lugares preferidos de Guilherme.
Sem mapa, sem acesso à internet e nem trajeto planejado, os dois andaram pelo caminho que parecia mais interessante.
Encontros
“Foi uma descoberta se enfiar no meio dos matos, às vezes, a gente perguntava o caminho para uma pessoa ou outra, para quem conhecia a região. Ao longo do caminho, vi muita coisa, muitos bichos. Teve uma noite que a gente foi visitado por macaquinhos. Numa noite que a gente passou na praia, viu um tipo de vagalume muito grande, que nunca tinha visto antes, e fez amizade com algumas pessoas que fomos conhecendo no caminho. “A primeira pessoa que veio conversar com a gente e ofereceu ajuda foi quando a gente estava numa balsa de Paraibuna para Natividade da Serra. Ele ouviu nossa conversa de noite, ficou interessado e ofereceu carona, durante uns 8 quilômetros, na parte de trás da caminhonete dele.”, relatou o ex-aluno do Instituto Alpha Lumen.
Viajar traz muita coisa boa, mas nem tudo são flores, ainda mais a pé. Guilherme também conta alguns perrengues que passaram, principalmente no calorão de dezembro de 2021, quando iniciaram a aventura.
“Depois disso (do trecho na caminhonete), a gente parou num lugar porque estaca bem sol, decidimos descansar. Depois de mais de 20 quilômetros de caminhada, conseguimos outra carona, mas bem rápida, uns 2 quilômetros. No final, o cara deu uma lanterna que mudou o jeito que a gente estava fazendo as coisas, porque estava realmente muito sol, a gente estava ficando muito cansado, estava tendo que parar varias vezes por causa de exaustão, nossa água tinha acabado. Então, ele deu essa lanterna e a gente pensou ‘vamos começar a andar de noite agora’. Mas, precisava achar lugar para ficar até o sol baixar”.
“Chegamos ao Morro da Pedra, em Natividade da Serra. Lá, a gente achou um bar, começou a conversar com o pessoal. Tinha um cara chamado Fernando, que trabalha com madeireira. Acho que foi uma conversa que me impactou muito, porque a gente conversou sobre trabalho, qualidade de vida, como esses conceitos são diferentes dependendo do lugar em que você está. Foi uma conversa muito boa e, no final, ele deu um dinheiro para a gente comprar água e comida para continuar a viagem”.
“A gente andou mais um tempo, ficou no meio de um bosque, descasando até escurecer para continuar a caminhada. Esse dia foi o que a gente mais andou, até meia noite, tinha começado às 7 da manhã. Devem ter sido uns 50 ou 60 quilômetros, a gente andou até não aguentar mais, caiu em algum lugar e abriu a barraca com o resto das nossas forças”, relembrou o universitário que agora mora em São Paulo.
“A outra pessoa que a gente conheceu, que foi muito interessante, foi uma cantora de ópera da Transilvânia, no hostel em Ubatuba. Nos últimos dias, a gente ficou hospedado no hostel dela. A gente desenvolveu uma amizade interessante, é uma pessoa muito inteligente, viajou o mundo todo, conhece muito de arte. Ela nunca tinha comido lasanha, então a gente preparou uma lasanha para ela, ela gostou, foi bem divertido”.
Perrengues
“Na maior parte dos dias, a gente dormia numas barracas, em qualquer lugar que a gente achava um pouco mais longe da estrada. Numa noite, o grupo de macaquinhos ficou mexendo com a gente. Passamos uma noite nos fundos de uma pizzaria em Natividade da Serra e uma noite ao ar livre na Praia do Cedro, porque não pode acampar em praia, então a gente só ficou deitadinho na areia. Passamos umas duas noites no hostel da cantora de ópera”.
“A gente não caminhava uma distância fixa, não tinha meta, só ia andando pelos caminhos que a gente achava legal. Tinha dia que a gente ficava parado para aproveitar o lugar. Teve um dia que meu pé virou uma bolha, eu não conseguia caminhar, daí, comecei a passar muito mal, acho que pela insolação, mas ter passado o dia dentro da represa ajudou muito, algumas horas depois não estava mais me sentindo mal pela insolação, meu pé desinchou e agente conseguiu continuar caminhando no outro dia”.
Ainda sobre as maiores dificuldades, o jovem conta que, enganado pelo calorão dos dias em São José, esqueceu-se de levar blusa de frio e cobertor. “Durante a noite, fazia 10ºC, passei muito, muito frio e descansei muito mal. Como eu não tinha tênis apropriado, nesse dia que a gente andou muito mais machuquei o pé. De noite, quando tirei o tênis, achei que tinha sido picado por algum inseto porque estava muito ‘zuado’, mesmo, mas como não tinha o que fazer, só esperei até o outro dia, quando andamos mais 8 quilômetros até chegar na cidade. Por causa da caminhada, fiquei passando mal no outro dia, o que me ajudou foi ficar na agua gelada da represa”.
Por aí
O estudante contou que motivação para fazer a mochila e botar o pé na estrada não surgiu numa fase ótima, foi o contrário disso. “Eu estava passando por um momento meio difícil emocionalmente, tive o privilegio de pedir demissão do trabalho para cuidar da minha cabeça, e eu queria muito viajar porque fazia muito tempo que não viajava por causa de trabalho, pandemia, só que não tinha nenhum dinheiro. Como sempre tive essa vontade de sair andando por aí, só chamei um amigo que tinha ideia muito parecida. Em menos de uma semana, a gente teve a ideia e começou a caminhada”, contou.
“Nunca curti muito rotas turísticas, gosto de conversar com o pessoal que mora nas regiões, mesmo, para entender a realidade dali. Quero fazer isso muito mais vezes, principalmente pela América Latina, e acho que o grande sonho que tenho atualmente é fazer isso pelo Atacama, quero ir e passar um tempo lá”, concluiu, determinado.
Confira fotos da viagem:




















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