Luva que se ‘comunica’ é desenvolvida em São José dos Campos

Projeto elaborado por alunos transforma sinais em movimentos

Escrito por: Moisés Rosa6 min de leitura
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Aluno demonstra protótipo da luva

Pedro Ivo Prates/Meon

Ter a sensibilidade utilizando uma prótese. Parece algo pouco provável, mas especialistas do Núcleo de Neuroengenharia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) de São José dos Campos estão estudando e desenvolvendo um projeto que pretende transformar sinais em movimentos.

Envolvidos diretamente no projeto, o professor Jean Faber e o aluno Mateus Franco estão há um ano elaborando a proposta, que está em sua primeira fase. Eles criaram uma luva que capta sinais e transmite para outro dispositivo com sensores que recebe a vibração.
A proposta envolve basicamente uma luva e sensores que associam um gesto a um estímulo tátil. Funciona assim: a luva possui vários sensores e é conectada a um outro dispositivo que recebe a captura dos movimentos. Tudo isso é transmitido pelo sistema wireless (rede sem fio).

Os sensores “traduzem” esses sinais (11 códigos baseados em gestos de Libras, língua brasileira de sinais) e a pessoa transforma em movimento instintivamente. Os sinais são basicamente para os comandos para trás, para frente, para os lados, para o centro e para baixo. “Cada movimento é um símbolo. A luva traduz o gesto e o sistema traduz o símbolo em uma vibração. Essa é a primeira parte do projeto que consiste em criar dispositivo que gere padrão de comunicação indireto que estimula os mo-vimentos”, explica o professor Jean Faber.

De acordo com Faber, o projeto está avançado e inicialmente já pode ser uti-lizado para “guiar” pessoas que não con¬seguem falar ou se movimentar. “Com o código, conseguimos guiar para onde a pessoa irá. Tudo isso a distância”.

Mateus Franco, aluno que está participando da pesquisa, conta que a utilização do dispositivo será muito fácil. Com um “alfabeto”, os movimentos serão efetuados. “A pessoa coloca no corpo um colete, bracelete e uma faixa na perna. É bem intuitivo. Se sinalizo para a esquerda, os sensores do centro e da esquerda vibram. Estamos refinando o ‘alfabeto’, com 11 códigos/símbolos”.

Hoje, o projeto permite a captura dos movimentos nos dedos e de amplitude. Isso é possível com a ajuda de dois dispositivos: o flexômetro (que mede a diferença na angulação) e do acelerômetro (sensor que mede a relação da altura). Com isso, são captados os movimentos através dos sensores. “Transforma a informação em vibração (códigos). Atualmente, o projeto conta com seis motores que fazem o trabalho de vibração”, diz o professor.

Esses motores são similares ao já utilizados em celulares, aqueles de vibracall, que recebem energia da bateria para o acionamento do motor de vibração. Ao final do projeto, serão 30 motores distribuídos entre a luva, bracelete e colete.

Expansão
Nos próximos três meses, o Núcleo de Neuroengenharia projeta a finalização da impressão de uma prótese escolhida para os testes. A intenção é de testar os dispositivos em uma prótese e analisar a apropriação do objeto. Para esta etapa, que consiste na montagem de um braço, professor e aluno optaram pela confecção do braço em uma impressora 3D, no laboratório do Núcleo.

“Optamos por um braço robótico que é bem completo e complexo, bem similar à movimentação real. Cada uma das articulações será montada. É um braço inteiro”.

Com o braço robótico, será possível fazer a aplicação dos testes. “A finalidade é de criar um dispositivo que origina códigos e transforma em estímulo vibratório. Assim, cria um padrão de comunicação, com movimento e sensibilidade tátil. O projeto é fazer uma prospecção da prótese. Conforme a prótese movimenta, eu sinto o movimento por meio dos motores, com estímulo direto”, destaca Faber.

O que queremos é que a pessoa incorpore a prática tátil e crie o padrão

Mateus Franco Aluno da Unifesp SJC

O aluno de Engenharia da Computação explica que grande parte do índice de rejeição de quem utiliza uma prótese é por falta da sensibilidade. “Esse é um dos motivos pela falta da apropriação. A pessoa fica sem a noção de amplitude e movimento. O que queremos é que a pessoa incorpore a prática tátil e crie o padrão”, diz.

O professor cita como exemplo a utilização de uma guitarra, “É como se fossemos tocar uma guitarra. A pessoa já tem em sua mente o que precisa fazer e quais os pontos. Ela já tem guardado um mapa neural da guitarra e é isso que que- remos estimular com a luva na prótese. Queremos que a pessoa tenha sensibilidade da prótese”.

No laboratório, uma impressora já está produzindo todos os detalhes do braço robótico. Com esta etapa, os envolvidos no projeto contam que será provável a utilização da luva em outras ações, como em operações de grupo antibomba, controlar câmeras e até mesmo em cirurgias. “Vamos poder controlar um braço, robôs e outros objetos, tudo isso a distância, com estímulo tátil, e controlando a pressão que será empregada”, afirma Jean Faber. Com esta etapa, daqui a três meses, o Núcleo deve iniciar o teste. “Vamos testar em pessoas que perderam os movimentos dos membros superiores. Iremos analisar os testes e avaliar a apropriação”, acrescenta o orientador.

Aparatos
Com o projeto em andamento, o coordenador do Núcleo diz que a montagem será reestruturada. Hoje, fios, baterias e fitas de velcro dividem o espaço na hora dos testes. A proposta é incorporar uma nova vestimenta. Um novo colete será adquirido e a estrutura será remanejada. “Ainda está um pouco confusa e embolada toda essa estrutura, mas iremos refinar e deixar ainda mais usável, para que as pessoas possam utilizar”.

Verba
O projeto que teve verba de R$ 5 mil, destinada pelo CNPQ para a compra dos aparelhos, agora se expande e outro aporte deve ser liberado pelo conselho, totalizando R$ 45 mil. Com a verba extra, será possível comprar outros equipamentos. Com os testes realizados e a finalização dos dispositivos até o fim do ano, os estudiosos também querem verificar outra forma de captação dos sinais para a aplicação do sistema. “Vamos verificar a captação dos sinais nos músculos. Serão verificados os sinais elétricos nos músculos e assim vamos identificar o tipo de movimento. Como cada movimento corresponde a determinado estímulo. A ideia é entregar os sensores e ter uma resposta de interpretação mais sofisticada e sem falhas”, completa o professor. Veja outras matérias da revista Metrópole Magazine aqui.

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