Ansiedade

Quantas vezes as preocupações se antecipam ao presente?

Escrito por: Dr. Wilfredo Flinck3 min de leitura
Formularium
Formularium

Quantos de nós já ouvimos que o sabor de viver está nos bons momentos que experimentamos?

E o que são esses momentos?

São os encontros com a família, o trabalho, a conversa com os amigos, uma viagem, uma refeição, uma compra, um lugar que desejávamos conhecer. São pequenos acontecimentos que, reunidos, dão forma àquilo que chamamos de vida.

Mas, em meio a tudo isso, quantas vezes as preocupações se antecipam ao presente?

Pensamentos que ainda não aconteceram, problemas que talvez nem venham a acontecer, possibilidades que a mente transforma em ameaças. E, pouco a pouco, surgem as inquietações, as ruminações, a insônia, os medos e as inseguranças.

Em que momento perdemos a sensação de serenidade, de calma e de alguma confiança diante daquilo que a vida nos apresenta?

A ansiedade nem sempre chega anunciando sua presença. Muitas vezes, começa discretamente. O corpo passa a falar antes mesmo que consigamos compreender o que está acontecendo.

O coração acelera. Surge a sudorese, a cefaleia, a sensação de frio, o desconforto no estômago, o formigamento nas mãos. Há uma apreensão que parece não ter hora para terminar, como se estivéssemos permanentemente em estado de vigilância.

O sono se interrompe. A madrugada se torna um território de pensamentos. A mente não desliga.

E aquilo que inicialmente parecia apenas uma preocupação começa a ganhar força. Ocupa espaço, modifica o humor, interfere nas relações e altera a maneira como vivemos o cotidiano.

A irritabilidade aparece. A impaciência aumenta. A tolerância diminui.

O trabalho, que antes fazia parte da rotina, passa a ser acompanhado por uma sensação constante de urgência. A agenda se transforma em fonte de apreensão. Os compromissos parecem se multiplicar. Até mesmo aquilo que antes nos proporcionava prazer pode começar a exigir um esforço que já não temos.

Em casa, a presença física permanece, mas a mente está distante, ocupada por aquilo que ainda não aconteceu ou por aquilo que talvez nunca aconteça.

A ansiedade tem essa capacidade silenciosa de nos retirar do presente.

Estamos onde estamos, mas a mente já está em outro lugar.

E, quando esse estado de vigilância se prolonga, surge o desgaste. Primeiro talvez seja apenas cansaço. Depois, fadiga psíquica. Até que percebemos que já não reagimos às coisas da mesma maneira.

A vida continua acontecendo, mas alguma coisa em nós parece ter perdido a serenidade necessária para vivê-la.

Talvez uma das maiores dificuldades da ansiedade esteja justamente aí: ela não nos impede apenas de enfrentar o que nos preocupa; muitas vezes, impede-nos de experimentar plenamente aquilo que está acontecendo agora.

E talvez seja por isso que cuidar da ansiedade não seja apenas tratar um conjunto de sintomas.

É, de certa maneira, tentar recuperar o direito de estar presente na própria vida.

Dr. Wilfredo Flinck
Dr. Wilfredo Flinck

Psiquiatria

Wilfredo Finck Jr. é médico e apreciador da natureza. Na escrita e na pintura encontra formas de refletir sobre a vida, os sentimentos, a passagem do tempo e os caminhos que compõem a experiência humana.

Os artigos publicados nesta seção são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não refletem, necessariamente, a opinião do Portal Meon, da Revista Metrópole Magazine ou do Grupo Meon de Comunicação

Tags:ansiedadeblogscolunaswilfredo flinckPublicado em:

Posts Relacionados