Ansiedade
Quantas vezes as preocupações se antecipam ao presente?

Quantos de nós já ouvimos que o sabor de viver está nos bons momentos que experimentamos?
E o que são esses momentos?
São os encontros com a família, o trabalho, a conversa com os amigos, uma viagem, uma refeição, uma compra, um lugar que desejávamos conhecer. São pequenos acontecimentos que, reunidos, dão forma àquilo que chamamos de vida.
Mas, em meio a tudo isso, quantas vezes as preocupações se antecipam ao presente?
Pensamentos que ainda não aconteceram, problemas que talvez nem venham a acontecer, possibilidades que a mente transforma em ameaças. E, pouco a pouco, surgem as inquietações, as ruminações, a insônia, os medos e as inseguranças.
Em que momento perdemos a sensação de serenidade, de calma e de alguma confiança diante daquilo que a vida nos apresenta?
A ansiedade nem sempre chega anunciando sua presença. Muitas vezes, começa discretamente. O corpo passa a falar antes mesmo que consigamos compreender o que está acontecendo.
O coração acelera. Surge a sudorese, a cefaleia, a sensação de frio, o desconforto no estômago, o formigamento nas mãos. Há uma apreensão que parece não ter hora para terminar, como se estivéssemos permanentemente em estado de vigilância.
O sono se interrompe. A madrugada se torna um território de pensamentos. A mente não desliga.
E aquilo que inicialmente parecia apenas uma preocupação começa a ganhar força. Ocupa espaço, modifica o humor, interfere nas relações e altera a maneira como vivemos o cotidiano.
A irritabilidade aparece. A impaciência aumenta. A tolerância diminui.
O trabalho, que antes fazia parte da rotina, passa a ser acompanhado por uma sensação constante de urgência. A agenda se transforma em fonte de apreensão. Os compromissos parecem se multiplicar. Até mesmo aquilo que antes nos proporcionava prazer pode começar a exigir um esforço que já não temos.
Em casa, a presença física permanece, mas a mente está distante, ocupada por aquilo que ainda não aconteceu ou por aquilo que talvez nunca aconteça.
A ansiedade tem essa capacidade silenciosa de nos retirar do presente.
Estamos onde estamos, mas a mente já está em outro lugar.
E, quando esse estado de vigilância se prolonga, surge o desgaste. Primeiro talvez seja apenas cansaço. Depois, fadiga psíquica. Até que percebemos que já não reagimos às coisas da mesma maneira.
A vida continua acontecendo, mas alguma coisa em nós parece ter perdido a serenidade necessária para vivê-la.
Talvez uma das maiores dificuldades da ansiedade esteja justamente aí: ela não nos impede apenas de enfrentar o que nos preocupa; muitas vezes, impede-nos de experimentar plenamente aquilo que está acontecendo agora.
E talvez seja por isso que cuidar da ansiedade não seja apenas tratar um conjunto de sintomas.
É, de certa maneira, tentar recuperar o direito de estar presente na própria vida.

Psiquiatria
Wilfredo Finck Jr. é médico e apreciador da natureza. Na escrita e na pintura encontra formas de refletir sobre a vida, os sentimentos, a passagem do tempo e os caminhos que compõem a experiência humana.
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