Antes era melhor?

Quando criança, ouvia um programa de rádio que se chamava “Antes era melhor?”. Assim mesmo, com interrogação, como quem não tem muita certeza do que afirma. Um programa só de músicas antigas, que eu gravava em jurássicas fitas cassete TDK60.

Escrito por: Meon Redação2 min de leitura
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Quando criança, ouvia um programa de rádio que se chamava “Antes era melhor?”. Assim mesmo, com interrogação, como quem não tem muita certeza do que afirma. Um programa só de músicas antigas, que eu gravava em jurássicas fitas cassete TDK60.

Durante os anos 80, todo mundo fazia festa dos anos 60 (bom mesmo era a Jovem Guarda). Na década passada, a moda eram os bailes dos anos 80 (época boa aquela do rock nacional). A eterna volta ao passado em busca da felicidade perdida.

No filme “Meia noite em Paris”, de Woody Allen, o pernóstico Paul diz que nostalgia é a negação de uma vida infeliz ante à incapacidade de encarar o presente. É a síndrome da Era de Ouro, a crença exagerada de que as coisas eram melhores no passado do que agora.

Estamos sempre venerando algo que não mais existe, um tempo perdido.

Mas a nostalgia é uma reconstrução idealizada do passado, embaçada pela insidiosa poeira dos anos e editada pelos atalhos traiçoeiros da memória. Tentamos encapsular o tempo a partir de uma visão romântica que ardilosamente ignora o lado feio do que já passou.

Antes era melhor? Não sei. Antigamente eu tinha apenas as fitas cassete, mas que eu ouvia até gastar. Agora tenho 237 terabytes de arquivos de mp3 de todas as bandas do mundo, mas que raramente ouço. Ficou tão fácil se conectar com o mundo que se tornou difícil se conectar com a pessoa ao lado.

Tenho 144 canais de TV a cabo e não consigo achar nada que dê cabo do meu tédio existencial. Talvez porque quem tem tudo no fundo não tenha nada, e o fastio do excesso faça a abundância parecer escassez. Então antes era melhor? Não, talvez seja apenas ilusão. Morro de saudades do passado, mas é preciso admitir que muita coisa melhorou de lá para cá. Talvez até estejamos vivendo uma Era de Ouro que só descobriremos, nostálgicos, daqui a duas décadas.

Adquiri muitas certezas inquebrantáveis junto com meus cabelos grisalhos e meus pés de galinha, mas uma dúvida até hoje me atormenta: Afinal de contas, antes era melhor?

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