Mobilidade no presente, passado e futuro: onde estamos?
Eu devia estar ainda no começo de minha adolescência quando, entre uma prosa e outra, meu cunhado (10 anos mais velho) disse assim: “os carros deveriam ser bens públicos em vez de privados. Deveriam ficar pelas ruas e, alternadamente, serem usados pela população”. Embora o muro de Berlim ainda estivesse em pé e a União […]

Eu devia estar ainda no começo de minha adolescência quando, entre uma prosa e outra, meu cunhado (10 anos mais velho) disse assim: “os carros deveriam ser bens públicos em vez de privados. Deveriam ficar pelas ruas e, alternadamente, serem usados pela população”. Embora o muro de Berlim ainda estivesse em pé e a União Soviética existisse, meu cunhado não era comunista e nem socialista. Inclusive, ele tinha um Fusca – ícone mundial da indústria automobilística, tendo sido o carro mais vendido neste planeta.
Portanto, sabe-se lá o que, na época, o motivou a dizer aquilo. Nem mesmo a sua leve inclinação, quando jovem, a ideologias mais esquerdistas chegariam a tanto. E, em termos de ruas, motores, buzinas e rush, o Brasil ainda estava um tanto longe, nos anos 80, da realidade americana ou da europa ocidental já marcadas pela popularização do acesso ao automóvel e, lógico, das consequências drásticas que aquilo traria sobretudo ao meio ambiente. Resumo: nosso cenário verde e amarelo não teria sido assim tão inspirador àquela ideia meio maluca do meu cunhado – aliás, um eterno entusiasta dos avanços tecnológicos, bem como do interesse por temas ligados à produção e consumo de energia.
Mas, tudo isso são divagações do agora porque eu, muito nova e sem sequer ter noção de que me tornaria uma ciclista convicta e uma entusiasta da mobilidade mais democrática, ao ouvir aquilo não especulei nada. Porém, a frase efetivamente me marcou. E me marcou tanto que a revisito por vezes e a coluna de hoje, por exemplo, brinca com ela a fim de nos lançar para algumas projeções entre passado, presente e futuro em termos de deslocamentos, energia, espaço urbano e, lógico, compartilhamento (o tal sharing que vem se popularizando). Estaria, sem saber, meu cunhado profetizando algo e já me influenciando? Creio que sim…

De ideia maluca nos anos 1980, carros compartilhados viraram realidade contemporânea
Divulgação
Dentre as ditas revoluções no transporte urbano – focadas na melhoria da qualidade de vida nas cidades – o compartilhamento de veículos está entre elas. Sejam estes os do transporte coletivo ou, justamente, os carros. E, soma-se a isso, o próprio compartilhamento das bicicletas – finalmente, agora já mais conhecido no Brasil, embora mais presente nas capitais do país. As diferentes modalidades de sharing podem levar a um uso mais eficiente do espaço urbano à medida que reduzem os congestionamentos, oferecendo, consequentemente, melhores condições para a caminhada e as pedaladas humanizando a paisagem. E, por fim, contribuem para a redução do consumo de energia e das emissões poluentes (no caso dos motores à combustão).
Não à toa, em se tratando de energia, os países que já adotaram o carsharing, as frotas dos compartilhados são compostas, em sua maioria, por veículos elétricos ou híbridos e seus próprios governos vêm fornecendo incentivos e subsídios nesse sentido. Vancouver, Canadá, por exemplo, é o maior mercado de carsharing no mundo. No Brasil, tal revolução ainda engatinha (na capital São Paulo um sistema foi inaugurado há cerca de 2 meses) e isso é tema de muitas boas prosas que tenho com meu cunhado, passados 30 anos daquela curiosa frase proferida por ele – tudo bem… diferentemente do que ele profetizou, os carros privados ainda estão nas ruas (e aos montes, aliás!) e os compartilhados não são públicos, mas o que importa é que a ideia de um mesmo automóvel servindo a diferentes desconhecidos virou sim realidade.
Agora, em uma recentíssima prosa, meu cunhado, morador de São José e vivenciador da realidade de inúmeros países ricos ou pobres e de olhar atento para as questões de mobilidade, lançou o seguinte: “Quando eu fizer 60 anos, não quero mais ter carro. Chega!” Hoje, ele está com 52 anos. É… daqui a oito anos, bikes compartilhadas até acredito que ele vai encontrar perto da casa dele, entretanto, o carsharing, eu prefiro não apostar.
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