O que é a velhice?
Caro leitor, Começamos pelo começo: o que é a velhice? Numa existência fadada ao declínio, não há nenhuma surpresa ao nos olharmos no espelho e constatarmos o óbvio. Uma ruga, depois muitas e uma aparência envelhecida. Gosto de uma analogia com uma bexiga de borracha que, quando bem cheia, cortamos o cordão umbilical e ela […]


Caro leitor,
Começamos pelo começo: o que é a velhice? Numa existência fadada ao declínio, não há nenhuma surpresa ao nos olharmos no espelho e constatarmos o óbvio. Uma ruga, depois muitas e uma aparência envelhecida. Gosto de uma analogia com uma bexiga de borracha que, quando bem cheia, cortamos o cordão umbilical e ela sai voando, rodopiando em sua infância, indo pelos caminhos que escolheu e que sabe que um dia vai cair. Em todos os momentos, pode mudar seu rumo, em busca de realização pessoal, sentido de vida. Vê a energia cada vez menor, voos cada vez mais discretos. Como encontrar satisfação? A lembrança dos voos da juventude e o prazer de se adaptar às transformações impostas pela idade dão o tom a essa questão. A doença, a perda da independência e da autonomia, vai acabar ocorrendo, em função de fatores genéticos, hábitos de vida e sorte. Conseguimos apressar ou retardar esse processo, mas não evitá-lo. Vai daí que, “caminhante, o que importa é o caminho”, faça sua vida valer a pena todos os dias, pois a morte é certa.
Buscar um sentido da vida (um único sentido, entendamo-nos bem) é uma falácia. Pois o sentido se altera – e tem que se alterar – conforme as circunstâncias. Na infância, o momento, na juventude, a esperança, na vida adulta, a realização e na velhice, prazeres abstratos: a reminiscência, o legado, o compartilhamento. Tudo isso para terminarmos nossos dias um pouco menos estúpidos do que na fase da arrogância, dos excessos, da onipotência.
Porém, passar por essas fases e completá-las é uma tarefa impossível. O mais comum é sempre sobrar no jovem algo de criança, no adulto, algo do jovem e por aí vai, de maneira que o idoso abarca uma mistureba de fases e de sentidos da vida. E é desejável que assim seja, que as memórias e as experiências acumuladas enriqueçam nossa existência até o último dia.
Medo de morrer? Não, medo de viver morto. Medo de não saber quem sou, de parar de pensar. De, sabendo quem sou e o que quero, não conseguir achar caminhos que me levem aonde quero. Para isso, é necessário querer, ou seja, ter acesso aos desejos e ânimo para correr atrás deles. Num artigo de 2012 (Arch Gen Psychiatry 2012 May; 69:499) Boyle e cols nos mostram que ter sempre um sentido de viver mantém uma boa cognição, mesmo que o cérebro tenha um aspecto neuropatológico de doença de Alzheimer. Noutras palavras, o Alzheimer apareceria, não fosse o ânimo, a atividade, os vínculos afetivos, o estímulo para se cuidar etc. Claro, isso não protege ninguém, mas como diz a música, “é preciso saber viver” e auferir as vantagens dessa atividade. Com um objetivo, seja um amor, uma missão, um papel na coletividade etc., ganho mais interesse em parar de fumar, ir ao médico, fazer atividade física, adquirir bons hábitos, conseguindo, por fim, um bom envelhecimento.
Então, caro leitor, aproveite o seu dia!
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