Revoluções musicais do século XX: o reinado inglês do rock

Enquanto o rock clássico trilhava seus caminhos tortuosos, reprimidos pela censura nos EUA, a juventude britânica se apropriava de uma nova música que invadia as casas e os clubes de dança por toda a Inglaterra. Esta música, uma fusão de rock clássico, rockabilly, blues e pop, se tornaria, mais tarde, o maior fenômeno de público […]

Escrito por: Meon Redação5 min de leitura
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Enquanto o rock clássico trilhava seus caminhos tortuosos, reprimidos pela censura nos EUA, a juventude britânica se apropriava de uma nova música que invadia as casas e os clubes de dança por toda a Inglaterra. Esta música, uma fusão de rock clássico, rockabilly, blues e pop, se tornaria, mais tarde, o maior fenômeno de público e de crítica da música popular no século 20.

Os Beatles e a Swinging London
Seu primeiro expoente, os Beatles, de Liverpool, abriu caminhos jamais explorados antes. Suas músicas e letras os levaram a direções tão inovadoras que acabaram sendo seguidas por artistas do mundo todo. O espantoso sucesso da banda mudou a relação artista-gravadora e trouxe lucros incomensuráveis para a indústria fonográfica do período.

Os Beatles, no entanto, não seriam os únicos responsáveis por essas transformações, típicas dessa época, mas a união de seu enorme sucesso com as novas tecnologias (que possibilitavam difundir suas mensagens para milhões de pessoas em todo mundo) e a era “swinging london” (subcultura boêmia e psicodélica da capital inglesa) acabaram fazendo com que se tornassem os verdadeiros deuses da época.

Explosão Criativa
Os Beatles nasceram em 1960 e atuavam em bailes da escola de artes, clubes locais e também como banda de apoio para Johnny Gentle. Em agosto de 1960, o empresário Alan Willians arrumou-lhes um contrato para tocar em Hamburgo (Alemanha). Ao retornarem à Inglaterra, em dezembro do mesmo ano, os Beatles tentaram aumentar sua popularidade tocando no Cavern Club, em Liverpool, onde se tornaram a banda mais famosa da casa.

Depois de fazerem suas primeiras gravações como banda de apoio de Tony Sheridan e com a chegada do empresário Brian Epstein, os Beatles finalmente se profissionalizaram. Epstein trouxe inteligência, gosto requintado, organização e dinheiro para o grupo – além de encontrar o interesse do dono da Parlophone, o produtor musical George Martin. A experiência e o talento de Martin provaram ser essenciais para o amadurecimento musical dos Beatles. Em seu segundo single de sucesso, Please, Please Me, o grupo já arrancava o primeiro lugar das paradas inglesas, conseguindo gravar seu primeiro álbum (numa sessão de treze horas), que também atingiria o primeiro lugar durante nas paradas por 30 semanas.

O show dos Beatles basicamente trazia covers de rock clássico, R&B, rockabilly e canções pop. Com o tempo, no entanto, passaram a se dedicar a composições próprias e a letras mais elaboradas, criando uma sonoridade original que fundia todos esses estilos. Com A Hard Day’s Night, o primeiro álbum de composições próprias, os Beatles começavam a mostrar sua verdadeira originalidade, com progressões harmônicas até então inéditas. Quando interromperam as turnês, pelo assédio exagerado de fãs e imprensa, assim como a dificuldade de tocar músicas complexas no palco, os Beatles embarcariam numa expansão criativa extraordinária.

Além de trazerem as músicas oriental e latina para dentro do rock, os Beatles acrescentariam novos instrumentos às gravações, como piano, flauta, cítara, fuzz, trompa e cordas. Vários sons exóticos apareciam – no álbum Revolver, por exemplo, havia ruídos de tosse e John Lennon traria o feedback de guitarra como um novo recurso. As letras também sofriam o mesmo enriquecimento. Assim como o mundo se encontrava em efervescência nos anos 60, os ingleses procuravam julgamentos filosóficos e políticos da sociedade. Era um período de turbulências, de protestos e manifestações de uma juventude que exigia liberdade e explicações para as atrocidades sociais dos adultos.

Bob Dylan foi um dos primeiros símbolos dessa revolução e não só contribuiu para uma consciência mais aberta, mas também mostrou a importância de criar letras engajadas. As letras dos Beatles, depois de um contato mais profundo com Bob Dylan, contrairiam contornos “psicofilosóficos”, ganhando espaços para a introspecção e para a vulnerabilidade existencial. Em 1965, durante um jantar na casa de um amigo, George Harrison, Lennon e suas mulheres engoliram, sem saber, alguns cubos de açúcar com LSD-25 colocados em seus cafés. Assim, as fronteiras para a experimentação dos Beatles não tinham mais limites – e passaram a se expandir para o universo da psicodelia.

No álbum Revolver, de 1966, Harrison traria suas influências filosóficas indianas e críticas ao modelo político britânico. Paul McCartney escreveria letras poéticas sobre a solidão e a alienação. Lennon combinaria fusões musicais intensas e transcendentais. Todos traziam ideias e assinavam canções, marcando o fim da dupla Lennon-McCartney.

Considerado por muitos como o melhor álbum de rock’n’roll de todos os tempos, Sgt. Peppers Lonely Heart Club Band revela o ápice da capacidade criadora da banda. As inovações e tensões musicais se mostravam realmente magníficas. A tecnologia virava instrumento de arte, e não somente um experimentalismo de vanguarda. Nesse período, George Martin já usava nove canais de gravação, ficando muito à frente de seus contemporâneos. A originalidade dos Beatles extravasou também para a arte gráfica dos álbuns – com capas inovadoras e letras impressas no encarte do disco.

A banda que começara em Hamburgo, em 1960, e alcançaria o topo de um sucesso mundial e inédito, chegaria ao seu desmoronamento dez anos depois. Em março de 1970, Paul dá uma entrevista e anuncia o fim da banda – entre brigas e desentendimentos. Os Beatles, contudo, explodiram fronteiras, transcenderam limites. Enquanto a maioria das bandas se esforçava por uma única ideia original, os Beatles criavam inúmeras, a cada canção, dominando uma indústria que triplicava as vendas entre 1960 e 1970.

O marketing e a proliferação dos padrões culturais do ocidente fizeram dos Beatles a força musical mais poderosa de que se tem notícia. Além do mais, eles fariam os críticos e a sociedade levarem o rock a sério, aprovando o gênero como uma forma de arte consistente e respeitável. Do mesmo modo, os jovens da década de 60 – os mesmos que construíram a rebeldia nos anos 50 – criaram um estilo autêntico de vida e inauguraram uma época de muita criatividade e experimentação. Para os anos 60, o sonho não tinha mais limites.

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