Valentina
Por Valentina valia a pena continuar a ser subjugada e esconder seu pesadelo atrás do armário.


Hoje é dia de festa na favela Santa Rita!
Depois de muitos anos sonhando com castelo e filhos, Maria Luiza finalmente tem em seus braços Valentina. Nasceu aos berros e com os olhos bem abertos, dando a impressão de que chegou ao mundo preparada para não perder nenhum detalhe da vida.
Maria Luiza nem sentiu a dor do parto, tamanha era a ansiedade para ver o rostinho de Valentina, e também porque aquela era uma dor muito pequena diante de todas as outras dores da sua vida.
Nasceu e viveu em um barraco de três cômodos na favela e quase nunca saiu de lá. Primeira filha de pai pedreiro e mãe doméstica que trabalhavam fora o dia todo.
Aos sete anos trocou os raros brinquedos que ganhava de alguma entidade filantrópica pelas panelas, vassoura, tanque com muitas roupas sujas e, de brinde, virou mãe de seis irmãos.Por isso nunca estudou e quase não tinha amigos.
O seu dia começava muito cedo, junto com a mãe. As duas preparavam o almoço para os filhos e a marmita do pai. Em seguida era a vez de tirar as crianças maiores da cama para dar o café da manhã e prepará-las para a escola.
Enquanto os irmãos dividiam um bacia de água fria para o banho, Maria Luiza preparava a mamadeira dos menores que logo acordariam berrando de fome.
Para aliviar o peso da obrigação, Maria Luiza imaginava que a sua vida era uma brincadeira de casinha e seus irmãos, suas bonecas.
Quando conseguia um tempo livre das obrigações, gostava de folhear um livro que escondia atrás de um armário para não ser destruído pelos irmãos. Era um livro de princesa mas, como não sabia ler, Maria Luiza criava o seu próprio enredo.
Imaginava que aquele palácio um dia seria seu, onde iria morar com a sua filha e muitos cachorros, gatos, passarinhos, e até uma vaquinha que insistia em comer as flores do seu jardim.
Sempre encontrou tempo para cuidar do palácio e da sua filha, que levava para longas caminhadas entre as flores do jardim imaginário. Brincava com os animais e, quando sobrava tempo, colhia flores e fazia lindos arranjos. Com isso os anos passaram e Maria Luiza nem deu conta.
Certo dia o seu mundo caiu! Ligou para a mãe desesperada e pediu para que ela voltasse mais cedo para casa porque estava morrendo. Se demorasse muito não a encontraria viva.
Sua mãe abriu a porta com um pontapé de tão apavorada. Gritou por Maria Luiza mas não obteve resposta. Correu para o quarto e a encontrou estirada no chão ao lado de uma enorme mancha de sangue.
Pegou a filha no colo e a chacoalhou desesperada e aos prantos. Lentamente Maria Luiza abriu os olhos e fitou a mãe. Apontou para baixo e disse que estava morrendo pela vagina.
Sua mãe ficou alguns minutos imóvel. Não sabia se batia na filha, se chorava ou se ria da situação. Aos poucos foi percebendo que ela era a única culpada pela cena dramática da filha, afinal nem tinha notado que a pequena Maria Luiza crescera e tornara mulher.
Junto com a idade quase adulta, veio o calvário de Maria Luiza. Ganhou corpo e beleza fora do comum em uma mente ainda infantil e sem o menor conhecimento da vida real.
Demorou pouco tempo para os “gaviões” começarem a fazer voos rasantes perto da casa onde morava.
Presa fácil, rapidamente caiu nas garras do chefe do tráfico. Prometeu levá-la, num final de semana, para conhecer o mar. Mas tinha que manter segredo dos seus pais e dos seus irmãos, ninguém poderia saber.
Passou a semana ansiosa e na expectativa de sair da favela para conhecer os lugares dos seus sonhos. Por várias vezes quase se traiu e contou o segredo para seus irmãos, mas se conteve.
No domingo logo cedo disse para a mãe que ia passar o dia na casa de uma amiga que tinha conhecido há pouco tempo. Como sempre foi uma filha ajuizada, a mãe não se importou e permitiu um dia de merecida folga.
Chegou ao lugar combinado e entrou no carro. Para sua surpresa, em vez de descer o morro, seu algoz tomou o sentido contrário e só parou quando chegou a um barraco abandonado perto de uma mata.
Um dia para ser esquecido, mas as lembranças e a dor física não permitiam. Estava destroçada e com os sonhos destruídos. Nunca mais se recuperou.
Para proteger seus irmãos e seus pais da morte, foi subjugada e usada moral e fisicamente. Atrás do mesmo armário que guardava o livro dos seus sonhos, passou a guardar os papelotes dos seus pesadelos.
A garota alegre e sonhadora secou para dar lugar a uma mulher triste e sem brilho, apesar da sua beleza estonteante.
Quando começava a se acostumar com a dor e com o destino que lhe fora reservado, chegou a polícia pacificadora no morro e mexeu com a vida dos moradores e dos bandidos.
Foram meses de muita tensão até que o pesadelo de acordar atrás das grades um dia virou seu sonho de liberdade. Traficantes na cadeia e o seu algoz morto.
Os dias seguintes foram confusos e de muita reflexão para Maria Luiza. De alguma forma a sua vida estava organizada e ela tinha uma rotina definida, mesmo que na dor e no medo. Sentia-se perdida e sem saber qual rumo dar para a vida que ainda lhe restava. Seus irmãos e o tráfico não mais dependiam dela.
A resposta para o seu dilema veio mais rápido do que podia imaginar. Após uma queda de pressão foi até o posto de saúde e saiu de lá sabendo-se grávida de três meses.
Novamente sentiu um misto de alegria e medo. Há muito tempo tinha abandonado seus sonhos de castelo, filhos e jardins floridos. Agora uma parte desse sonho chegou sem pedir licença e fruto de uma dor quase insuportável. Aonde isso iria levá-la?
A barriga crescia junto com a esperança de que Valentina pudesse apagar suas cicatrizes e suas piores lembranças.
Valentina trouxe alegria para o seu coração e era merecedora do melhor dos mundos. Por sua causa, a vida valia a pena e fazia sentido para Maria Luiza.
Por Valentina valia a pena continuar a ser subjugada e esconder seu pesadelo atrás do armário.
Posts Relacionados

Momento importante na vida dos pais: a escolha da primeira escola


