As musas de Miguel de Cervantes: conheça as cidades que inspiraram o autor
A vida errante do escritor se confunde com a do próprio Dom Quixote. Além dos lugares citados no romance, há outras cidades fundamentais na formação de sua obra


Cidade de Belmonte vista a partir do Castelo de Belmonte
Thiago Momm/Estadão
“Quien no vió Sevilla no vió maravilla (Quem não viu Sevilha não viu maravilha)”, diz um ditado local. No século 16, a cidade foi o vivo e faustoso centro comercial do império espanhol, recebendo, no seu porto navegável por rio desde o Atlântico, riquezas de todo o mundo.
Dois homens sugerem a Dom Quixote ir a Sevilha “por ser lugar muito conveniente para aventuras, pois em cada rua e cada esquina se oferecem mais que em qualquer outro”. Quixote não foi, mas Cervantes aproveitou esse cenário repleto de malandros nas novelas O colóquio dos cachorros, A espanhola inglesa e Rinconete e Cortadillo.
O escritor era um insider. Morou em Sevilha boa parte dos seis anos como coletor de impostos na Andaluzia e foi, por não prestar conta da atividade, encarcerado na Prisão Real, onde teria concebido o Quixote. A prisão ficava na Rua de Serpes e hoje dá lugar a outro prédio, de um banco. Há também ali uma estátua de Cervantes e, por Sevilha, 19 painéis cerâmicos de lugares que ele citou nas suas obras.
No Parque de Maria Luísa, um dos espaços temáticos é a Glorieta de Cervantes, octógono à sombra de uma araucária com centenas de desenhos em ladrilhos de Quixote. De resto, os espetaculares Alcázar e catedral, maiores atrações sevilhanas, estavam lá na época do autor. Para ele, a Giralda – a torre árabe-cristã da catedral, 104 metros – era “a gigante”, e de fato quase alcançava as construções mais altas do mundo. Também da época é o cativante Palácio de Las Dueñas, que só abriu ao público em 2016.
ESQUIVIAS
A pequena Esquivias tem poucos atrativos, mas é singular para os aficionados por Cervantes e Dom Quixote. Ali o autor se casou com a nativa Catalina de Palacios, em 1584, e viveu em distintas épocas, tendo o contato mais profundo com um povoado de La Mancha. Para vários especialistas, o fidalgo Dom Alonso Quijada de Salazar, parente de Catalina, inspirou Dom Quixote – que antes de se autoproclamar cavaleiro andante é apresentado como um fidalgo de sobrenome “Quijada, Quesada ou Quejana”.
Cervantes e Catalina moraram na casa de Dom Alonso, hoje Museu de Cervantes, uma ampla casa com partes originais, como uma caverna-bodega, e tour guiado excepcional. O museu tem documentos de outras figuras locais que ecoam no livro, como o bacharel Sansão Carrasco, o licenciado Pedro Pérez, o biscainho e a mulher de Sancho Pança. O nome de diversas ruas do centro é como um quiz para aficionados, com livros e personagens de Cervantes ou pessoas e itens ligados a ele. Em 2015, uma Esquivias fantasiada reproduziu o casamento de Cervantes e Catalina. “Estaba chulo (bonito)”, orgulhou-se uma moradora para o repórter.
MADRI
Foi em 1561 que Madri se tornou a capital da Espanha. Cervantes passou algumas épocas ali antes de se estabelecer, de 1608 a 1616, e viver na cidade seus anos literários mais produtivos. Ele morou a maior parte do tempo no Bairro das Letras, então Bairro das Musas, que abrigou outros grandes autores do Século de Ouro espanhol. Há versos deles salpicados pelas ruas e, no século 16, Cervantes viu surgirem ali os primeiros corrales de comedias, espaços fixos de teatro.
Muitas peças eram justamente de grandes autores, como Cervantes e Lope de Vega, que trocaram elogios e depreciações. Hoje, entre teatros, bares, lojas e cafés, o bairro tem livrarias como a Desnível (libreriadesnivel.com), especializada em viagem e aventura, a bonitona La Central (lacentral. com), de acervo mais culto, e a Bardon (Plaza San Martín, 3), uma espécie de casa de ópio para os amantes de livros raros.
O passeio segue pela Rua de Cervantes, onde, no número 2, o autor viveu e morreu (a construção não é a original). No número 11, morou Lope de Vega (essa é da época: casamuseolopedevega org/ es). A Sociedade Cervantina (sociedadcervantina.es) guia visitantes pela Imprensa de San Juan de la Cuesta, onde o primeiro Dom Quixote de La Mancha foi impresso.
Também guiado é o passeio pelo Convento das Trinitárias Descalças, onde Cervantes passou seus últimos anos e pediu para ser enterrado. Uma reconstrução do convento no século 17 dispersou os restos mortais, mas eles foram encontrados em 2015 – agora, há uma lápide em sua homenagem (as visitas vão até o fim do ano, marcadas presencialmente no Centro de Turismo da Plaza Mayor).
ALCALÁ DE HENARES
Passeio comum para quem está em Madri e quer ver algo ligado ao autor de Quixote, Alcalá de Henares foi onde Cervantes nasceu e passou os primeiros anos. Sua casa natal verdadeira, porém, foi descaracterizada e, depois, demolida, dando vez a uma construção com as normas arquitetônicas do século 16, explica o biógrafo de Cervantes Jean Canavaggio. Os móveis são mais cênicos do que deveriam, e há escassez informativa.
Pelo lado positivo, a casa tem boas exposições temporárias, e Alcalá (turismoalcala.es) se destaca pelas atividades cervantinas e culturais – os eventos do Abril de Cervantes, a festa Mercado do Quixote, o Festival de Teatro Clássico, o de curtas Alcine e uma versão sempre diferente da peça Don Juan en Alcalá (montada em uma arena aberta com milhares de espectadores). De resto, visite a Universidade de Alcalá, já ali na época de Cervantes. Ela surgiu como Universidade Complutense (Complutum era o nome romano de Alcalá).
VALLADOLID
No século 16, descreve Jean Canavaggio, “a Plaza Mayor, com seus 500 pórticos e suas 2 mil janelas, era única em toda a península”, e os “palácios e igrejas superavam em número e luxo os de Madri”. Essa foi a Valladolid que Felipe III adotou e tornou capital espanhola de 1601 a 1606. Cervantes morou ali em pelo menos dois desses anos, com duas irmãs, sobrinha, a filha Isabel e a esposa Catalina.
Sua realidade não era a cortesã – a mansarda onde se fixou tinha uma taverna no térreo, um matadouro próximo e 20 pessoas em 13 cômodos, o que não o impediu de terminar ali o primeiro Quixote. A visita à casa tem decoração que foi reunida em 1875, ótimo guia impresso, exibições temporárias e uma bela biblioteca de 1916. Cervantes ambientou em Valladolid a novela O casamento enganoso.
A cidade tem uma miríade de construções do século 16 ou anteriores (como a catedral e o Palácio Real), um museu de Colombo (que morreu por lá) com uso inteligente de tecnologia, excelentes bares de tapa e uma atmosfera tanto elétrica quanto boa vida, com muitos universitários. O comentário do Lonely Planet de que Valladolid é “uma conveniente entrada para o norte da Espanha” é um ultraje – a cidade é mais, muito mais que isso

Barcelona, a ignorada
Thiago Momm/Estadão
COMÉDIA HUMANA DE FAMA IMEDIATA
El Ingenioso Hidalgo Dom Quixote de La Mancha, impresso em Madri em 1605, não deixou Cervantes rico, mas bateu recordes de venda e soprou sobre ele uma fama imediata. Sancho e dom Quixote se tornaram personagens de cortejos e bailes já nos primeiros anos. Surgiu até, em 1614, uma continuação não autorizada de um tal Alonso Fernandez Avellaneda. Ele simplificou os protagonistas, e quando Cervantes publicou a segunda parte de Quixote, em 1615, contra-atacou na própria história. Sem dúvida, o lado burlesco das aventuras era o que mais agradava, mas o livro era mais que isso, sendo considerado o primeiro romance moderno.
Foram muitos os méritos de Cervantes. Ele não conta uma história linear, mas o que o seu biógrafo Jean Canavaggio chama de “universo em expansão”, com inúmeros personagens assumindo e modelando a narrativa. Há o bandoleiro, a noiva abandonada, o universitário de Salamanca, mouros clandestinos, fidalgos, enfim, o que Canavaggio chama de “uma comédia humana” e permite a Cervantes explorar temas como amor, adultério, injustiça.
Nada disso teria eternizado o livro, claro, não fossem Sancho e Quixote, o escudeiro tanto simplório quanto malicioso, cheio de agudezas mundanas e ditados populares, e o erudito cavaleiro andante. A ironia e o espírito do texto ainda funcionam quatro séculos depois.
PARA LER OUVIR E ASSISTIR
Sobre a obra de Cervantes:
1. Dom Quixote de La Mancha (Penguin-Companhia, 1.328 págs., R$ 71,90 os dois volumes).
2. Novelas exemplares (Cosac& Naify, 544 págs., R$ 39,90 na Amazon).
3. Os trabalhos de Pérsiles e Sigismunda (Documenta, 432 págs., R$ 142 sob encomenda na Livraria Cultura; € 28,50 + envio em bertrand.pt); em espanhol, Penguin Clásicos, 496 págs., € 11,95 + envio em lacentral.com).
4. Viaje del Parnaso y otraspoesias (€ 28,50 + envio em lacentral.com).
5. Do compositor alemão Georg Telemann (1681-1767), ouça a suíte Burlesque de Quixotte.
Sobre o escritor:
1. Cervantes, de Jean Canavaggio (Editora 34, 384 págs., R$ 40,37 na Amazon), é uma das biografias mais aclamadas.
2. Las mujeres de Cervantes é um documentário de 2016 da RTVE. Asssista em: bit.ly/mujeres-cervantes.
Sobre o período histórico:
1. La España de Felipe II: assista ao documentário em bit ly/imperioesp.
EPÍLOGO DE CURIOSIDADES
Tal pai, tal filho
Se Dom Quixote é um errante, errantes foram Rodrigo de Cervantes e seu filho Miguel, que moraram em várias cidades buscando melhorar de vida. Não é certo que Miguel, na infância e adolescência, acompanhou o pai. Aos 22, porém, é certo que está na Itália. Em seguida, participa da batalha de Lepanto (Nafpaktos, Grécia). Os cinco anos preso em Argel renderam histórias valiosas. De uma missão sua em Orã pouco se sabe, e de outra em Lisboa ficaram elogios ao cenário e às lisboetas. Casou-se em Esquivias, foi para a Andaluzia, escreveu a primeira parte de Quixote em Valladolid e se fixou na última década de sua vida em Madri, onde produziu a maior parte de sua obra.
Laços de família
Juan, Rodrigo e Miguel de Cervantes, avô, filho e neto, ficaram, em diferentes ocasiões, na mesma prisão em Valladolid. Juan, juiz, foi preso por falsas acusações e solto uma semana depois. Rodrigo, cirurgião (que na época “também fazia às vezes de barbeiro, era pouco mais que um reles artesão”, explica o biógrafo Jean Canavaggio), foi preso por dívida. Miguel estava entre as testemunhas de uma briga e logo foi solto.
Barcelona, a ignorada
Sim, Dom Quixote também passa por Barcelona (foto). Ele diz saber que está próximo da cidade ao ver dezenas de bandoleiros e foragidos enforcados nas árvores pela Justiça. E, em certo ponto, declara: “Barcelona, repositório da cortesia, refúgio dos estrangeiros, hospital dos pobres, pátria dos valentes, vingança dos ofendidos e ninho de firmes amizades correspondidas, e em beleza e localização, única”.
Adeus, estrangeiros
“Nenhuma pessoa seja ousada de receber, ocultar nem acolher mourisco (…), sob pena da perda de todos seus bens”, dizia o mandato que expulsou os mouros da Espanha de 1609 a 1613. Houve ainda a expulsão (ou conversão ao cristianismo) dos judeus (1492) e ciganos (1499), mas muitos ficaram no país, sendo tema para Cervantes na novela La Gitanilla. A expulsão árabe aparece na segunda parte de Quixote.
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