Cabo Frio: história e esporte no DNA
A veterana e suas marcas do tempo


Passarela do Mirante do Forte de São Mateus
Bruna Toni/Estadão
O sol tímido se escondia e anunciava o fim da tarde de um dia em que havia garoado várias vezes. Aquecia assim os pescadores que seguiam o caminho das pedras, literalmente, até a beira do Canal do Itajuru, onde lançavam suas varas para, quem sabe, fisgar uma boa tainha naquele caminho d’água de 6 quilômetros de extensão, entre a Lagoa Araruama e o Oceano Atlântico.
Apesar de a água ser esverdeada à la Caribe – sorte do dia, já que o fenômeno da ressurgência pode deixá-la com cor de caldo de cana -, não queria colocar os pés no gelado. Por isso, permaneci sobre a plataforma de madeira do Morro do Arpoador ou mirante do Forte São Mateus, onde o cenário é ideal aos turistas e suas selfies.
Erguido durante a gestão de Martim de Sá, o pequeno forte pode ser visitado a qualquer momento, com ou sem pescaria, antes ou depois de um passeio pela agradável Praia do Forte, que a fortaleza protegia da entrada de saqueadores a partir do segundo decênio do século 17.
Menos pelas dimensões e mais pelo cronologia, fortes são parte importante da história de Cabo Frio que, ao que se sabe, abrigou a primeira das fortalezas-feitorias do País, o Forte de Santo Inácio, construído por portugueses sobre uma ilhota próxima ao porto de Araruama. Foi a partir dele que, cerca de cem anos após a chegada de Américo Vespúcio às terras batizadas de Gecay pelos índios tupinambás, fundou-se o município de Santa Helena do Cabo Frio. Era 1615 e apenas a sétima cidade do Brasil.
Para mergulhar nos séculos seguintes, caminhe por um estreito trajeto de casas cujos pés de laranja, amora e pitanga tornam ainda mais charmosas as fachadas. Ele leva ao primeiro bairro da cidade, Passagem, onde fica a Igreja de São Benedito, casa espiritual de negros libertos e pescadores no século 19, quando foi construída. Dependendo de onde estiver, pegar um táxi aquático (a partir de R$ 5) pode ser a melhor forma de ir de um bairro a outro.
Símbolo da desigualdade social e da cultura das classes mais pobres que ali viviam, hoje a pequena igreja abre apenas quando há festas, mas é parte essencial do cenário envolvente das apresentações do jongo da Tribal (Associação Cultural Tributo à Arte e à Liberdade) e da roda de samba Santo Samba (bit ly/santosamba).
Nos últimos domingos do mês, os dois grupos incentivam a cantoria e a dança livre no meio da Praça São Benedito, contagiando jovens, idosos, pais e filhos pequenos noite adentro – alguns mais desinibidos até arriscam passinhos -, além dos clientes dos bares do entorno, que fazem jus à fama boêmia do bairro.
Essa não é, porém, a parte mais urbanizada da cidade. A Igreja Matriz e o comércio cabofriense estão concentrados na Avenida Assunção, onde também está o Charitas – Museu e Casa de Cultura José de Dome (bit.ly/charitascabofrio), uma antiga casa de caridade que recebia crianças abandonadas no século 19 e acabou se tornando um amplo espaço cultural, com exposições, palestras, música e artesanato. Abre de terça a domingo, das 14h às 19h.
Já mais perto do Canal do Itajuru, a Rua dos Biquínis (bit ly/ruadosbiquinis) satisfaz com 150 lojas os desejos de consumo dos turistas interessados na moda praia e na moda fitness. É possível que você encontre novidades legais por lá – há peças de R$ 10 a R$ 200 e o espaço abre de domingo a domingo.
Na década de 1950, a atriz Tônica Carrero procurava ali o cantinho da costureira Dona Nilza para fazer seus biquínis. Trinta anos depois, já com mais empresários do ramo instalados no local, a via se transformou na Rua dos Biquínis de hoje, um dos pontos mais visitados da cidade.
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