Convidado da Bienal, artista está atrás de atrocidades
Detalhe de projeção que integra a instalação Uzi Divulgação Na manhã da terça-feira, 11, o artista israelense Yochai Avrahami esteve no Museu do Crime de São Paulo, no Butantã, zona sul da capital paulista. Encontrou, entre outras coisas, um manequim esquartejado dentro de uma mala (que remete ao caso de Maria Mercedes Féa, de 1928). […]


Detalhe de projeção que integra a instalação Uzi
Divulgação
Na manhã da terça-feira, 11, o artista israelense Yochai Avrahami esteve no Museu do Crime de São Paulo, no Butantã, zona sul da capital paulista. Encontrou, entre outras coisas, um manequim esquartejado dentro de uma mala (que remete ao caso de Maria Mercedes Féa, de 1928). E outras histórias, como a de Chico Picadinho. Depois, viajaria a Belo Horizonte afim de conhecer, nos arredores da cidade, o Museu do Escravo e o manicômio de Barbacena – no caso deste último, para saber mais sobre um “escândalo” descoberto por ele, por acaso, no Google: o “holocausto brasileiro” (título de recente livro-reportagem da jornalista Daniela Arbex). O que une esses passeios? Yochai Avrahami está atrás de atrocidades.
Nascido em Afula, Israel, em 1970, ele, que já criou uma instalação inspirada na história da metralhadora Uzi e seu criador, o judeu alemão Uziel Gal, foi um dos primeiros convidados a participar da 31.ª Bienal de São Paulo, marcada para ocorrer entre 6 de setembro e 9 de dezembro. É, segundo uma das curadoras da edição, a israelense Galit Eilat, o quarto artista estrangeiro a chegar ao Brasil para fazer pesquisas para a mostra de arte (outro, já se sabe, é o libanês Walid Raad). Esta Bienal, intitulada Como Falar de Coisas Que Não Existem e com projeto curatorial liderado pelo escocês Charles Esche, promete trazer produções novas do Oriente Médio. Mais ainda, a exposição tem como um de seus principais temas as construções de narrativas.
“Museus são uma das mais fortes ferramentas de uso político”, diz Yochai Avrahami. Em sua prática artística, ele vem investigando a maneira como instituições museológicas e memoriais apresentam histórias de tragédias e sofrimento humano – ou ainda, como são colocadas as narrativas sobre o passado. “Cheguei a esse tópico há cinco ou sete anos, quando se viu uma grande cena de criação dessas instituições em diversos lugares do mundo”, conta.
O artista não quer ficar estigmatizado como um criador que apenas se especifica à história ou ao contexto de Israel em sua prática. Enumera, por exemplo, temas brasileiros que poderiam ser importantes dentro de sua pesquisa. “É um país de imigrantes, de histórias de atrocidades de indígenas, escravos, do regime militar no meio do século 20.” São questões muito sérias, mas, como afirma a curadora Galit Eilat, Yochai Avrahami as trata em suas obras – geralmente, instalações com esculturas, vídeo-projeções e objetos – “com humor”. “Não quero ser uma espécie de jornalista ou ativista”, pondera o artista.
Deslocamentos. Em sua primeira visita ao Brasil – ou a um país abaixo da Linha do Equador, completa -, Yochai faz observações sobre as instituições que conheceu. “Não entendo como tantas pessoas sofreram com o regime militar e não há nenhum museu da ditadura. Me levaram ao Memorial da Resistência (na Estação Pinacoteca), mas fiquei chocado porque o tamanho dele era o espaço entre nós e aquelas janelas”, afirma o artista, que conversou com a redação no pavilhão da Bienal. “Só uma pequena sala era dedicada à cela dos presos”, completa, referindo-se à instituição abrigada no prédio onde funcionou a seção paulista do Departamento de Ordem Política e Social entre 1940 e 1983.
O Museu do Crime – ou Museu da Polícia Civil – também o impressionou. “É totalmente naïf, mas tão forte, interessante”, afirma. “Não existe lá nada de tecnologia interativa”, destaca o artista, considerando o problema de muitos memoriais terem se tornado, por vezes, “lugares de entretenimento”. “Museus militares em Israel jogaram fora o display de antes e criaram outros novos, para atrair os jovens que depois vão entrar no exército e matar pessoas por causa da história contada”, exemplifica Yochai, que tratou, em 2006, da relação entre Israel e Palestina na obra Rocks Ahead.
Outro grande interesse de Yochai é o carnaval brasileiro. Tanto que na terça-feira à noite ele iria conhecer os escultores das alegorias da escola de samba Morro da Casa Verde – queria ver de perto a prática desses criadores populares, já que o israelense faz grande uso do “craft rústico” em suas obras irônicas e humoradas.
Em se tratando do tema atrocidades humanas, o artista lembra que escolas de samba já até recriaram navios negreiros em seus desfiles. Mas não sente que os brasileiros tenham “paixão” para falar ou lembrar das próprias tragédias históricas – como a escravidão. “Nesse ponto, meu interesse está no deslocamento entre divertimento e atrocidade. Como quando se mostrava por exemplo, no passado, negros como animais para entretenimento.”
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