Depressão, um o desafio para a medicina contemporânea
Ainda uma incógnita, a depressão será o problema de saúde mais comum no mundo, em menos de 20 anos. Só no Brasil, estima-se que atinja 38 milhões de pessoas. Especialistas avaliam o transtorno mental sob várias perspectivas em busca de tratamentos eficientes.


Embora existam remédios, a depressão não pode ser curada com “pílulas de felicidade”
Reprodução/Clinipan
Ainda uma incógnita, a depressão vai ser o problema de saúde mais comum no mundo, em menos de 20 anos. Só no Brasil, estima-se que atinja 38 milhões de pessoas. Especialistas avaliam o transtorno mental sob várias perspectivas em busca de tratamentos eficientes.
Mais de 350 milhões de pessoas de todas as idades sofrem de depressão no planeta. A estimativa assustadora da OMS (Organização Mundial da Saúde) é compensada por uma boa notícia: hoje contamos com mais informação e mais opções de tratamento. Nesse caso é fundamental inteirar-se sobre o que há nos campos da medicina e da psicoterapia, e esclarecer dúvidas e preconceitos sobre o transtorno pode ser o primeiro passo para encontrar a estratégia, ou a combinação de várias, mais adequadas. As estimativas variam. mas sem nos deixarmos seduzir pelo exagero, é muito provável que pelo menos um em cada dez de nós enfrente a depressão em alguns momentos da vida.
Os sintomas são cruéis: incluem perda de interesse na vida, insônia, impotência, exaustão crônica e até mesmo aumento do risco de doenças, como cardiopatias. A patologia também leva ao isolamento, uma tendência agravada ainda mais pelo estigma associado ao quadro, o que faz com que tanta gente evite procurar tratamento.
Quando não tratada, a depressão pode levar ao suicídio –OMS estima que a cada 40 segundos uma pessoa atente contra a própria vida de forma direta. Todos esses fatores contribuem para que quadros depressivos sejam hoje considerados como principal causa de incapacitação.
Mas afinal, o que leva alguém à depressão? A questão, tão complexa, pode ser compreendida sob vários olhares. Fatores genéticos e experiências vividas com pais na infância podem ter grande influência para o aparecimento da doença. Nada disso, porém, determina com certeza que a pessoa vai apresentar sintomas. Há características específicas de cada um que fazem com que pessoas diferentes reajam de formas diversas às mesmas experiências.
Para a psicanálise, a depressão pode ser entendida como o rompimento da rede de sentidos e amparo. “É o momento em que o psiquismo falha em sua atividade e deixa entrever o vazio que nos cerca, ou o vazio que o trabalho psíquico tenta cercar; é o momento de um enfrentamento insuportável com a verdade”, afirma a psicanalista Maria Rita Khel, autora do livro O tempo e o cão (Boitempo), ganhador do prêmio Jabuti de melhor livro do ano de não ficção em 2010, que trata do tema da depressão. Algumas pessoas conseguem evitá-la a vida toda, outras passam por ela em circunstâncias traumáticas e saem do outro lado. “Mas há os que não conhecem outro modo de existir”.
Do ponto de vista estritamente biológico, há consenso de que a patologia resulta de um desequilíbrio químico do cérebro. E a serotonina é o principal suspeito de ser o vilão da história, já que muitos estudos têm relacionado a depressão a baixos níveis de neurotransmissor, o que dificulta a propagação de mensagens através das sinapses (os pequenos espaços entre os neurônios).
A teoria era de que um aumento nos níveis de serotonina deve retornar dinâmica neural e o humor para níveis “normais”. O primeiro medicamento baseado na hipótese de serotonina – fluoxetina, mais conhecida como Prozac – foi lançado no final dos anos 80 e quase todos os antidepressivos subsequentes têm operado com o mesmo princípio geral: manter os níveis de serotonina elevados, impedindo o cérebro de reabsorvê-los.
Mas há um porém: embora tais drogas permaneçam como ferramentas importantes no combate da depressão, esses produtos parecem estar ficando cada vez menos eficazes. Há duas décadas, 1,5% da população dos Estados Unidos sofria de depressões que exigiam tratamento. Hoje esse número subiu para 5%. Parece impossível não se perguntar se a doença cresce com o desenvolvimento da medicina ou se a indústria farmacêutica produz as doenças para os remédios que desenvolve, do mesmo modo que outros ramos empresariais criam mercados para seus produtos.
Boas escolhas: hábitos saudáveis, como meditação e alimentação rica em legumes e frutas, podem ajudar a previnir o desequilíbrio. O fato é que, qualquer que seja o caminho para reverter ou atenuar os sintomas depressivos, ele possivelmente não vai ser definitivo e, menos ainda, milagroso.
Assumir que em vez de buscar soluções prontas é necessário construir possibilidades de bem-estar também se faz urgente – e pode ser a melhor forma de combater a ameaça da depressão.
Posts Relacionados

Fundação Cultural de São José disponibiliza guia online com programação de setembro

Mário Toledo lança segundo livro como coautor em São Paulo na semana de abertura da Bienal do Livro

Carmo Dalla Vecchia e Vanessa Gerbelli falam sobre a peça “Forever Young” no Meon Entrevista
