Depressão, um o desafio para a medicina contemporânea

Ainda uma incógnita, a depressão será o problema de saúde mais comum no mundo, em menos de 20 anos. Só no Brasil, estima-se que atinja 38 milhões de pessoas. Especialistas avaliam o transtorno mental sob várias perspectivas em busca de tratamentos eficientes.

Escrito por: Ler Saúde4 min de leitura
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Embora existam remédios, a depressão não pode ser curada com “pílulas de felicidade”

Reprodução/Clinipan

Ainda uma incógnita, a depressão vai ser o problema de saúde mais comum no mundo, em menos de 20 anos. Só no Brasil, estima-se que atinja 38 milhões de pessoas. Especialistas avaliam o transtorno mental sob várias perspectivas em busca de tratamentos eficientes.

Mais de 350 milhões de pessoas de todas as idades sofrem de depressão no planeta. A estimativa assustadora da OMS (Organização Mundial da Saúde) é compensada por uma boa notícia: hoje contamos com mais informação e mais opções de tratamento. Nesse caso é fundamental inteirar-se sobre o que há nos campos da medicina e da psicoterapia, e esclarecer dúvidas e preconceitos sobre o transtorno pode ser o primeiro passo para encontrar a estratégia, ou a combinação de várias, mais adequadas. As estimativas variam. mas sem nos deixarmos seduzir pelo exagero, é muito provável que pelo menos um em cada dez de nós enfrente a depressão em alguns momentos da vida.

Os sintomas são cruéis: incluem perda de interesse na vida, insônia, impotência, exaustão crônica e até mesmo aumento do risco de doenças, como cardiopatias. A patologia também leva ao isolamento, uma tendência agravada ainda mais pelo estigma associado ao quadro, o que faz com que tanta gente evite procurar tratamento.

Quando não tratada, a depressão pode levar ao suicídio –OMS estima que a cada 40 segundos uma pessoa atente contra a própria vida de forma direta. Todos esses fatores contribuem para que quadros depressivos sejam hoje considerados como principal causa de incapacitação.

Mas afinal, o que leva alguém à depressão? A questão, tão complexa, pode ser compreendida sob vários olhares. Fatores genéticos e experiências vividas com pais na infância podem ter grande influência para o aparecimento da doença. Nada disso, porém, determina com certeza que a pessoa vai apresentar sintomas. Há características específicas de cada um que fazem com que pessoas diferentes reajam de formas diversas às mesmas experiências.

Para a psicanálise, a depressão pode ser entendida como o rompimento da rede de sentidos e amparo. “É o momento em que o psiquismo falha em sua atividade e deixa entrever o vazio que nos cerca, ou o vazio que o trabalho psíquico tenta cercar; é o momento de um enfrentamento insuportável com a verdade”, afirma a psicanalista Maria Rita Khel, autora do livro O tempo e o cão (Boitempo), ganhador do prêmio Jabuti de melhor livro do ano de não ficção em 2010, que trata do tema da depressão. Algumas pessoas conseguem evitá-la a vida toda, outras passam por ela em circunstâncias traumáticas e saem do outro lado. “Mas há os que não conhecem outro modo de existir”.

Do ponto de vista estritamente biológico, há consenso de que a patologia resulta de um desequilíbrio químico do cérebro. E a serotonina é o principal suspeito de ser o vilão da história, já que muitos estudos têm relacionado a depressão a baixos níveis de neurotransmissor, o que dificulta a propagação de mensagens através das sinapses (os pequenos espaços entre os neurônios).
A teoria era de que um aumento nos níveis de serotonina deve retornar dinâmica neural e o humor para níveis “normais”. O primeiro medicamento baseado na hipótese de serotonina – fluoxetina, mais conhecida como Prozac – foi lançado no final dos anos 80 e quase todos os antidepressivos subsequentes têm operado com o mesmo princípio geral: manter os níveis de serotonina elevados, impedindo o cérebro de reabsorvê-los.

Mas há um porém: embora tais drogas permaneçam como ferramentas importantes no combate da depressão, esses produtos parecem estar ficando cada vez menos eficazes. Há duas décadas, 1,5% da população dos Estados Unidos sofria de depressões que exigiam tratamento. Hoje esse número subiu para 5%. Parece impossível não se perguntar se a doença cresce com o desenvolvimento da medicina ou se a indústria farmacêutica produz as doenças para os remédios que desenvolve, do mesmo modo que outros ramos empresariais criam mercados para seus produtos.

Boas escolhas: hábitos saudáveis, como meditação e alimentação rica em legumes e frutas, podem ajudar a previnir o desequilíbrio. O fato é que, qualquer que seja o caminho para reverter ou atenuar os sintomas depressivos, ele possivelmente não vai ser definitivo e, menos ainda, milagroso.

Assumir que em vez de buscar soluções prontas é necessário construir possibilidades de bem-estar também se faz urgente – e pode ser a melhor forma de combater a ameaça da depressão.

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